Nos últimos três anos Mulekes e CAV vem se revezando em títulos no Chuteira. Quando não é um, é o outro que ganha. E isso em se tratando tanto de Chuteira quanto festivais (Copa Apertura e Bola na Rede). Foram dois pontos fora da curva nesse ínterim – o My Balls, que bateu o CAV na final da 15ª edição da Ouro, e o Inflação, que foi campeão da II Copa Apertura no início do ano batendo o Mulekes nas penalidades. Diante desses dados e das semifinais deste sábado, não é coerente afirmar que CAV e Mulekes farão a grande final no dia 20? Sim e não. O velho ditado de jogo se resolve em campo sempre está na moda – e isso porque é verdadeiro. Do outro lado, afinal, estão equipes que fizeram por merecer estar onde estão e com capacidade plena de vitória. Contra o CAV, o Inflação; diante do Mulekes, o Roleta Russa Olímpico.
O Inflação é o time que mais contratou e mais vem crescendo no último ano. O técnico Evandrão não mediu esforços para ter a seu dispor jogadores experientes e de enorme qualidade técnica. Se no passado já tinha Capeta, Canibal, Preto, Danilo e Chide, em 2015 arregimentou a seu exército nomes como Bahia, ex-Lodetti e Bacana, e Negueba, além de Gordo e Nego Wé para a defesa. O resultado disso é uma esquadra extremamente poderosa em termos técnicos e físicos capaz de bater de frente com o CAV.
O atual campeão é uma espécie de metamorfose ambulante. Isso porque a cada edição o time é diferente do outro – e sempre para melhor. Aquela equipe campeã comandada por Thiago Dacal hoje é uma equipe renovada e mais experiente comandada por Almir. O atual técnico tem um jeito todo especial de trabalhar e, diante de tantas peças de qualidade no elenco – é o único que tem dois times titulares capazes de manter o mesmo ritmo e nível quando trocados –, adora fazer rodízio entre seus jogadores. Várias vezes na temporada viu-se ele trocar simplesmente o time todo de uma única vez. E isso em nada mudou o estilo de jogo da equipe, marcado pela quase absoluta posse de bola e sufocamento do adversário.
Ajuda o CAV a mentalidade dos rivais de que contra ele não é possível jogar ofensivamente. Ou seja, ninguém se atreve a partir para cima do CAV. Com isso, a maioria entra com o time todo recuado pensando em jogar no contra-ataque. Pode dar certo? Pode, e Futsamba e Fora de Série provaram isso nas duas rodadas iniciais. Dá mais certo que errado? Não, e os demais 8 adversários estão aí para confirmar a tese. Como fazer então para encarar um time com qualidade técnica superior e um jogo coletivo de muitos passes e total posse de bola? Eis a questão que o Inflação terá de descobrir até este sábado. Na fase de grupos, quando se enfrentaram, o Inflação não jogou acuado e deu trabalho ao CAV. Vencia até a metade do segundo tempo, quando sofreu o empate e a virada após – justamente – recuar demais e não ter pernas para correr atrás da moçada caveira.

Em termos de destaques individuais, o CAV não tem um, mas muitos, porém, diante de tanto rodízio, geralmente um jogador que começa comendo a bola pode simplesmente ficar de fora de todo o segundo tempo. Entretanto, um jogador em especial chama a atenção, e não apenas porque ele é o um dos artilheiros do campeonato e briga também na corrida MVP. Léo Moratta soma 13 gols – o líder da artilharia, Naka (Kansado) soma 17 – e tem 16 estrelas na Corrida MVP (o líder tem 19 e faz parte do elenco do Roleta Olímpico, logo abaixo analisado). Ele tem muitos gols e foi decisivo para o time por uma característica que poucos no Chuteira têm – chuta sem medo muitas bolas no gol (por incrível que pareça).
Se houvesse estatística, ela mostraria que a maioria dos gols do CAV sai de bolas trabalhadas com infiltração e complemento dentro da área. A maior parte dos gols de Léo Moratta foi marcada de fora da área, alguns deles em cobranças de falta. Com Moratta parece que a ideia é aquela: se não tentar não vai marcar, daí ele chutar sem muito pensar quando tem a possibilidade.
O Inflação é outro time que adora finalizar de longe, mas o que o diferencia o time do CAV é que a pontaria não é das melhores. Com muito jogo físico, marcação cerrada e meias e atacantes de velocidade, talvez o que falte a esse elenco é um exímio chutador de longe. A maioria dos arremates do time de fora morre no muro. Daí a enorme diferença de gols anotados entre os dois adversários – enquanto o CAV marcou 52 gols em 10 jogos (média de 5,2 por jogo), o Inflação tem números muito mais modestos – média de 3,45 gols por partida (38 gols em 11 jogos). Se quiser bater o CAV e ir para a inédita final, terá de acertar mais seus chutes a gol e bloquear mais os chutes do adversário.
Na outra semifinal, que fecha a disputa, o Mulekes encara o Roleta Russa Olímpico e talvez aqui se possa dizer que há maior vantagem em favor de um time. O melhor ataque e a melhor defesa da competição diante do time que tem, até agora, o craque do campeonato e uma disciplina tática de dar inveja a qualquer time profissional. Sobre o modo do Mulekes jogar, girando muito a bola e apostando no toque de bola para chegar ao gol adversário, eu já analisei neste espaço –
leia aqui a crônica Carrossel mulekês. Daí eu partir para uma análise do Roleta e do confronto dessas duas escolas.
O Roleta Olímpico amadureceu. Eis o primeiro ponto a ser destacado. Se até o ano passado era um time que vivia a gangorra de subir para a Ouro e voltar para a Prata, o título da 12ª edição da Prata fez um bem danado aos meninos. Foi a prova de fogo, o tira teima, o divisor de águas para a equipe que nasceu como sombra do Roleta Russa (hoje na Série Aço) e hoje é basicamente o nome que dá brilho à franquia (composta por Roleta Russa, Olímpico e Clássico). Aquela final diante do Lodetti foi um rito de passagem para o Roleta. Ali os meninos viraram homens. Subiram de patamar jogadores como Pina, Brian, Louiz, Kuba, Catatau, Iuri, Douglão, Guga e especialmente Kuminha. Esse patamar foi alcançado pela chegada de alguns bons nomes – como Thozinho, André Plec, Affelay e Phil – mas principalmente pela presença e dedicação invejável de um homem que abriu mão de jogar para só treinar – Vadão. Hoje, sem pestanejar, afirmo ser ele, Vadão, o melhor técnico do Chuteira em atividade, o que mais sabe extrair de seus jogadores o que cada um tem de melhor – e transformar algo de qualidade individual mediana numa ótima qualidade coletiva. O Roleta não tem mais que um craque, mas tem um time que é craque e sabe jogar conforme o adversário.

Tal como a água, o Roleta se adequa ao formato do adversário e aplica 100% de coração durante os 50 minutos. Isso ficou muito claro nas três últimas partidas da equipe, quando venceu o Arouca na rodada final de classificação e graças a isso se classificou, na eliminação do Bengalas nas oitavas e no repeteco diante do Arouca nas quartas. Eu queimei minha língua porque via o Arouca já nas semifinais. O Roleta foi lá e fez o que se propôs com a maior seriedade e vontade possível. Fez bem e com propriedade.
Entretanto, tenho de frisar que esse jogo bastante efetivo do Roleta – marcação compacta e contra-ataque veloz – é resultado de muito trabalho da equipe, claro, mas principalmente graças à presença de um jogador em especial – Kuminha. O camisa 10 enfim desabrochou com todo seu esplendor e vive seu melhor momento no futebol. E por que ele é essencial? Porque aprendeu a fechar espaços e a marcar quando o time não tem a bola. Sabe ocupar o meio de campo tanto para defender quanto para atacar. Rouba bolas, intercepta passes e dispara! Com a bola no pé e espaço, ele faz gols, assistências e vem sendo completamente decisivo em todo o campeonato – não é à toa que ele lidera a Corrida MVP, com 19 estrelas, e são 11 gols marcados. Em termos comparativos, o segundo artilheiro do time, Catatau, soma 6 gols, e o segundo Roleta MVP é Thozinho, com distantes 5 estrelas!
Além de tudo isso, há um outro elemento que foi decisivo para o Roleta estar onde está. Louiz assumiu a meta da equipe na rodada final e vem sendo destaque. Goleiro, zagueiro, volante, até de atacante já jogou. No ataque ele é pífio (sejamos justos), mas nas demais posições acrescenta e muito. No gol, então, quando está com vontade, é um verdadeiro paredão. Em 3 jogos, sofreu apenas cinco gols – e contra equipes de enorme poderio ofensivo. Até gol ele fez, e foi aquele que abriu a porteira para a virada diante do Arouca nas quartas de final. Ganhou estrelas MVG nas três rodadas e já soma 8. Se pontuar neste sábado, terá a proeza de ser MVG de uma competição jogando apenas 4 jogos!
Em comum entre os quatro semifinalistas – não existe dependência de nenhum jogador. Se no caso do Roleta pode haver um peso maior à atuação de Kuminha, é o sistema tático como um todo que fala mais alto. Certo é que as partidas que decidirão quem vai pra final no dia 20 têm diversas possibilidades de herois. Quatro ótimos times, recheados de jogadores de alto nível. Cada time com sua característica – Mulekes e CAV com maior toque e posse de bola e jogo de paciência, o Inflação apostando na velocidade do ataque e na força física da defesa e o Roleta numa disciplina tática preparada para defender e contra-atacar. Qual jogo falará mais alto?
Comentários (1)
- Rafael Tieppo #14
jun 12, 2015Roleta X Inflação - os dois gigantes caem desta vez!