É preciso admitir, queira você ou não: ter alguém exclusivamente para ser técnico e cuidar do time dá resultado. Não vale ser aquele brother machucado que quer estar junto e fica ali na lateral efetuando as trocas e tentando fazer com que todos joguem. Não é também aquele amigo gordinho que não tem cacife para entrar em quadra e representar e por isso é realocado para a beira do campo, onde pode prejudicar menos. Hoje, com um torneio cada vez mais competitivo, alguns poucos diferenciais podem levar seu time a subir de divisão ou brigar para não cair.
O que quero dizer com técnico é ter aquela pessoa que gosta de ser técnico, que tem pensamentos táticos e técnicos de futebol, que busca se aperfeiçoar, que estuda os adversários, que trabalha visando extrair de seus jogadores o que cada um tem de melhor, que faz as substituições conforme a necessidade do jogo e não pela amizade, que sabe entender que ali há um grupo de homens querendo jogar futebol e ganhar ao mesmo tempo e que não são profissionais, não ganham para estar lá. Técnico é aquele que sabe entender um mau momento de um jogador e trabalhar isso com ele, que sabe gerenciar egos e transformar 15 cabeças fora de quadra em uma única funcionando integrada bem dentro.
Esse técnico que estamos a falar acima e que colocamos como algo positivo é ainda coisa rara no Chuteira. Dá pra contar nos dedos. Entretanto, os dedos ficaram de lado porque quero trazer à tona uma figura em particular que vem fazendo um trabalho louvável em duas equipes do Chuteira. Sim, isso mesmo, ele é técnico de duas equipes e está caminhando bem com as duas. Não quer dizer que serão campeões ou que vão longe, pois isso é difícil de se prever e nem é parâmetro para medir um trabalho. Nem sempre o resultado final é a medida certa e justa das coisas, apesar de sabermos que a cultura brasileiro valoriza justamente o vencedor. Ao vice, nada de batatas.
Felipe Figueroa é dono e técnico do Fúria Futebol Moleque, time da Série Bronze. Felipe Figueroa é técnico do Absolutos, equipe da Série Prata, desde o início do semestre passado. Desde 2013 à frente do Fúria, não podemos dizer que o time teve grandes resultados no Chuteira nesses 4 anos de trajetória. Estreou na Aço e, após dois anos, chegou à Bronze. Nas duas primeiras edições da Aço, nem se classificou, sendo lanterna, inclusive, da primeira. Nas edições 3 e 4, o Furinha, como é chamado para se diferenciar de seu coirmão Fúria Futebol Arte, avançou aos playoffs mas não chegou em semifinal. Na última delas, garantiu o acesso é time bronzeado desde então, já em sua quarta participação.

Desde cedo Figueroa deixou a vontade de jogar de lado e passou a ser exclusivamente técnico. Organizar o time, ver contratações, pensar a disposição tática e tudo mais. De um time com apenas uma vitória em 2013 passou, hoje, a um time com 9 pontos em 12 disputados e a liderança provisória do Grupo A bronzeado. No decorrer desses anos, a base foi mantida – a maioria dos jogadores está desde o início, como Victor Araújo, Robinho, Douglas Luiz, Barnabé, Igão, Klebão, Gio, Papai Jovem, Meneca e Kabelo – e alguns outros chegaram. Do extinto F.A.C.S.A.O vieram o goleiro Akira, em grande fase, e Thales. Do Bonde dos Abelhas chegaram Dug e Curintia; do Futeloucos, Saleme. Foram se adaptando, gostando e ficaram.
Claro que o material humano de qualidade conta em qualquer equipe que almeje voos mais altos, mas o que se sobressai, especialmente nas divisões inferiores do Chuteira, é a organização tática e a gestão de pessoas. E, se o leitor olhar direito todos os times da Aço atual, nenhum deles tem um técnico de verdade atuando! Algumas equipes que subiram de divisão ainda estão em estudos, mas times mais antigos da Aço não têm como mote ter alguém focado para pensar e trabalhar na beira do campo. Seria mera coincidência isso?
Tenho comigo 3 pilares para a formação de um bom técnico. Isso quer dizer que o técnico de verdade precisaria atacar em 3 frentes. São elas:
1 –
ORGANIZAÇÃO – é preciso ter conhecimento tático e técnico para montar e orientar seus jogadores dentro de quadra; cada um precisa saber o que fazer ali dentro e como executar a tarefa pedida pelo técnico, e isso trabalhando coletivamente. Resumindo: o técnico precisa saber passar a sua ideia e fazer com que os jogadores pensem e realizem em uníssono. Toquem na mesma nota, como uma orquestra. Uma peça que faz errado põe tudo a perder.
2 –
MOTIVACIONAL – compete ao técnico sentir o grupo e fazê-lo não deixar a peteca cair, manter a pegada, a motivação de continuar jogando e buscar o resultado positivo. Um discurso mais emotivo, mais racional, como seja, mas o técnico tem de saber manter o psicológico vivo e ligado na partida. Do grupo e individual.
3 –
GESTÃO DE PESSOAS – cada vez mais este ponto se destaca entre os três, com o papel do técnico sendo claramente de alguém que precisa entender de psicologia, de gerenciamento de crise, entender como pensam os jogadores e lidar com frustrações, egos inflados, competição interna, convicções diferentes das suas, ainda mais se o grupo é de amigos. Tudo isso passa por persuadir um grupo a crer no que ele crê, a enxergar e abraçar a proposta e, mais do que tudo, não boicotar ou mesmo se boicotar. Quantos jogadores “somem” porque se consideram pouco aproveitados e acabam não falando a respeito com o técnico e perdem a vontade de jogar? Procuram outro time, montam o seu próprio e segue o jogo. Gestão e motivação andam juntas.

Escrevo tudo isso porque vejo, cada vez mais, times buscando pessoas com esse perfil para ser seus líderes. Coisa que, em alguns casos, pode até envolver retribuição financeira. E não é errado. Por que não pagar algo a quem vai pensar e estudar, investir tempo e dedicação a acompanhar e implantar uma filosofia de trabalho? Vai depender do quanto cada time está disposto a pagar para evoluir (ou não, nem sempre as coisas dão certo).
Em conversa informal com Figueroa, ele ressaltou que tem lido e estudado muito o item 3, da gestão de pessoas. Com um time de amigos (dele), o Fúria, e outro numa relação mais “profissional” (Absolutos), ele já viu que o foco é fazer com que os jogadores gostem de estar lá, respeitem os demais e realizem, pouco a pouco, o que ele pede. O padrão de jogo vai se estabelecendo, e isso leva tempo. Outro técnico dentro dessa filosofia e que destaca a importância da gestão (e o tempo para se obter resultados) é Thiago Dacal, ex-Fora de Série e ex-CAV, hoje em trabalhos com society além Chuteira. Para ele, que de certa forma fez escola, definir um projeto e fazer com que os jogadores entendam e abracem o mesmo é o fundamental. E dar tempo ao tempo, pois demora para a coisa engrenar. Aquela atitude no profissional, que sempre condenamos, de técnico ser contratado e se não tem resultado em 3 jogos deve ser demitido, também é condenável no society. Futebol é futebol em qual modalidade for, e implantar um jeito de jogar, fazer com que jogadores de fim de semana que pagam pra jogar e divertir entendam e aceitem muitas coisas que ele não quer (jogar menos tempo, treinar, jogar em posição contrária à que gosta, voltar para marcar etc.), é um enorme desafio para quem quer que seja.
E você, já pensou em “contratar” um técnico para seu time? Furinha e Absolutos, líderes na Bronze e na Prata, podem ajudar a te dar uma resposta. O Figueroa também.
Comentários (5)
- Thiago Dacal
out 07, 2016Lucas, obrigado pela citação e parabéns pelo ponto de vista e análise. Muito legal. No futebol profissional brasileiro os técnicos não possuem muito valor, imagina no amador. Muito bom para nós que você toque neste assunto. No momento estou fora do Chuteira, mas continuo acompanhando o trabalho que vocês fazem, alguns jogos e lendo as matérias. Parabéns. Parabéns ao Figueroa também! Sucesso.
- Lói
out 07, 2016Parabéns ao Figueroa pelo belo trabalho q vem desenvolvendo nos dois times e aos dois times por apostarem no trabalho dele q vem demonstrando a cada sabado o valor de um treinador ali do lado de fora da quadra. Com tempo, paciencia e treino um bom treinador pode ajudar mto qq equipe. Sucesso a tds q abraçam a carreira
- Rafael Sega
out 07, 2016Mulekes? 10º time na carreira de Thiago Dacal?
- Clebão
out 07, 2016Parabéns ao Thiago \'Rachador de Grupo\' Dacav, por assumir a 28a equipe do Chuteira...
- Felipe Figueroa
out 07, 2016Obrigado Lói e Dacal, parabéns aos trabalhos feitos, e vamos evoluindo sempre...