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Há dois anos, time era punido com rebaixamento à Aço. Eles voltaram. Acompanhe a matéria especial da trajetória dos símios de volta à elite do Chuteira


– Eu lembro dessa cena até hoje. A gente precisava fazer o gol. Ele estava na reserva, o chamei e falei: ‘Rafa, você vai fazer o gol pra mim’. Ele riu. Dei dois tapas na cara dele. Ele olhou sério e disse: ‘Mano, vou te matar!’ Empurrei-o pro campo, gritei – vai lá, porra!  – e na primeira bola que recebeu fez o gol.  Ele veio comemorar, me jogou no chão e a galera toda pulou em cima. Então, assim, são coisas que a gente leva pra vida. O futebol, pra mim, está em segundo plano. De verdade, mesmo. Claro que é gostoso jogar. Você viu: eu grito, ando pra lá e pra cá, reclamo, brigo. Eu não jogo, cara! A vontade era de estar em campo, mas... Enfim, são coisas que engrandecem a amizade, que é o mais importante. E hoje em dia, hoje em dia é difícil achar amigos.
 
A frase acima é de Gui Fenômeno, manager e técnico do Primatas, relembrando aquele 24 de maio de 2014. Faltavam quinze para as três naquela ensolarada tarde de outono quando vingadores e invictos o observaram, do corredor da quadra 10, o camisa 10 receber a bola na área, driblar um marcador, bater de canhota e correr em direção a Gui Fenômeno para comemorar a classificação contra o Bacaninha nas oitavas de final do VIII Chuteira de Bronze, torneio que o Primatas conquistaria três semanas depois. Aquela foi a 11ª participação do time da zona Norte criado pelo publicitário Guilherme Damadi, seu irmão Gustavo e Giorgio – que foi quem descobriu o Chuteira na internet e instigou os amigos a participar – com propósito semelhante ao da maioria dos times do campeonato: unir futebol e amizade. “Ter uma desculpa para ver os amigos no sábado”, como diz Gui.
 
O apelido surgiu na temporada de estreia, quando o Primatas conquistou o I Chuteira de Prata, em 2009, e Guilherme, um pouco acima do peso, saiu com o troféu de MVP daquela edição. Nos semestres subsequentes, o time oscilou entre Prata e Ouro, provando ser bom o bastante para merecer uma vaga na elite, mas não para figurar entre os melhores desta – tendo jamais chegado a disputar uma partida de mata-mata.  A inconstância fez com que alguns o apelidassem de “Primpratas” ou “Bumerangue do Chuteira”, o que não parece ter incomodado os jogadores. Avesso a projetos, planejamentos, discursos prontos e a “toda essa baboseira”, o próprio Gui reconheceu, em entrevista ao repórter Douglas Almasi (publicada no antigo site, em maio de 2012 - leia ela aqui), que seu time ainda não tinha futebol para jogar contra os grandes da Ouro, mas “quem sabe um dia tivesse, e, “se isso não acontecer, que se foda!”
 
Reformulação
 
Em agosto de 2013, Primatas e My Balls envolveram-se em uma briga pelas quartas de final do VII Festival Bola na Rede que culminou no rebaixamento à Série Aço do primeiro e na expulsão do segundo. Giorgio fundara o Séloco em julho daquele ano e, embora estivesse em campo no dia da confusão e participado dela, sua saída da equipe não está ligada ao episódio. No ano seguinte, Gus deixou o Primatas para integrar o Séloco, e Vitinho se machucou – Foguinho o substituiu. Apesar das perdas, a base se manteve: Litho, Feco, Rafinha, Nando e Ricardo permaneceram. Tieppo e Marcelo Gama chegaram e, mais recentemente, Prior reforçou o elenco. A grande mudança, porém, foi a maneira com que a equipe encarou a punição. Para Gui e Feco, recomeçar de baixo fortaleceu o time e ressuscitou o fundamento sobre o qual havia sido criado, mas que vinha sendo consumido pela competição. Não era a técnica que precisava ser recuperada.
 
Nas campanhas da Aço (2/2013) e Bronze (1/2014), os jogadores entoavam o lema que marcaria a retomada – e que virou bandeirão: não importa onde, mas com quem. Dentro de campo, o time voava. Perdeu apenas dois dos 17 jogos disputados e provou nos jogos decisivos ser o melhor do campeonato. No XII Chuteira de Prata (2/2014), contudo, decepcionou: começou bem, mas perdeu cinco partidas consecutivas e só se livrou do rebaixamento na última rodada. Sem a pressão do favoritismo, a macacada retomou o bom futebol em 2015 e mostrou, outra vez, sua força no mata-mata. Caiu na semifinal diante do futuro campeão A.A.A., mas com o acesso já assegurado. Dois anos depois, o Primatas enfim volta à única divisão da qual ainda não foi campeão. O que mudou desde então? Em 2012, Gui falava em jogar um futebol alegre, sem respeitar demais o adversário e enaltecia a experiência dos adversários. Agora? “Diria que hoje a gente está na melhor fase. Talvez não fosse por ela (a punição), não estaríamos aqui”, reflete.
 
Preparação
 
O Primatas não treina. Encara o campeonato com a seriedade necessária para competir e, se possível, vencer. Campeão da Aço, Bronze e Prata, o time é uma mescla de habilidade e vontade, com um ligeira predisposição para a segunda característica. O estilo de jogo varia conforme o adversário: quando este é considerado superior, opta-se por uma formação truncada, um jogo mais físico e menos ousado; quando na avaliação do treinador em concordância com o restante do elenco o rival está em pé de igualdade ou mesmo abaixo, a estratégia é ir pra cima, permitir dribles e deixar com que caras do naipe de Litho e Gama brinquem com a fantasia e façam o que quiserem em campo. Às vezes, embora muito de vez em quando, para deleite do público, o roteiro prescreve, os homens jogam como meninos, a audácia é premiada, os atrevidos assinam placas e os profissionais condenados ao regime de concentração, no qual a comida não tem gosto, a farra é com água e ninguém dorme acompanhado, são escrachados.  É uma dimensão incompreendida porque a obsessão pela vitória é tamanha a ponto de nada além dela fazer sentido, cujo protocolo ofusca a liberdade sentida apenas pelo talento que não aceita ser reduzido a um placar.
 
Brincadeira x Competição
 
“Não vamos banir os fanfarrões, vamos banir os profissionais”. A declaração suscita uma velha discussão em torno do que o campeonato se tornou. Os times se inscrevem para competir, caso contrário, a pelada na quinta da qual só os amigos participariam já bastaria. Haveria menos confusão, menos compromisso e, sem dúvida, muita farra – durante e pós-jogo, mas sob o risco de cair na monotonia. Competir é divertido. Participar de um campeonato e ter a chance de conquistá-lo é empolgante. Esta é uma meia-verdade – a se considerar, todavia.
 
O fanfarrão é um personagem em extinção provocada pela onda do culto máximo ao respeito, do profissionalismo contagiante cujo efeito direto são as opiniões politicamente corretas e a ausência de originalidade. A bermuda florida, o nike vinho de cadarços laranjas improvisados, o molho de chaves pendurado no pescoço, o Cássio no pulso esquerdo, o mormaii abraçado à gola do matador e a franja ora lambida para trás, ora recaída sobre os pingos castanhos furiosos enquanto rabisca na prancheta o futuro promissor reforçariam os trejeitos de quem assume e exalta o rótulo.
 
Conversei com o Gui minutos após a derrota para o CAV, na reestreia do time na Série Ouro, sábado dia 29. Ele esbravejava contra a expulsão de Gama e atribuía ao árbitro parte do insucesso no confronto. Elogiou o adversário – a quem se referiu como “o melhor time do campeonato” – e enalteceu sua equipe. A primeira coisa que ele falou, e que repetiria ao longo da entrevista, foi que o mais importante não é vencer, mas a amizade. “O Primatas é um time competitivo. A gente entra com raça e vontade de jogar bola, de vencer. Mas no dia em que a competição anular o lúdico e não existir brincadeira, desmonto o time. Ganhando ou perdendo, eu tô feliz porque estou com os meus amigos. Vai ter sempre o time dos amigos e o time que só quer ganhar – o que não significa que amigos não vençam. Tem vários exemplos no Chuteira de times de amigos campeões.
 
O aparente paradoxo não divide as equipes em dois grupos excludentes. Há o time dos amigos competitivos, o dos amigos que só querem diversão, o de estranhos que se veem aos sábados e vencem, o de conhecidos que perdem, o de jogadores que não trocariam de camisa, o dos que não cobram identificação, o dos que se renovam quando necessário, o dos que fazem disso sua missão, além, claro, dos que pulam de time em time conforme a dança.
 
Rivalidade
 
Perguntei com quais times o Primatas tem amizade fora de campo e contra quais a vontade de vencer é maior. Gui respondeu que a rivalidade maior é justamente contra os amigos, com quem “ainda se pode brincar, tirar sarro, sem ser acusado de faltar com respeito”. “Faço isso com o pessoal do Vingadores, do SNG na época do Renê, o Bode. Ainda bem que existem aqueles no Chuteira que conseguem distinguir um futebol de sábado do ganhar a todo custo”.
 
Retorno a Ouro
 
Se o mote não importa onde, mas com quem motivou a equipe no caminho de volta à Ouro, uma vez nela, agora o onde passa a importar. A macacada tem outra vez o desafio de medir forças contra os melhores do campeonato. Se a equipe está à altura, bem, veremos. “Alguns pensam que somos fracos. Gosto que pensem assim. Acho que o cartão de visitas está dado (derrota apertada para o CAV) – pergunta lá para o Caio”, sorri e logo fecha a cara. “Não digo que vamos ganhar todas, mas para ganharem da gente vão ter de suar sangue. O objetivo é classificar em sexto – vamos ser humilde, vai! Pra muita gente é não cair; para nós é classificar em sexto. E no mata-mata (inédito), num campeonato como este, tudo pode acontecer. Me cobra depois”.
Comentários (2)
set 09, 2015

Muito boa a matéria, mto bom time e entrevistado mediocre.... mas ta valendo pq é pelo bem do futebol kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Promessa é dívida e eles cumpriram: tão aí de volta e jogando mto! Parabéns a galera do Primatas e q sigam sempre amigos e se divertindo conosco aos sábados. Abrassssssssss

set 09, 2015

Matéria sensacional. Primatas aprendeu com o erro, amadureceu e voltou a elite do campeonato. Prometemos e demos a volta por cima. Não desistimos e acreditamos que poderiamos voltar. Ganhamos tudo e so nao temos a Ouro... Vamos com calma!! \\r\\nLoi, um dos grandes amigos que fizemos no ambiente Chuteira, tamo junto e obrigado pela torcida de volta. Vamos permanecer e continuar a aloprando todos nos corredores. Um beijo para aqueles anti fanfarroes e desleais. #AMACACADAVOLTOOOOOU