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Cada vez mais times optam por se defender e esquecem de atacar, mas retranca boa é aquela armada pra ganhar jogo, não para não perder

Joga pra frente, hoje, é a exceção. A regra parece ser a de retranca e, quem sabe, o contra-ataque! Já tem um tempo que venho percebendo isso, mas me ficou claro como dia na última semana. Nunca uma rodada do Chuteira teve tantas vezes utilizadas as palavras ferrolho e retranca para qualificar o modo de um time jogar. E na Copa Calcio, idem.
 
A retranca do Middle Aged Wolves contra o Primatas no Chuteira Master quase rendeu algo. O time perdeu de 3 x 1, mas segurou o bicampeão por quase 35 dos 40 minutos, até sofrer a virada. E olha que Luisinho teve duas chances para dar um destino diferente ao jogo! Foram duas chances e um gol de escanteio de Renan – além disso, só um time se defendendo com unhas, dentes e o que mais tiver para evitar o outro de vazar sua defesa!
 
A retranca ganhou notoriedade no Brasil com a Seleção Brasileira dirigida por Parreira em 1994. Aquele era um time que priorizava a defesa e tinha alguém no ataque pra decidir – no caso, Romário e, em menor grau, Bebeto. Depois do futebol classudo dos anos 80, quando jogou bonito e não ganhou nada, o Brasil viu-se num dilema: jogar bonito e perder ou... Veio Parreira e mostrou que era possível jogar feio e ganhar. Ele fez isso e tirou o Brasil de 24 anos de fila.
 
Ali o futebol brasileiro mudou. Focar a defesa passou a ser o elemento fundamental. Na verdade, não sofrer gols passou a ser a missão número 1 em campo. Fazer gol era secundário, algo imortalizado na famosa frase de vencer por meio a zero que até então acredita ser atribuída a Parreira. No fut 7, pelas características da quadra e a dinâmica do jogo, um jogo acabar sem gols é quase impossível. São raros os casos e em 13 anos de Chuteira conta-se nos dedos das mãos as vezes em que isso aconteceu.
 
Assim, gols saem e pela medida menor do espaço, em grande profusão. Já tivemos, por exemplo, goleadas com um time chegando a incríveis 28 gols (recorde). Mas o ponto é que os times que jogam defensivamente estão crescendo. Se antes eram vistos times inferiores indo pra cima, hoje não se vê mais. O time que se sabe inferior abdica de jogar, de propor jogo, e passa a pensar exclusivamente em se defender. Se der, achar um golzinho lá na frente! O society está imitando a pobreza do futebol de campo!
 
Na atual Prata, o Paraguay executou a tática com maestria no primeiro tempo contra o Condor´s. Vitória parcial por 3 x 1, marcando três vezes em quatro chegadas ao ataque. Só tomou o gol porque um jogador errou. Aquela retranca parou o leve e rápido ataque do Condor´s, que se viu basicamente tendo de chutar de longe. No segundo tempo, porém, o excesso de faltas acabou por pendurar o Paraguay e, ao fim, nocauteá-lo. São ossos do ofício, riscos que um time se propõe a correr ao optar por jogar sem a bola e correndo atrás do adversário o tempo todo. Para dar certo, é preciso uma conjunção de coisas, muita qualidade nos desarmes e muita disposição para se movimentar sem bola. Sem contar a sorte, ou seria coragem?
 
Foi o caso do Rabisco ante o bicho-papão Futsamba, pela Série Aço. Valia a liderança do Grupo B e nem o Rabisco imaginava que podia acabar a rodada mais líder do que nunca! O time entrou em quadra focado. Murilo quis estragar tudo dando um carrinho criminoso logo aos 2 minutos e sendo expulso de cara! Sim, sem um de seus principais jogadores, o Rabisco se superou e jogou com tudo para vencer por 3 x 2, gol de Jales no lance final!
 
A sorte segue a coragem, diz o filósofo pop Mario Sergio Cortella. Ele quer dizer que sorte não é meramente acidente. Quem trabalha prepara-se para ter sorte. O Rabisco fez isso, tanto que o primeiro gol de Jales, para empatar, não pode ser mera sorte do escorregão de Thesko, pois ele se propôs a ameaçá-lo e colheu os frutos. É sorte ou sina que Tarja Preta, com as ausências de Diego e Mão, tenha assumido a meta do Rabisco e sido o grande nome do jogo, com defesas fantásticas e milagrosas?
 
É uma confluência de coisas, uma valsa de astros, pois o Rabisco viu Zé, o melhor e mais perigoso jogador do Futsamba, ter seu cruzamento cortado, ouvir um “beeeeeeem” na sua cara e deixar tapa no rosto de Herpes, para ser expulso por tal atitude? Erro do adversário, goleiro pegando tudo, melhor jogador do adversário expulso, seu time correndo e vibrando muito... Isso só tende a elevar o moral e criar um cenário para a melhor sorte possível. Sorte? O Rabisco teve a coragem de pensar que podia vencer, de jogar com essa vibe toda, de retrancar-se com extrema eficiência e fazer os gols quando teve a chance! Repito: sorte?
 
Retranca boa é aquela feita com emoção e racionalidade e que ganha jogo. Vou ser mais detalhista: não é não perder o jogo, mas sim ganhar o jogo. Retranca racional é a que o Fora de Série armou para o Catado. Em má situação como há tempos não se via, o Fora foi o veículo perfeito para Dacal aprontar das suas. Tachado de retranqueiro (mas campeão, dirão seus fieis defensores), ele não assume a pecha mas monta seus times focados na marcação, tendo à disposição jogadores de alta velocidade e decisivos, como Masson, Juliano e Jhoni – tranquilamente três dos 5 jogadores mais rápidos em atividade no Chuteira – para o contra-ataque. Mesmo assim, não conseguiu sair do 0 x 0 até os 25 do segundo tempo, para sofrer o empate aos 26. Marcou em falta ensaiada planejada com pedido de tempo (olha o dedo do técnico aí!). Sofreu o empate em falta batida rapidamente e bobeada de seu setor defensivo.
 
Para montar uma retranca bem-sucedida, é preciso ter atenção 110% do tempo. É preciso não cometer falhas ou reduzi-las ao máximo, pois o goleiro nem sempre vai fazer milagres. Uma piscada e você já era! O que vinha sendo uma partida fenomenal passa a ser uma estratégia errônea. O resultado final, amigo, dará o tom da genialidade. É assim no futebol. Uma retranca formidável e derrota por 1 x 0 nos acréscimos é uma derrota da opção tática. Um empate, baita resultado. E o que dizer de uma vitória como a do Real Madruga ante o Mulekes???
 
Essa foi a vitória da rodada, e não adianta dizer que o Mulekes jogou mal e tal. O Madruga foi gigante e, estando em uma má jornada ou não, ganhou do tricampeão! Quantos times pegaram o Mulekes jogando mal e saíram goleados? Não tiveram a coragem (sorte?) de bater de frente, de se fechar bem na defesa. Não tiveram a liderança defensiva de Cesão, as espetadas certeiras e nem um goleiro abençoado como Matheus, que pegou tudo e mais um pouco. Eis algo importante quando se fala numa retranca bem-sucedida: o goleiro precisa ser bom e contar com o apoio da deusa Fortuna!
 
Outras duas retrancas aconteceram na Copa Calcio, quinta passada, em sua 2ª rodada. O Boroçava encarou o Roleta Russa Olímpico, que precisa aprender o que é uma boa retranca para por em prática na Série Ouro antes que seja tarde demais (há quem diga que já é), e levou um ponto pra casa. O time comandado por Leandro Dias abdicou de atacar pra valer, chegando ao gol adversário não mais que os dedos da mão de Lula. O Roleta teve a bola e martelou muito, mas não foi competente para vazar Léo Voador mais que uma vez. Se o tivesse feito, diríamos que o ferrolho fumante não deu certo. Como empatou, podemos dizer que deu certo. Foi eficiente? Nesse jogo, a se olhar o resultado, foi, mas em nenhum momento o Boroçava parecia que ia vencer. Não seu viu um time armado para vencer, mas sim para não perder.
 
Exatamente o oposto de outro jogo da Calcio, entre Del Coito e Tudo Bacana. O Del Coito sim armou um time para jogar defensivamente e contra-atacar. Jogadores com vontade, correndo, alto poder de desarme e muita qualidade na transição, velocidade no contra-ataque. Foi assim que o time de Jaime matou o Tudo Bacana por 5 x 0, fechadinho, retomando a bola e num piscar de olhos fazendo-a chegar logo a Gabs e deste para o gol. Ajudou, claro, a fragilidade defensiva do adversário, que ficou perdido entre atacar e negligenciou a retaguarda, mas isso não tira em nada o mérito da armação do time e da execução perfeita durante os 40 minutos. Retranca bem feita e inteligente, capaz de ser agressiva. Nada perneta. Time armado para vencer, não para não perder. Isso faz toda a diferença.
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