Roberto Solcia, técnico do Maciota´s, assume papel duplo e vai dirigir também o novato Atlético da Vila. Enérgico, bravo e exigente, mas cheio de ternura e dono de um bom coração, com ele a moeda não tem dois lados – é sempre cara e coroa

Vai encarar?
É começo de uma noite abafada, mas com nuvens carregadas no céu. A luz do dia começa a se esvair, e a chuva de verão é iminente. No horizonte, vem chegando um homem forte, careca, daqueles de intimidar. Poderia ser muito bem comparado a um
Bruglione do Oeste dos livros de Mario Puzo. Porém, ao desferir as primeiras palavras, percebe-se que se trata de uma pessoa assaz afável. Nem se parece com a figura enérgica à beira da quadra que grita, xinga, cobra e que espera arrancar o suor do atleta até a última gota. "O cara, para fazer o que eu faço, tem que ser doido", diz como um cartão de visitas Roberto Solcia, ou somente técnico Roberto, o ‘figura’ que ganhou notoriedade na Série Bronze dirigindo o vice-campeão Maciota´s.
Com isso, ele promete ser uma atração à parte em 2011: afinal, se ser técnico de uma equipe já é tarefa ingrata, imagina então ficar responsável por conduzir dois times dentro do Chuteira de Ouro? Pois é isso que Roberto terá pela frente: um será o já citado recém promovido à Série Prata Maciota´s e o outro é um dos novatos da Série Bronze, o Clube Atlético da Vila.
Roberto, paulistano com origens italianas, é apaixonado pelo que faz. Começou a carreira aos 20 anos de idade, treinando o Confeitaria, time de society que acabou migrando para o futsal. Com um início tão precoce – ele mostra a carteirinha n. 97 do SITRESP (Sindicato dos Treinadores Profissionais de Society do Estado de São Paulo) – , Roberto foi, aos poucos, adquirindo excelência profissional com o decorrer dos anos. Hoje, é um dos nomes mais conhecidos e respeitados no universo futebolístico do society. Porém, para chegar a este status, faz sacrifícios: "Fico até altas horas da madrugada pensando em tática, em como anular as peças principais do adversário", relata.
O estilo Roberto de comandar um time é único. Ele não tem papas na língua. Agarra o atleta pelos colarinhos a fim de transmitir seu recado. Dá tapa na cara do atleta para o mesmo acordar, se for necessário. Conversa ao pé do ouvido com cada atleta antes do início do embate. Suas preleções são um show à parte. Ele gesticula, agita-se, grita horrores, aponta, xinga quando necessário: Roberto é um maestro quando está exercendo o seu trabalho. E tudo com o jeito italiano: fala com as mãos, é exigente e bravo, porém, com ternura. Seu lema muito bem poderia ser o “hay que endurecer, mas sem perder a ternura” de Che Guevara. É um contraste quando nos deparamos com ele no dia a dia, fora do seu habitat natural que é as quatro linhas. Roberto conversa com calma, voz grossa, contudo, suave. Mas, mesmo assim, gestos são inevitáveis para se fazer entender.



Agarra, puxa, prende e solta: o técnico fala com “carinho” com cada um e pede suor até o fim
Na temporada que se inicia em março, o técnico de jeito bravo, mas com coração de manteiga, terá uma missão árdua pela frente. Porém, ele gosta. Após aparecer ao Chuteira de Ouro com um trabalho sério que o levou ao vice-campeonato na Bronze junto ao Maciota´s, Roberto foi convidado a dirigir o caçula Clube Atlético da Vila. Ao ouvir a proposta de Caio Fleishmann, manager e jogador do CAV, Roberto topou o desafio. Todavia, permanecerá no comando do Maciota´s – pelo menos neste semestre, quando os times estarão em divisões distintas. "Estamos arrumando o Maciota´s para a Prata. Já solicitei reforços", avisa. "Já o Atlético é um time em formação, mas tem um projeto ambicioso: ‘Bronze-Prata-Ouro’ em três temporadas", completa.
Com a experiência de anos de futebol – hoje o técnico está com 50 anos de idade – Roberto mantém o caminho de sucesso em cima de sua filosofia de trabalho: dedicação e lealdade. Ele é enérgico e exigente, mas faz de cada atleta um soldado capaz de seguir à risca seus ensinamentos e suas táticas. Com isso, os times que dirige ou acabam em posições respeitáveis dentro do certame, ou chegam ao título. "Existem dois tipos de jogo: aquele que tem jogador pago, e outro que tem jogador que paga. Fazer um jogador que tira dinheiro do seu próprio bolso aceitar ser sacado da equipe não é fácil", explana. "Por isso, eu tento mostrar o jogo ao atleta, sem ‘trairagem’. Consigo fazer os atletas jogarem pra serem campeões", conclui.
O técnico já treinou os times de society do XV de Piracicaba e do Guarani, entre outros. Roberto trata todos em pé de igualdade. Para ele, não importa se o jogador faz 5 gols ou nenhum: o importante é o jogador ser solidário e jogar para o time. "Comigo, o cara faz gol, mas tem que marcar", explica. Dessa feita, o treinador tem o grupo de jogadores na mão, facilitando sua tarefa de organizar o elenco e o transformar em um time. "E mando até presidente do clube para fora do vestiário".

Aquecimento para ouvir o “chefe” falar: Roberto levou o Maciota´s ao vice-campeonato da Bronze
A partir do jeito enérgico, muitos podem pensar que Roberto se indispõe com os atletas. Mas a realidade é outra: "Nunca tive problemas maiores por conta do meu estilo. Tenho que respeitar. Se mexer com a hombridade do atleta, f*", avalia. E, ainda assim, vale-se de uma máxima muito importante: "Eu não mando, eu peço aos jogadores". Outro fator que pode preocupar é a saúde. Com toda a energia depositada, e é só ver ele em ação do lado de fora da quadra para lembrar do jeitão explosivo de Muricy Ramalho, o risco de alguma doença cardíaca pode ocorrer. “Nunca tive problema algum de saúde até hoje. Eu trabalho com o que gosto, fica fácil”. E, dessa feita, ele continua a trabalhar do seu jeito.
Como todo bom profissional, Roberto se inspirou em grandes treinadores, tanto do society quanto do futsal. Ele cita Marco Antonio Gonçalves Cardoso, o Batata, ex-técnico da Seleção Brasileira Universitária de Futsal, e também Buzina, um dos expoentes do futebol de salão (Roberto pedia ao treinador para acompanhar os treinos comandados por Buzina). Mas Roberto lembra-se com carinho de Martorelli. "O time que eu cuido não tem panela ou corneta, ninguém critica ninguém. Aprendi com o saudoso Martorelli".
Você pode não saber ainda quem é Roberto Solcia, mas o verá inúmeras vezes aos sábados dirigindo, gritando, xingando e esbravejando dentro do Chuteira de Ouro, tal qual um maestro fora das 4 linhas. Encerrada a entrevista, a chuva era intensa. Roberto permaneceu à mesa do bar apenas confirmando o treinamento que ministraria no dia seguinte ao Atlético da Vila. Estava comprovando sua obsessão pelo trabalho. Foi embora satisfeito com a empolgação de seus pupilos. "Vamos nos divertir, porém, com organização".
Comentários (0)