Vamos falar a verdade pura e simples, a Prata tem uma final absolutamente inesperada. O leitor pode jogar para a torcida e dizer que já esperava, que o Madruga é sempre perigoso e de chegada, que o Camaro se reforçou e era questão de tempo para ir longe. Pode dizer o que quiser, mas ninguém apostaria mais que uma nota rosada nesses times. Noves fora que foi um dos semestres de maiores surpresas na divisão.
A começar pela divisão dos grupos, com nitidamente o Grupo A com equipes mais tradicionais e de reconhecimento técnico. Não à toa logo o chamamos de grupo da morte (eis um vício do nosso futebol – qualquer grupo com times mais fortes de antemão já é chamado assim). Na análise prévia ao torneio, teríamos a briga para ver quem cairia entre Absolutos, Imperial e Abusados. Acertamos com a queda do Abusados? Sim, mas só foi graças a perda de pontos. Caso contrário, chupa pra nós. Absolutos e Imperial, o que dizer? Foram soberanos no grupo e brigaram até a rodada final para ver quem subiria vencendo o grupo! Opa, aqui tem algo muito errado, ninguém viu que poderiam ser forças no grupo? Como que quem estava cotado a cair ficou nas primeiras posições? Chupa pra nós gostoso.
Em defesa do que falamos, não que busquemos ter a palavra certa ou final de qualquer discussão – afinal, estamos a falar de esporte, de competição, de futebol, de dois lados que buscam o mesmo objetivo e trabalham suas armas para isso, ou seja, nada é mais sólido e se desmancha no ar do que previsão em futebol –, mas sim apenas seguindo a coerência inicial, Absolutos e Imperial caíram nas quartas. Muda algo da proeza da 1ª fase? Não. Faz-nos menores? Jamais!
Pelo contrário, só torna maior a campanha daqueles que lá chegaram. Invictus e Camaro nas semifinais? Como podem um time que subiu graças a desistências e outro que se especializou, no último ano, em brigar para não cair, sempre com adrenalina até a rodada final, estarem à beira de subir para a Ouro e decidir um título?
Freud não explica, muito menos nós. Entretanto, a razão fica de lado só para quem não observar as mudanças nessas agremiações que vestem amarelo. No Invictus, o técnico Leandro enfim conseguiu trazer um elenco de alta qualidade que pudesse revezar e não perder o ritmo. Ao menos meia dúzia de caras novas chegou e transformou uma equipe com pecha de morrer na praia em pleiteante séria e respeitada, muitas vezes temida.
O Camaro talvez seja o ponto fora da curva. Ninguém imaginou o time na grande final. Ninguém imaginou o time disputando uma Série Ouro. Por falta de camisa? Falta de qualidade técnica? Não, mas sim por falta do comprometimento que vem da vontade e dedicação de se lutar e ir longe. O Cafas, nos últimos tempos, se mostrou um time disperso, com nomes descompromissados com a vitória e o sucesso. Elenco contado, desânimo. O técnico Thiago, no cargo desde o semestre passado, pode ter algum mérito em encerar o velho capô amarelo manchado por um reluzente.
Em conversa informal pós-semifinal, Reina, manager do Camaro, confirmou que pouco mudou no time – algumas peças chegaram e outras voltaram, mas nada que possa dizer de uma reformulação mais drástica, caso do Invictus acima, foi feita. Para ele, mudou a postura, mudou o comprometimento, mudou a forma de encarar o futebol de todo sábado. “Semestre passado vínhamos contados. Neste tivemos um banco de reservas farto em todos os jogos”. Banco ganha jogo? Não, mas ajuda.
A proeza do Camaro passa por um 2º lugar na fase de grupos, com triunfo sobre adversários tidos como favoritos (Fúria, Só Risada, Invictus, The Veras), e um mata-mata melhor ainda. Ante o Imperial, virada para 3 x 2 após sair perdendo por 2 x 0. Ante o temido Raça, espetacular 3 x 0 na quadra grande, onde se defender soberanamente por 50 minutos é quase impossível.
A defesa é o ponto forte do Camaro. Na 1ª fase, sofreu apenas 19 gols, só ficando atrás do Invictus (15) e do Absolutos no outro grupo (18). É uma média de 2,3 gols sofridos por jogo (no mata-mata, a média é de 1,5 por jogo). Comparando com o semestre passado, quando terminou a fase de grupos na 8ª colocação, na vice-lanterna, a defesa melhorou quase 58%, passando de 33 gols sofridos para apenas 19.
No ataque o time também melhorou muito, apesar de ainda ficar muito a dever. Na 15ª edição, foram apenas 13 gols marcados em 8 jogos. Na atual, foram 21. A média subiu de 1,62 para 2,62. É muito pouco. Nunca um time foi campeão com média de gols tão baixa.
Nada menos que 11 jogadores diferentes deixaram sua marca, sendo Tiozão, com os dois marcados na semi, o artilheiro com 5 gols. Nos MVPs, o único a computar entre os 10 maiores foi Tevez, que fez 3 partidas e foi o melhor nas 3 e terminou com 9 estrelas. Ao total, o time teve 25 estrelas em 8 rodadas, média de 3 por partida (num total máximo de 6 por jogo, ou 48 estrelas sendo o limite). Nada menos que 8 atletas foram, de alguma forma, decisivos em alguma partida.
Para efeito comparativo, o seu rival, o Madruga, que ficou em 4º na classificação final da 1ª fase no outro grupo, somou 18 estrelas com apenas 4 jogadores (Rafa Ornelas teve 7; Zaron outras 5). O líder final foi o Morada, com 38 estrelas. O único time a ter mais pontuadores de MVP foi o Invictus, com 10 jogadores sendo estrelados (total de 30 estrelas). Em síntese, são dois times cujo conjunto fala mais alto, muito mais o Camaro, e quando isso acontece as individualidades não se sobressaem tanto.
O Real Madruga, apesar de pior campanha, tem melhor ataque e pior defesa. Com um jogo a mais (disputou as oitavas), chegou à marca de 46 gols anotados em 11 jogos (4,2 por jogo) e 38 sofridos – média de pouco mais de 3 por partida (só no mata-mata, as médias ficam em 4,66 gols feitos e 1,6 sofridos).
Foram 9 jogadores diferentes a balançar as redes. Rafa Ornelas guardou 13 vezes é o líder do time em gols feitos (só perde para Lele, do Morada, que soma 15). Zaron e Zé, dois dos responsáveis pelo meio de campo do time, fizeram 7 cada um. A maior parte dos gols de Zaron foi de cabeça, com assistência com a mão de Zé. Se Zé optasse pelo basquete ao invés do futebol, é certo que seria craque – joga com as mãos com extrema competência e é assim que o Madruga vence a maioria de seus jogos. É a famosa bola parada, o muricybol, o chuveirinho (no campo) que no society vira bola na área de escanteio, de lateral (o que Douglas Almasi chamou de ‘madrugabol’). Já vimos times serem campeões assim, mas para tanto precisam ter uma defesa extremamente afinada (vide o Boa Pergunta ao ser campeão da VI Copa Calcio – defesa sólida e bola na área de qualquer lugar da quadra).
Defesa afinada o Madruga sempre teve – era o forte do time até o ano passado. No 1º semestre, porém, a coisa não funcionou assim tão bem. Em termos comparativos – foram 25 gols sofridos na 1ª fase (3,12 pjogo) ante 32 na atual temporada (4 pjogo). No ano passado, quando jogou a Ouro e caiu, foram 35 gols na fase classificatória. No 1º semestre de 2015, quando foi semifinalista da Prata, foram 22 gols sofridos em 9 jogos (menos de 2,5 por partida!). Ou seja, basicamente a defesa do Madruga decaiu e, nesta Prata, teve o mesmo rendimento de quando jogou a Ouro, com rivais mais qualificados. Sinal dos tempos?
No ataque, a 15ª edição viu 46 gols só na 1ª fase (número neste semestre alcançado apenas somando as 3 partidas realizadas no mata-mata. Assim, percebe-se que o Madruga teve um ataque 30% menos poderoso, além de uma defesa 32% mais vazada. Resumindo: o Madruga está abaixo do que fez no semestre passado, mas, ao contrário daquela ocasião, quando caiu nas oitavas para o Peneira, está na final. Isso é futebol.
São dois times experientes, que se prepararam para a final na quadra grande. Ninguém terá desculpa de desconhecer o palco da grande final. O Camaro deve jogar fechado e buscar os contragolpes. Foi assim contra o Raça e não tem por que mudar a receita. O time foi efetivo quando criou e assim fez 3 x 0. O Madruga meteu um 7 x 0 na melhor defesa de toda a Prata com a maior facilidade do mundo. A bola parada (amém!) foi o fator primordial. Cada bola alçada na área do Invictus era um Deus nos acuda. Foi assim também nas outras partidas de mata-mata. A bola parada do Madruga decidiu. Todo mundo sabe que vai ser assim. Ninguém consegue evitar que dê certo.
A pergunta que fica é: poderá o Camaro deter essa bola parada? Se não, o título já tem dono. Se sim, podemos ter uma final tão surpreendente quanto foi todo o torneio. Faria jus à mais louca das edições da Prata.
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