Homenagem do Chuteira de Ouro ao artilheiro e MVP do VII Chuteira de Ouro
A bola passa e ele não alcança. A bola vem, ele domina, corre com ela, trata-a com doçura, mas logo vem um pé adversário para arrancá-la dele com violência. Ele teima em arrumar os cabelos, que insistem em escorrer para a frente dos olhos. Os braços, longos e finos, correm ao lado do corpo em direção ao rosto. As pernas, também magrinhas, esforçam-se nas passadas largas e muitas vezes parecem que podem quebrar. Ledo engano, pois pernas de quem sabe como correr e a hora de correr. Muitas vezes paradas no meio de campo ou no campo de ataque, são pernas traiçoeiras, de quem parece que vai mas não vai, mas quando não vão eis sim que elas vão. E aí já era, né?, para alcançar só mesmo pernas similares. Mas quais delas chegaram aos pés das de Ritolê no Chuteira?
A bola procura o craque, já diz o ditado. Nada mais certeiro quando seu nome é Ritolê. Na final do VII Chuteira de Ouro, os olhos de todos estavam voltados para ele. S. Orlando e D. Rita, pais certamente cheios de orgulho, tios, primos, amigos, companheiros de equipe, todos esperançosos de que ele decidisse para o time... Todos lá para ver a consagração do menino magrelo, de pernas tortas, joelho para fora, jeito desengonçado de correr, mas repleto de vontade, energia, força, vibração, entusiasmo e, mero detalhe, habilidade para jogar futebol. Quem olha não dá muita coisa e até acha que pode ser fácil marcá-lo, mas dentro de campo não houve um neste Chuteira que conseguiu impedir o soco no ar e o sorriso com jeito moleque.
Ritolê é craque, sabe o que faz com a bola, e sabe bem que a redonda é manhosa, gosta de carinho e de ser bem tratada. Gosta de ser tocada na hora certa e do jeito certo. Quem ousa dizer que sabe como tratar a dona Bola melhor que Ritolê no Chuteira? Como craque, Ritolê buscou inspiração no maior de todos – e não deve ser à toa que suas 23 comemorações após balançar as redes foram com um pulo e um soco no ar. Melhor referência do que a do maior de todos os tempos pode haver?
Mas mesmo os craques podem vacilar e ter jornadas infelizes. Para os artilheiros, não marcar gols é o pior dos mundos. E Ritolê vinha experimentando tal sensação na final contra o Bacana. A forte e dura marcação de Napolitano e Jorge anulou o matador por 47 minutos. Claro que muitas vezes com faltas, empurrões e demais infrações que a arbitragem marcou e deixou de marcar. E a cada lance que ele perdia ou que lhe tomavam na marra era um lamento e uma reclamação. Tanto que até mesmo a serenidade de Ritolê, homem de poucas palavras, daqueles que sabem que podem mas preferem não dizer, foi para o espaço em certo momento, o que quase lhe rendeu o cartão amarelo, mas não escapou de uma baita bronca do árbitro.
Talvez aí ele tenha acordado para o jogo e tenha visto que era hora de fugir da marcação, de buscar os espaços vazios, de correr mais que os demais. Era hora de se superar para assim superar os demais. E eis que o craque tenta. E ele tentou de fato o jogo todo, mas a danada da redonda não queria ir para o gol. No primeiro lance, um voleio dentro da área que subiu demais. Seria a indicação de que o craque não estava nos bons dias?
Mas craque é craque e jornadas infelizes não existem para eles. Com Ritolê foi assim na final do VII Chuteira de Ouro. Se não ganha na habilidade, vai na raça e na vontade. E, por que não?, dizer também na sorte? Craque que é craque tem sorte e ponto final. A bola procura seus pés, pernas, coxa, barriga e até mãos e braços. No caso de Ritolê, a bola o encontrou na área para que fosse empurrada para o gol faltando 3 minutos para o fim de jogo. Se fosse só isso já seria muito, mas a bola, que teimou em fugir de Ritolê durante os 50 minutos, resolveu que era hora de dar mais uma chance para o que parece ser um grande amor nascente em campos chuteirenses. Na prorrogação, talvez cismada e impaciente quando nos pés de Canzian, Ritolê se aproxima como a chamar sua amiga amada para si. E ela, cansada da brincadeira e do jogo, um “vai não vai” com o artilheiro, deixou-se ir para os pés de quem a melhor tratou nesses quatro meses de campeonato. Foi e logo partiu para dentro do gol do Bacana, fugindo do goleiro Guido, certamente com um sorriso de quem sabe que a hora da verdade chegou. E para lá ela se dirigiu com leveza, tranqüilidade, lentamente, prolongando o prazer do olhar de todos de vê-la escorregar para onde ele queria que ela fosse.
Explosão de emoções, de amor e de ódio, de alegria e de tristeza. Certamente Ritolê viu sua amada estufar as redes, mas certamente ele não lembrou dela dentro do gol quando saiu comemorando o título. Certamente ela ficou lá, sozinha, parada, e retribuiu enfim os olhares recebidos de todos. Certamente a dona Bola não se importou com isso, afinal, ela era a razão da alegria daquele menino moleque estar pulando, gritando, se emocionando e emocionando a todos que o assistiam.
Se até os craques podem ter seu dia de má sorte, não foi na final do Chuteira que Ritolê viveu o seu. Ritolê é craque, Ritolê tem estrela. Minto. É preciso admitir: Ritolê não tem estrela, Ritolê é a estrela. Sorte do Bengalas que a estrela veste a camisa 9 amarela, mas sorte também de quem tem a oportunidade de ver Ritolê jogar. Aliás, não só jogar, mas também brilhar, como toda estrela faz.
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