Conhecido por sua habilidade com a bola nos pés, o jogador brasileiro tem o instinto de fazer gols. No Chuteira não é diferente. Muitos são os que balançam as redes todo sábado, porém, tem um “matador” que andava escondido – viveu até um certo ostracismo que lembra George Valentin
(personagem de Jean Dujardin no filme ‘O Artista’, de 2011). Aos 34 anos, 10 anos dele jogando o Chuteira,
Eduardo Memé é o único jogador que disputou todas as edições do Chuteira, ou seja, está em sua 22ª edição! E depois de muito tempo, quase 6 anos, voltou a ser destaque: campeão da 10ª edição do Festival Bola na Rede com o Só Quem Sabe, fez dois gols na final e saiu com o troféu de artilheiro da competição (marcou 9 gols em 6 jogos).
Contudo, seu caminho até se tornar, hoje, dono da camisa 6 aurinegra teve estrada. Sua história e a do Chuteira se confundem – afinal, ele está no Chuteira desde que apenas 5 times disputaram o primeiro título, lá em 2006. Atuou pelo extinto Truco 7 nas duas primeiras temporadas, quando, ele e seu irmão, Totó, migraram para o SNG, que o parceiro de ataque Renê Araújo ressuscitava junto a amigos da adolescência. Ali ele ficou 4 anos, tempo em que foi tricampeão da Série Ouro (além de dois vice-campeonatos).
Após o terceiro título, no segundo semestre de 2010, ele deixou o time e foi jogar no Não Guento Mais (NGM), uma espécie de amigos ruins de bola do SNG que, após início folclórico assumindo ser saco de pancadas, visava melhorar e disputar títulos. Lá ficou até a dissolução da agremiação, no fim de 2015, na maior parte desse tempo também como manager. Entretanto, praticamente sumiu das tábuas de artilharia. “Não era fácil administrar, cuidar de tudo, mas eu gostava demais. Foi uma família que construí ali dentro que vou guardar na memória para sempre”, relembra daqueles anos.
A volta por cima em 2016 coincide com uma conjuntura particular delicada. “Tenho passado um momento bem difícil na minha vida, sem emprego há mais de 3 meses. O futebol foi quem me deu forças para superar isso”, confessa um dos Top 5 artilheiros da história do Chuteira.
Confira o que tem a dizer um dos maiores jogadores da história do Chuteira de Ouro, o querido Memé.
Você é o único jogador a estar em todas as 22 edições de Chuteira, desde o começo, em maio de 2006. Como é ter jogador 10 anos ininterruptos?
Caramba! Ser o único a jogar todas as edições dentro de campo, que honra! É algo sensacional. Sempre levei o campeonato muito a sério. A cada semestre tento me preparar da melhor maneira possível. O Chuteira já faz parte da minha vida de todas as maneiras e pra mim é uma satisfação imensa fazer parte dessa história.
O quanto você vive o Chuteira fora dos sábados? Acompanha durante a semana?
Eu posso te dizer que respiro o Chuteira todos os dias. Acesso o site quase que diariamente, conversas nos grupos de whattsapp, dentro de casa com os filhos, que sempre perguntam, pedem pra ver as matérias, resultados, os vídeos. Eles acompanham também, é tudo muito legal. O Chuteira hoje entrou de uma forma na minha vida que não me vejo mais sem ele. É como a família, na alegria da vitória ou na tristeza da derrota, sempre estaremos juntos.
Por acaso você se inspirou em atacantes como Ricardo Oliveira (atacante do Santos, foi artilheiro do Brasileirão 2015 aos 35 anos com 20 gols) para, aos 34 anos, tornar-se artilheiro de uma competição de alto nível como o Festival Bola Na Rede?
Pode até se dizer que sim, porque se trata de um grande jogador. Mas o maior fator para que eu tenha conquistado isso é a forma de jogar do Só Quem Sabe, time muito tático e rápido. Isso me ajudou muito.
Foi necessário um esquema tático especial para que você pudesse fazer os gols que o SQS necessitava, ou apenas se encaixou no estilo de jogo do time – que já consagrou nomes como Serjão e Vitão (hoje no Camelo), por exemplo?
Acho que as duas coisas, pois o Só Quem Sabe mudou seu jeito de jogar a partir deste ano. Com um novo esquema, e atuando como um “camisa 9”, acabei me encaixando. Assim, os gols vieram naturalmente. Espero continuar nesse mesmo ritmo, com muitos gols, neste semestre na Série Prata. E o Serjão é um grande jogador, já tive o prazer de enfrentá-lo. Sábado contra o Primatas ele voltou ao time e meteu dois gols já!
Sobre a campanha vitoriosa no Festival, com média de 1,5 gols seus por partida, como foi a preparação?
Não digo preparação, mas tenho passado um momento bem difícil na minha vida, sem emprego há mais de 3 meses. O futebol foi quem me deu forças para superar isso. Tenho treinado bastante, e jogado quase todos os dias. Acredito que tenha alcançado um bom nível de jogo, e espero continuar com essa pegada. Quero ter forças para continuar de cabeça erguida e não desanimar.
Essa nova fase do Memé, então, passa por momentos delicados que vão além do campo. Como o Mezadri (manager) e a rapaziada do SQS têm te ajudado? Todos foram receptivos em sua chegada ou teve alguém de cara feia?
O Meza é um cara sensacional, e desde os primeiros dias de todos foram bem receptivos e me apoiaram. É um time de amigos muito unido, e não teve cara feia, não. Pelo contrário, hoje já me sinto em casa com eles.
Facilitou também você conhecer alguns jogadores do elenco antes, inclusive dos tempos de NGM x SQS, não?
Sim, nos enfrentamos algumas vezes em bons jogos, e sempre tive uma amizade com a galera do SQS. Estudei com o Minhoca e com o Lê, e quando a gente se cruzava tinha o convite para nos juntarmos. Sempre gostei da forma deles jogarem. Prometi e cumpri: hoje estamos juntos em busca de mais conquistas.
Sua ida ao Só Quem Sabe se deu pelo fim do NGM. Como foi tomar a decisão de extinguir uma equipe que ocupou os corações de boa parte dos jogadores do Chuteira durante um bom tempo?
Puxa, foi uma decisão bem difícil e triste. Não era fácil administrar, cuidar de tudo, mas eu gostava demais. Foi uma família que construí e que vou guardar na memória para sempre. Fiz grandes amigos. Porém, a questão financeira pesou e tive de tomar essa decisão. Quem sabe um dia voltamos.
O NGM começou como uma brincadeira, mas, com sua entrada, passou a ser visto com olhares diferentes. Tanto que o time chegou a disputar de forma intensa alguns acessos. Quais os erros e acertos do Memé em relação à nova (e última) fase do NGM?
Quando saí do SNG, depois da final contra o Fora de Série (
decisão da 10ª edição da Série Ouro do Chuteira, vencida pelo SNG por 5 x 1), fui para o NGM já com a ideia de tentar colocar a equipe num outro patamar. Com as amizades, conseguimos montar um belo time, com vários ex-jogadores do SNG e até com o Caio Ribeiro
(ex-jogador profissional e atual comentarista de futebol na Rede Globo). Conseguimos ficar 3 temporadas na Série Prata. O maior erro talvez tenha sido na parte financeira, da forma como fazíamos.
No NGM, foram 5 anos jogando e gerenciando, até a dissolução da equipe por questões financeiras
Como funcionava essa parte?
Deixávamos para o Márcio
(Avena, ex-jogador e um dos idealizadores do NGM), então tesoureiro do time, fazer os pagamentos antecipados. E durante o campeonato íamos acertando conforme o combinado com os jogadores. Essa parte ficou bem complicada, porque depois que ele saiu não consegui mais dar continuidade ao trabalho feito.
Nem todos sabem, mas você é tricampeão da Série Ouro do Chuteira como jogador, defendendo o SNG. É algo raro. Quais lembranças você tem daquela época dourada de um dos gigantes da Liga? Era mais fácil ser campeão naquele tempo?
Só lembranças boas. Éramos um time fortíssimo, e na época estávamos todos no auge, voando. Minha dupla com o Renê rendeu quase 50 gols nos dois primeiros títulos.
(correção: a dupla fez 64 gols na campanha do bicampeonato, em 2007) Nossa base jogava junta há anos, isso ajudou bastante. Naquela época a dificuldade talvez não fosse tanta quanto é hoje, mas nunca foi fácil ser campeão. Sempre foi um campeonato com times fortes e equilibrados.
Além do Bengalas, vocês rivalizavam com mais algum time, ou era restrita ao também tricampeão?
Com o Joga 13, claro, mas era uma rivalidade sadia, de amizade, e de jogos espetaculares. Só que, diferentemente de como era com o Bengalas, do qual perdemos duas finais
(8ª e 9ª edições), o 13 sempre foi nosso freguês
(risos).
Atualmente, é possível montar times fortes e que vençam tantas vezes seguidas como o SNG fez na década passada, formando elencos apenas de amigos?
É possível, sim, ter um time forte de amigos, mas vencer seguidas vezes acho mais complicado hoje em dia. Até pelo nível técnico altíssimo que o Chuteira atingiu.
Você sabe que um dos motivos de hoje a competição ter nível técnico alto foi pelo seu desempenho e o do SNG na década passada, quando todos queriam vencer ele e o Bengalas. Ou você discorda?
O legal da competição é isso. Pode ter influenciado, sim. Na época, o domínio que SNG e Bengalas tinham era enorme. Todos queriam bater no Se Não Guenta.
Acima, Memé na final do X Chuteira de Ouro, quando foi tricampeão;
abaixo, com a primeira formação do SNG

Fale da parceria com Renê Araújo, uma lenda do Chuteira. Dizem que você era o fiel escudeiro dele. Está certo isso?
Renê dispensa comentários. Além de ser uma pessoa do bem, joga demais – e continua jogando! Sem dúvida, minha melhor parceria no futebol até hoje. Tínhamos uma sintonia perfeita e fazíamos muitos gols. Na época do SNG podia dizer, sim, em eu ser fiel escudeiro. Além de gols, ajudava-o a cuidar do time. Hoje, devido às circunstâncias da vida, estamos um pouco afastados, mas ele é um irmão que terei para o resto da vida.
(Memé marcou 88 gols pelo SNG em partidas pelo Chuteira; a dupla com Renê, incluindo os 19 gols pelo Truco 7, somou 251 gols até a saída dele da equipe)
Muitas vezes você jogou taticamente bem, mas quem recebia os louros era o Renê, pelos gols que fazia. Isso chegou a te magoar?
De maneira alguma. Tínhamos um time muito técnico, e o Renê sempre foi decisivo. Aprendi muito jogando com ele.
Você viveu um período de ostracismo no Chuteira, sobretudo na aproximação do fim de sua participação no SNG. Como buscou forças para se manter equilibrado?
No apoio dos amigos, sem dúvida. E hoje já são 10 anos de Chuteira, espero ter saúde para mais 10 anos
(risos).
Em 10 anos de participação nas competições do Chuteira, qual foi “o gol” do Memé?
Bom, difícil lembrar do mais bonito, são quase 200 gols, mas lembro de um: contra o Joga 13, em um sábado chuvoso, que perdíamos por 3 x 2 e empatei com um belo chute do meio de campo no ângulo do Caieras, este eterno freguês
(risos). Como o mais importante, vou citar um recente, na final do Bola na Rede, pelo Só Quem Sabe. Foi no segundo tempo, perdíamos de 1 x 0, e eu fiz o gol de empate em um momento difícil da partida. Ali ganhamos forças para virar e ser campeão.
E qual “o jogo” do Memé?
Na época do SNG, tinha um time que sempre sofreu com a gente, o The Veras
(hoje na Série Prata). Certa vez ganhamos de 9 x 3 e nunca me esqueço: o Renê marcou 5 e eu fiz 4!
Você é pai de 3 meninos (15, 12 e 7 anos) e sempre faz questão de trazê-los aos jogos, ao ambiente Chuteira. Por quê?
Sempre gostei de levar meus filhos no Chuteira desde que eram pequenos. Quero que aprendam a ser comprometidos, que tenham ciência de que nada que conquistamos vem fácil, mas, sim, com muita luta e empenho. A família é o nosso maior matrimônio. Sem ela a vida não teria sentido.
Comentários (1)
- Lói
set 20, 2016Memé é uma figura sensacional, um cara nota dez e osso duro de marcar... Sempre bom saber q tem gnt q, como eu, tb ama jogar esse campeonato... Espero seguir vendo o Memé por mts anos ainda todos os sábados no Chuteira