Acima, um print da mensagem que recebi do Rogério, técnico do Paraguay, no sábado à noite, às 21h14, poucas horas depois do time vencer o La Coruja e confirmar um acesso mais que merecido, com 6 vitórias e 1 derrota em 7 jogos.
É coisa pequena, sim, um acesso à Prata de um torneio pequeno, amador, que ninguém recebe pra jogar ou que não tem importância para além das 2 mil pessoas que o disputam. Divida isso pelas divisões e terá um número muito menor de interessados pela Prata. Divida esse novo número pelo total de equipes e teremos algo em torno de dois dígitos baixos. É isso, a conquista do Paraguay é relevante para os 20 jogadores do elenco, alguns amigos e familiares, e outros tantos adversários que disputavam com ele a posição. E só! Jogando alto, uma centena de pessoas impactadas, algo diferente de duas centenas de milhões impactadas pela greve dos caminhoneiros, por exemplo, ou pela campanha da Seleção na Copa do Mundo que se inicia em poucos dias.
Para quem olha pelo viés frio (até cínico, para alguns), a conquista pode ser pequena, mas na verdade ela é grandiosa demais do ponto de vista de quem a realiza. Quem vive o momento sabe o quanto uma conquista – seja ela qual for – é importante e impactante. Nada na vida supera o momento de êxtase emocional, mesmo quem rege sua vida racionalmente e seguindo um código de valores e regras rígido. O momento de emoção é grande em qualquer âmbito da vida que você escolher. Pode ser no campo afetivo, quando temos marcado ritos de passagem, momentos-chave (o primeiro beijo, a primeira transa, o casamento, o divórcio etc.); pode ser no campo profissional: a formatura, um emprego desejado, um aumento de salário, um reconhecimento esperado, ser cobiçado por outra empresa, realizar projetos que te tragam orgulho pela dificuldade e engenhosidade envolvidas na tarefa... Em qualquer campo a emoção se faz presente quando realizamos algo que venha a ter eco dentro de nós ou em outros.

A rigor, nada é grande. O que é uma vitória no Chuteira diante do universo a girar e nos espremer em nossa insignificância? Como ousar achar que um acesso à Série Prata (nem Ouro é, né!) pode ter a grandeza de uma narrativa épica, tal quais as histórias de Tucídides, Heródoto ou mesmo Homero na Antiguidade? Mesmo aquelas, de onde vêm tamanha grandiosidade a ponto de perdurar milênios?
A resposta está no que nos faz humanos e exclusivos – a emoção. Tudo que se faz com alma e coração tem seu valor aumentado. Tudo que se faz com entrega, dedicação, sacrifício, em tudo que o humano coloca seu tempo, sua habilidade, seu conhecimento, tudo a que ele se conecta emocionalmente ganha em tamanho e importância. Vem daí a grandeza desse acesso do Paraguay, do trabalho com alma e coração feito por 20 jogadores e um técnico.
Qualquer pessoa pode observar a comemoração infantil dos jogadores ao fim do jogo, debaixo de uma garoa chata e um frio de lascar, e desmerecer o feito. “Tudo isso por causa de um acesso. Vale nada”. Não ouvi ninguém dizer dessa vez, mas em outras ocasiões sim. “É só futebol. Segunda todo mundo vai trabalhar.” é outra frase de quem olha de fora e só tem o olhar racional a lhes dirigir. Acontece que a emoção é especialmente de quem vive – e se você não pode viver tal emoção, o sabor da conquista, é porque não foi a sua vez ou então precisa desenvolver mais seu lado empático. Porém, é humano diminuir conquistas alheias como forma de autoproteção, pois quem não conseguiu aquilo pode se sentir mal por isso. Quantas vezes você ouviu um torcedor dizer: “Ah vá, estão comemorando assim só porque ganharam um Paulistinha?”? É isso. Não ganhei, diminuo para sofrer menos.

Nós, de fora, trabalhamos a semana toda, inclusive sábados e domingos, para poder presenciar momentos como o vivido por Roger e os paraguayos. Debaixo da chuva fina e gélida, do lado de fora, eu pude sentir o calor daqueles jogadores se abraçando e comemorando ao fim do jogo. Pude sentir a emoção de ver um senhor como o Roger, presente em todos os jogos do time, debaixo de chuva dirigindo seu time, com tabela na mão sempre a recolher resultados e fazer anotações sobre adversários, pular como criança e ser jogado para o alto. Pude sentir que quando se faz algo com alma e coração, por menor que seja uma conquista, ela é uma conquista e, como toda conquista, é grandiosa, digna de Tucídides, Heródoto ou Homero, digna de emocionar. E são essas que emocionam que valem mais a pena. É a emoção que nos faz humanos, é a emoção que faz do esporte a paixão que todos conhecemos e vivemos semana a semana.
Nesse sentido, nossa jornada no Chuteira (e na vida) é tão épica quanto qualquer figura histórica da invasão persa à Grécia contada por Heródoto, da guerra de atenienses e espartanos narradas por Tucídides, ou da epopeia da destruição de Troia dramatizada por Homero.
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