É cada vez maior a tendência de jogar num time e ser técnico de outro. Por amizade ou mesmo por aptidão, conheça alguns jogadores levados a tal posição e como é a rotina e os desafios que enfrentam semanalmente no Chuteira
Que o brasileiro é, na sua grande maioria, apaixonado por futebol não é surpresa para quase ninguém. Este caso de amor vem de muitas décadas, amor centenário já, e provoca reações as mais diversas entre os envolvidos com o esporte nascido bretão. Alegria, prazer, raiva, angústia, tristeza, emoção, tudo passa por entre as quatro linhas. E qual pessoa que se encanta com o futebol jamais pensou em ser um atleta profissional? Em brilhar em um gramado como o do Maracanã ou de Wembley, sendo aclamado por milhares de vozes cantando em coro o seu nome? Poucos têm o privilégio de alcançar tamanha fortuna.
Entretanto, para muitos do Chuteira de Ouro só jogar não é o bastante. Não basta jogar, o compromisso com o futebol sagrado de todo sábado do Chuteira supera tudo e eles acabam também sendo técnicos. Sim, a moda lançada por Publius ao chamar Lucas no I Chuteira de Prata para ser técnico do Locomotiva Tarja Preta chegou para ficar, tanto que a Organização já cogita, para este ano, criar o troféu de melhor técnico do Chuteira, nos mesmos moldes do MVP e do MVG.
A vida desses jogadores-técnicos não se aproxima do malogro que foi a experiência de Romário com o Vasco, quando o baixinho foi técnico e jogador em algumas partidas. No Chuteira, eles defendem as cores de um time jogando e depois (ou antes, depende da rodada) correm para ser técnico de outra. Como todo boleiro que se preze, jogar é a opção primeira e mais prazerosa. “Prefiro jogar pelo Acidus, claro. Tenho amigos de longa data no DP(Gamos), então não dá pra mentir pra eles: prefiro estar dentro de quadra e poder ajudar lá de dentro do que de fora das quatro linhas”, assume Lói, xerife da zaga do Acidus e também técnico do DPGamos.

Jogador do Acidus e técnico do DPGamos, Lói é linha dura jogando ou comandando
Estes verdadeiros ‘fominhas’ pelo esporte são capazes de se desdobrar para poder tanto jogar por um time, quanto para dirigir outro. “Todos sabem que é meu grande hobby, alguns classificariam até como doença
(risos), mas é difícil imaginar minha vida sem o Roleta. Fiz ótimos amigos por conta deste time”, confessa o fanático Baru, principal nome da “instituição” Roleta Russa.
Baru, quando jogava no chamado Roleta, tornou-se naturalmente técnico do Roletinha. Porém, a situação se inverteu e, no semestre passado, ele foi jogador exclusivo do Roleta Olímpico, deixando para Nação o comando do time principal já que este estava se recuperando de contusão. Sobre a experiência de, na verdade, comandar dois times, Baru é categórico: “É muito prazeroso (acumular as tarefas), mas ao mesmo tempo é desgastante. Acho que a grande dificuldade é conseguir atingir o foco pré-jogo, pois qualquer assunto sempre acaba sendo dirigido a mim em primeira instância”.

Baru faz de tudo nas equipes Roleta, que este ano terá o terceiro time no Chuteira, o Roleta Clássico
Um dos grandes nomes da família Arouca, Vitão, gosta de acumular as duas funções, porém, é apaixonado por ser jogador: “Jogar é uma coisa que você não pensa muito, está em você. É ir lá e fazer o que está acostumado desde pequeno”.
Alguns casos são curiosos dentro do Chuteira de Ouro. Geralmente é uma relação de amizade com o time que faz um técnico. Foi o caso de Renê, que em 2010 comandou o NGM na Série Prata. Time irmão do SNG, o NGM nasceu incentivado pelo atacante, fundador e presidente do SNG. “O NGM veio dos torcedores do SNG, que iam prestigiar o time no Chuteira e resolveram jogar para se divertir. Como eu conhecia todos os caminhos e os jogadores, fui designado para essa função (treinar o NGM)”, explica o artilheiro mor do Chuteira.
Renê atribui às amizades o fato de acumular duas funções dentro do Chuteira de Ouro. “Gosto mesmo é de jogar. Se eu fosse técnico do SNG e jogasse pelo NGM a resposta seria a mesma. Sou técnico para ajudar meus amigos”, confessa. Mas, apesar de sua devoção e cumplicidade com ambas as equipes, Renê não é nem um pouco tímido quando a questão envolve um (im)possível embate entre SNG e NGM. “Sem dúvidas é jogar pelo SNG! E ia querer acabar com o NGM, se possível, batendo o recorde do Ricci
(do MachuPichu, que fez 9 gols em uma única partida)! Acho que seria um bom jogo! Quem sabe um dia não aconteça esse tão esperado encontro”, sonha Renê, deixando uma risada escapar.
Treinar uma equipe e jogar por outra, no Chuteira, é tarefa para gente grande, pois exige dupla responsabilidade no que tange a comprometimento. Traz satisfação pessoal, porém, há várias situações que o referido técnico deve se ater. “Tem de ter que se preocupar com o elenco todo, se todos estão jogando, se tem jeito de todos jogarem, etc.”, comenta Lói.
Para Renê, as preocupações são de outra natureza: “A dificuldade é ter que sair correndo de uma quadra para ir a outra na sequência levando o isopor de água! Se o NGM joga primeiro, geralmente já vou trocado para não atrasar no SNG. Se é o contrário, fico sem beber uma hora a mais”, sentencia entre risos sobre a sua angústia. Já Vitão aponta o sentimento de culpa como um dos fatores a se inquietar: “Sendo técnico, quando o time não vai bem rola uma sensação de culpa e você sempre fica se cobrando para fazer a coisa perfeita”.

Vitão: sentimento de culpa quando Arouca Jrs. vai mal
Além de Renê, Vitão, Baru e Lói, outros nomes fazem parte deste seleto grupo de aficionados por futebol e pelo Chuteira: Alemão, voltando de contusão para jogar no Roleta, foi o técnico do Roletinha na bela campanha que quase levou o time à Série Ouro; e Clebão, fundador e jogador do Fora de Série, vice-campeão como jogador da Série Ouro, mas técnico rebaixado para a Bronze com o Basicus. Para Clebão, que acumula a função por um ano e meio, o segredo está no “clima do Chuteira”, pois “todo mundo que se conhece de muito tempo se ajuda”. Vendo Barath sofrendo para montar o time e ainda tentar jogar, ele se ofereceu a liberar o amigo para só jogar e deixar que ele cuidava das coisas do banco. E assim foi feito. Porém, para ele, o duplo trabalho não é tão complicado assim: “Vale a pena passar a tarde no PlayBall dividindo esses dois trabalhos , que é mais diversão mas a gente sempre fala que é trabalho para a coisa parecer profissional mesmo”, explica ele, rindo.
Todavia, existe ainda alguém capaz de acumular três tarefas dentro do Chuteira de Ouro. Nada se compara à história de Lucas. Um dos organizadores do torneio, dirige, atualmente, o Acidus na Ouro e atua pelo Invictus na Prata. “Sempre fui manager e técnico do Acidus. Eu que tomava conta e acabava comandando trocas e tudo mais. Permaneci com essa função, só não sou mais jogador, apesar que às vezes bate saudade de jogar com a amarelinha limão ao lado do Lói e cia.”, conta um saudoso Lucas.

Para Lucas, cuidar de dois times e também do torneio é uma dureza, mas gratificante quando tudo dá certo
Lucas faz questão de salientar as complicações em ser jogador, técnico e manager dos dois times. “Dureza é ter de sair correndo de um jogo para ir para outro, não poder conversar com o time após a partida, ver o que deu certo, o que deu errado, administrar contas, cobrar jogador que não paga, repor jogadores que saíram, ouvir todo mundo comentando e palpitando o que acha melhor... E ainda ter de ouvir as reclamações das demais equipes sobre arbitragem”, explica ele.
Diante de tantas coisas para resolver e administrar, é normal viver momentos similares ao do personagem de Michael Douglas no filme
Um Dia de Fúria: “Sempre tem uma hora que a gente se enche de tudo. Estou passando por um assim. Mas é só as coisas irem se acertando que a vontade de largar tudo passa. Mas no meu caso é muito pior, pois cuido de 2 times diretamente e lido com outros 50. Você não tem ideia de como é isso. Mas ver ao final tudo dar certo é gratificante”, desabafa Lucas.
Outra questão abordada acima é do confronto entre as duas equipes ligadas ao jogador-técnico. Baru passou, no I Chuteira de Prata, por tal situação. No duelo entre Roletas, Baru deixou de jogar para ficar ao lado dos jovens meninos olímpicos. “Foi uma decisão difícil, mas pendi para o lado que precisava mais de mim, independente do meu prazer em jogar. Por sorte, surgiu um trabalho naquela tarde e só pude ficar metade do jogo, o que acabou minimizando o possível impacto negativo desta escolha”, explica Baru.
Para Lucas, em caso de haver um confronto direto entre Acidus e Invictus, ele tende a ir para um dos lados: “Se um dia acontecer, o que acho difícil, eu resolvo na hora. Mas jogar contra o Acidus ia ser legal... Ia dar um ‘rolinho’ no Lói”, diverte-se ele.
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