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Vitória do Mulekes frente ao NQS prova uma coisa: quem quiser bater o tetracampeão tem de superá-lo na técnica, na vontade e também no psicológico

 
Mulekes e Nois Que Soma fizeram um jogo digno da história que carregam, do peso de suas camisas, do alto nível técnico e tático que colocam em prática quando em campo. Por essas e outras é que há anos são tidos como os dois melhores times em ação no Chuteira. Foi um triunfo do Mulekes como não se via há tempos – diria até que foi uma vitória com sabor inédito para a mulekada. Talvez nem eles soubesse que poderiam jogar com tamanha intensidade, dedicação e vontade. Foi como se tivessem tomado uma injeção de adrenalina para o jogo.
 
Digo isto porque depois de tanto criticar o Mulekes, pedindo que jogassem com sangue nas veias, demonstrassem vontade e tesão de jogar bola – coisa que até o mundo mineral sabe que não é o padrão no Mulekes – eu enfim vi isso no time! Resumindo, quando pedimos que o Mulekes tenha mais brio, mais vontade, pedimos uma coisa só: joguem como o Nois Que Soma!
 
É muito comentado nas rodas informais de resenha que, para se vencer o tetracampeão NQS, é preciso se aproximar dele em termos táticos e técnicos, mas principalmente superá-lo no quesito RAÇA, VONTADE. Quem joga contra o NQS sem “sangue nos olhos, sem a faca nos dentes”, vai sair de campo derrotado. Não tem outra opção.
 
Por incrível que pareça, o Mulekes fez isso na partida da 6ª rodada. Depois de perder a final há um ano (0 x 0, com gol na prorrogação) e tomar de 4 x 0 na semifinal passada, o Mulekes aprendeu a lição. Tecnicamente são times parelhos – há quem diga até que o Mulekes é superior – mas na vontade a mulekada ficava devendo. Como vinha devendo na fase de grupos (não à toa falamos Tiriça Futebol Clube no Planeta Chuteira para se referir ao time). O time está 100% na competição, mas conquistou vitórias na base do bocejo, do aperto, com time contado e até sem goleiro (3 x 2 no Imperial e o 4 x 3 no MachuPichu, por exemplo)! Parece que ligou o módulo “foda-se” e andava cumprindo tabela.
 
Tudo bem que tal postura não é novidade – até o NQS já foi criticado por fazer 1ª fases pro gasto para só no mata-mata jogar para valer. O problema maior nem é a falta de interesse nos 9 jogos iniciais, mas sim o jogo burocrático com que o Mulekes encara todos os jogos. Muito longe daquele carrossel mulekês que me encantou a ponto de eu escrever uma crônica sobre o time alguns anos atrás.  (releia O Carrossel Mulekês aqui)
 
Aquele time parece extinto, e está. Ficou na memória de quem viu. Se contra o NQS não teve um time encantando à base da técnica, teve um time encantando na base da raça, dedicação, entrega. O símbolo dessa superação – porque de fato o Mulekes vencer o NQS é, hoje, uma superação que não se esperava diante do baque que foram as duas derrotas passadas – é Baiano. Com uma vontade fora do comum, ele é voluntarioso demais e não tem medo de jogar feio quando precisa, de fazer falta quando necessário, de fazer cara feia ou chutar a bola no gol (viu, Diego Orsi?). Baiano é um muleke com cara de NQS!
 
Dito isto, passo a um segundo ponto que me soou sepulcral após a referida partida. O NQS é um time como nunca antes visto no Chuteira. Ele soma vários predicados num único grupo cujo resultado é uma explosão de qualidade sem igual. Tecnicamente todos podem muito. Quem não se destaca pela técnica, compensa em outro quesito, como motivação, vontade e até marketing. O meio de campo praticamente não erra passes e eles dominam os espaços como poucos. Não à toa a posse de bola do NQS beira facilmente os 75% do tempo – e contra o Mulekes, se estatística houvesse, com certeza apontaria mais que isso! Os dois gols sofridos no início ajudam a explicar tal posse, mas mesmo assim é muita coisa em se tratando de um embate entre forças similares.
 
Tamanha posse de bola e domínio do jogo têm início com a superioridade psicológica que o NQS impõe ao adversário. Hoje, não há vivalma no Chuteira que não conheça e tema o NQS. O time sabe usar muito bem isso a seu favor, fazendo com que qualquer adversário entre em quadra já receoso e temente. A primeira pergunta que qualquer um faz (é a pergunta que há 4 anos todos se fazem): como parar o NQS? Como ganhar deles? Como jogar contra o NQS? Vou pra cima ou espero no meu campo? Entro pra me defender e jogar por uma bola no contra-ataque ou tento surpreender e encarar de igual?
 
Como já sabemos, ninguém ainda conseguiu encontrar a condição ideal, e provavelmente ela não exista! Afinal, o NQS é um time moderno e líquido, tão qualificado que é capaz de modificar sua forma de jogar no decorrer da partida, adaptando-se às necessidades impostas pelo adversário. E o time é quase sempre muito bem-sucedido (em mata-mata, é 100% bem-sucedido). Para piorar (aos outros, claro), o NQS é tão frio que toda vez que se viu seriamente ameaçado de eliminação contou com sorte, superação própria ou equívocos dos adversários para avançar. De cabeça: duas finais de Copa dos Campeões do Chuteira (empate com Wake ‘n’ Bake e uma disputa ferrenha para ver quem perdia mais shoot outs – o Wake teve quatro vezes a chance de vencer, mas perdeu as quatro;  outro exemplo é o Catado, que buscou o empate e teve o título nas mãos num shoot out ainda no tempo regulamentar), uma quartas de final ante o Arouca (gol de ouro aos 9 minutos e meio da prorrogação) e a já dita final contra o Mulekes.
 
O que quero dizer com tudo isso é simples: o poderoso Mulekes precisou jogar como time pequeno, fechadinho atrás, e contar com sua qualidade altíssima para marcar e contra-atacar para vencer e espantar o fantasma NQS (ao menos evitar uma incômoda freguesia). Não há demérito algum em falar isso, que jogou como time pequeno. Foi a proposta do Mulekes, e que se deu bem porque tem um potencial tremendo para se defender e  marcar gols nas poucas chances criadas. Se perdesse, seria natural. O NQS forçou muito o jogo e não marcou mais gols por falta de sorte, de pontaria, como qualquer equipe que cria oportunidades.
 
Como será um próximo duelo entre eles? Certo é que o NQS virá com o dobro de vontade (e olha que neste jogo de fase de grupos o NQS jogou com muuuuuuita vontade, disputando todos os lances, reclamando e contestando toda marcação da arbitragem e tensionando excessivamente um jogo que prometia mais pela técnica que pelo físico – com o Mulekes foi igual, na mesma moeda, daí um primeiro tempo muito pegado, falado, difícil de se apitar e controlar), fazendo com que a mulekada tenha que elevar seu nível de dedicação em quadra. É isso ou morrer. Não há outra opção.
 
Outra coisa: o domínio do NQS começa pelo psicológico. Quase nenhum time acredita que pode vencê-lo. Crer é uma das bases para poder, certo? Nem sempre, mas é sempre bom acreditar que pode, mas sem querer ir com muita sede ao pote, já diria os cautelosos. E, com isso em mente, Catado e Wake ‘n’ Bake são dois times que podem surpreender e evitar o pentacampeonato. Por quê? Elencos tecnicamente fortes, com vontade de vencer e que acreditam que podem. Mais: querem desbancar o tetracampeão. Tem um gostinho especial.
 
Isso é outra coisa que pesa a favor e contra o NQS. Contra, pois todo mundo vai com vontade extra pra cima deles. A favor, pois na hora de decidir, na hora de realizar o feito inédito a ficar para a história do Chuteira (“Nós eliminamos o NQS”), a pressão é enorme. Eu já tive a oportunidade de bater um shoot out ante o Tinho, na base da brincadeira. Parti com a bola e vi aquele homenzarrão vindo em minha direção. Não fiz o gol, claro, e senti como é difícil marcar um gol assim, sem responsabilidade alguma. Agora se coloque num jogo tenso, o cansaço físico e mental, a responsabilidade de você ser o cara a decidir, dezenas ou milhares de olhares em sua direção, um Tinho pela frente e a certeza que você pode ser o homem do ano se fizer o gol. A história está ali para você cravar seu nome.
 
A perna vai tremer? As minhas tremeram só de escrever essas últimas linhas.

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