Embate foi marcado por lances improváveis e tensão por todo o tempo. No tempo extra, Thiaguinho apareceu para fazer o gol de ouro e colocar Arouca na decisão
Por Luiz V. Andreassa
O fato de o Chuteira de Ouro já estar em sua décima terceira edição possibilita a existência de algumas características marcantes. Equipes assumem perfis diferentes ao decorrer de seus sucessos e insucessos, seu modo de jogar, a maneira de se portar em quadra. E existem sempre aquelas com história, com tradição; e quando elas se encontram em um jogo decisivo, não há como não haver emoção. Foi assim o embate épico entre Arouca e SNG, no qual o primeiro bateu seu rival na prorrogação e finalmente se livrou da alcunha de freguês – após ser eliminado pelo mesmo em duas semifinais.
Não que o encontro tenha sido um primor de técnica e de chances de gol. Longe disso, mas, para quem entende a importância de uma partida desta, com todo o seu contexto, sabe do que se trata e o que esperar. Falando de bola, o SNG foi quem tomou a iniciativa e, antes do primeiro minuto ser completado, já dava sua primeira finalização, em chute de Felipe perto do ângulo direito. Pouco depois, o mesmo Felipe finalizou de peito de pé, pela meia-esquerda, e, mais uma vez, errou o alvo por pouco. O que veio a seguir não seguiu a tendência dos dois primeiros lances. O Arouca mostrava que havia aprendido com os erros do CAV nas quartas de final. Tocava a bola com tranquilidade, mantinha sempre três homens no campo de defesa e evitava ao máximo se expor, coisa que o time de Vitinho Lessa fez – e acabou goleado por 7 x 3.
Assim, o ritmo lento e estudado predominava nas ações de ambas as equipes. Quem resolveu arriscar foi Mota, que dominou pela meia-direita, finalizou e parou em defesa de Sampa. Se neste lance o goleirão conseguiu evitar o pior, não se pode dizer o mesmo do próximo. Também pela direita, só que mais de longe, Renanzinho foi para cobrança de falta. A barreira, mal colocada, deixou a bola passar, e Sampa tampouco teve sucesso em interromper o destino da redonda: o fundo das redes.
A tática da bola parada parecia a melhor forma de criar perigo para o adversário, então, um minuto depois, já aos 17 minutos, quando nova infração foi marcada a favor do Arouca, novamente seus jogadores ficaram animados. E não foi por acaso: Marquinhos Bohn chutou sem muita força. A bola era fácil, mas Sampa transformou-a em difícil ao soltar no pé de Caião, que apareceu para conferir e fazer 2 x 0. O goleirão ainda tentou reclamar alguma coisa, mas não tinha como.
Diante da desvantagem, o SNG se viu com uma única opção – partir para cima. A tarefa não era fácil, já que o rival se defendia bem. Deste modo, o jeito foi apostar na mesma arma que o fizera sofrer anteriormente. Em cobrança de falta, a bola foi rolada para a direita, onde Ricco apareceu soltando um canudo de canhota para estufar as redes e descontar pouco antes do intervalo. Na reunião do time antes da volta à quadra, Allan fez questão de ressaltar que o tento conquistado daria fôlego à equipe para buscar a virada na etapa final. Quem gosta de futebol certamente se recordará de casos em que esta “profecia” de Allan realmente costuma se concretizar. Era o clima que pairava no começo do segundo tempo.
O primeiro a concluir a gol na etapa final foi Biro, que dominou uma inversão de bola pela direita e encheu o pé, obrigando Kino, que entrara no lugar de Mauricio na meta do Arouca, a espalmar. A resposta veio dos pés de Mota, em chute cruzado que passou perto da trave esquerda. Do outro lado, Rafael Brozinga recebeu passe em profundidade, aplicou uma bela caneta em Vitão e, na cara do gol, só não completou a pintura porque Kino saiu bem para defender.
Conforme os minutos passavam, a dramaticidade aumentava. E Renanzinho fez questão de mantê-la em nível alto, ao desperdiçar a grande chance de decidir a parada: o camisa 21 dominou pela esquerda dentro da área e, na hora de deixar Markinhos na boa para apenas empurrar a bola para dentro, errou o passe. Conforme jogadas assim saíam, mais parecia que o SNG estava próximo do empate por causa do seu jeito de ganhar alguns jogos – por ser aquele tipo de time experiente que, mesmo quando não está bem, acaba conseguindo seus objetivos. Parecia que a equipe poderia muito bem virar o jogo, e fazer deste aquele tipo de “vitória de campeão”. Todavia, era o rival quem se portava melhor, defendendo-se com qualidade e criando oportunidades de marcar. Marquinhos Bohn quase o fez, após passe de Renanzinho em cobrança de falta, mas Sampa fez defesa milagrosa para impedir o gol.
Já pelos 20 minutos, Renanzinho dividiu violentamente uma bola com Vairo pelo meio da quadra e teve de sair carregado. Era apenas um ingrediente a mais para simbolizar a densidade da disputa de cada lance. E a cada segundo que passava, mais o SNG chegava na hora de decidir. A pressão era grande, o goleiro linha já era debate fervoroso no banco de reservas desde os 10 minutos – usar ou não? – mas a real aposta do time foi a estrela de Renê. No banco praticamente todo o jogo e distante de seu estado físico ideal, o atacante era a esperança do empate, como Inzaghi fez no Milan durante anos e se sagrou como um dos grandes atacantes do mundo. E foi como o companheiro italiano que Renê, após confusão na qual a bola foi tirada pela defesa do Arouca - e logo em seguida voltou para a área -, girou e, todo desajeitado, bateu na bola de forma a encobrir Kino e balançar as redes. Gritaria, insanidade, milagre de campeão. Isso aos 25 minutos do segundo tempo!
Antes do apito final, Renanzinho ainda teve a chance de recolocar sua equipe à frente, ao dominar pela esquerda e cruzar a bola para a área. Com Vairo vencido, coube a Léo aparecer para salvar antes que Markinhos chegasse e empurrasse a pelota para dentro. Lance milagroso. Milagre de campeão? As dificuldades para o tricampeão pareciam se afastar quando a prorrogação veio. Com moral após o empate e a experiência, o momento era todo deles, como confessou Allan ao fim do jogo. “Tínhamos tudo ao nosso favor. Empatamos e ganhamos moral. Falamos isso no intervalo que o momento era todo nosso”, contou.
O que o SNG não deve ter lembrado é que o time já estava no limite de 7 faltas cometidas no período. Numa sequência de escanteios a se favor, o árbitro anotou uma infração de ataque. Era o tiro de 9 metros que poderia decidir o jogo. Na cobrança, Marquinhos Bohn, que mesmo meio apagado em quadra é dono de um chute potente e certeiro. No gol, o inseguro Sampa, que já vacilara nos reveses anteriores. Mas o futebol tem disto: Marquinhos arrematou para o lado direito, e Sampa caiu para tocar a bola com a ponta dos dedos e desviá-la de forma a pegar na trave e sair, operando novo milagre. Milagre de campeão.
Todavia, no lance seguinte, Thiaguinho dominou na meia-esquerda, cortou para dentro e, da entrada da área, não pensou duas vezes para soltar o pé num balaço que foi morrer nas redes, decretando o fim do tabu e a primeira final do Arouca no Chuteira.
Eis porque o futebol é maravilhoso: sabe nos surpreender e quebrar mesmo os seus velhos clichês. Talvez o milagre de verdade tenha ocorrido para o Arouca, que, apesar de jogar melhor, parecia estar diante de um adversário imbatível, por contar com a sorte e com a predestinação futebolística. Mas isto não aconteceu desta vez. O dono do milagre foi o time de Galizé. Milagre de campeão? Falta a batalha final contra o Rabeloska.
XIII CHUTEIRA DE OURO: SEMIFINAL
Rabeloska 1 (1) x (0) 1 Mulekes
DICK VIGARISTA MARCA DUAS VEZES E ELIMINA ATUAL CAMPEÃO
Time mackenzista repete a tática usada contra o Só Resenha e conta com outra grande atuação do camisa 9; Tassio, com boas defesas, também foi destaque
Por Luiz V. Andreassa
Depois da apoteose que foi o duelo entre Arouca e SNG, os espectadores não esperavam menos de Mulekes x Rabeloska. Dois times campeões e cheios de qualidades e esperanças de conquistar o título. Mas, diante de um panorama equilibrado, um jogador pode fazer a diferença, e este jogador atende pela alcunha de Dick Vigarista.
A primeira finalização foi da esquadra mackenzista, em um chute firme de Barata que passou perto da trave esquerda. Todavia, esta não era uma previsão do resto da partida, já que o Mulekes parecia tranquilo em quadra, usando da sua maior experiência e ostentando o título de atual campeão para tocar a bola com paciência e tomar a iniciativa. Leco mostrou isso ao dar um chute espirrado e exigir boa defesa de Tassio. As chances de gol, contudo, não eram frequentes, e a próxima só veio aparecer aos 14 minutos, quando Rafinha subiu na área após escanteio cobrado por Robinho e cabeceou para fora.
O respeito mútuo fazia com que a partida fosse marcada por um ritmo lento, estudado, cuidadoso. Quando alguém se arriscava, quase sempre era um jogador do time de branco. Mais uma vez Rafinha cabeceou após cobrança de escanteio, só que, desta vez, parou em grande intervenção do goleiro. Pouco depois foi a vez de Philip dominar pelo meio, ajeitar e concluir de direita rente à trave esquerda. O perigo, contudo, estava escondido, esperando a hora certa para aparecer. Tal como fez contra o Só Resenha, o Rabeloska chegou às redes na sua primeira chance real de gol – e novamente o fez contando com um vacilo de um defensor rival. Ibrahim finalizou da meia-direita, Diego espalmou para dentro da área – ao invés de colocá-la para fora dela, e Dick Vigarista apareceu para conferir.
Antes do intervalo, Robinho, mais uma vez, exigiu bom trabalho de Tassio, ao receber uma bola ajeitada por Rafinha pelo lado esquerdo. Logo que começou a etapa final já dava para perceber que o panorama pouco mudaria. O Rabeloska se fechava em seu campo de defesa, deixando de lado seu estilo de jogo e apostando nos lançamentos longos ao invés do toque de bola – a fórmula de sucesso das quartas de final. A estratégia defensiva foi por água abaixo logo aos 5 minutos, quando Leco, ao lado da trave direita, completou lançamento longe de cabeça e, mesmo sem ângulo, aproveitou o rebote para completar de esquerda para dentro.
O tento de empate animou a equipe, que passou a buscar o segundo com mais vontade. E ele quase veio em finalização de Barata da direita, mas novamente Tassio apareceu para salvar.
O Rabeloska voltou a ameaçar a meta rival com seu camisa 9, o qual completou cobrança de escanteio de cabeça no primeiro pau e fez a bola passar na boca do gol. Logo após o lance, o técnico da equipe resolveu pedir tempo, e quando o jogo foi reiniciado o ritmo voltou a cair. Os minutos passaram e só no final da partida, com todo o clima dramático de uma semifinal empatada, que a emoção passou a reinar. Primeiro, Gian cruzou para a área e Barata não virou o placar por questão de poucos centímetros. Já o Barata ‘vermelho’ respondeu ao receber na esquerda e concluir para fora, perdendo boa chance. Do outro lado, Gian bateu de chapa da intermediária, a bola passou por todo o bolo de jogadores na área e saiu rente à trave direita. Na sequência, Pipo arriscou da meia-direita e acertou a rede, mas pelo lado de fora.
A melhor chance do Mulekes na partida chegou a arrepiar quem viu o lance – principalmente o goleiro Tassio. Armando dominou na meia-direita e bateu bonito na bola, firme e de chapa. A redonda viajou e saiu pela linha de fundo, raspando a trave oposta, muito perto do ângulo. A blitz seguia, e Leco perdeu boa oportunidade ao receber passe em profundidade nas costas da zaga, mas ele dominou mal, permitindo ao guarda-metas sair para ficar com a bola. Até mesmo o arqueiro Diego se aventurou, ao cobrar uma falta pelo meio. A bomba, contudo, parou mais uma vez nas mãos de Tassio. Foi então a vez do Mulekes pedir tempo, pouco antes do apito final. Na volta, quase o adversário fez o gol, quando Ibrahim dominou pela esquerda e finalizou de canhota, parando em intervenção de Diego.
A prorrogação foi iniciada, mas parecia mais uma extensão do segundo tempo. Apesar de Dick Vigarista arriscar bom chute de longe para fora, foi o rival quem seguiu no ataque. E Tassio foi quem seguiu evitando o pior. Gian chamou a responsabilidade, recebeu passe da esquerda e chegou enchendo o pé, tentativa evitada por grande defesa do goleiro. Na sequência do lance, o mesmo Gian finalizou pela direita e, para variar, o heroico Tassio fez uma defesa sensacional.
Se, debaixo das traves, o guarda-metas mackenzista fazia a diferença, na frente havia outro herói. Quando a partida parecia se encaminhar para a decisão por pênaltis, novamente Dick Vigarista resolveu dar o ar de sua graça. Ele dominou pela direita, no meio da quadra, avançou, saiu dos marcadores ao mesmo tempo em que puxava para dentro e finalizou de canhota. Diego, considerado dos melhores goleiros do Chuteira, novamente vacilou e espalmou a bola para dentro do gol. Foi a consumação do estilo alternativo do Rabeloska jogar a Ouro. Um estilo copeiro, que demonstra mais experiência diante de um campeonato tão disputado.
O Rabeloska chega à incrível marca de três finais em três campeonatos disputados, e terá pela frente o Arouca. A grande final coroará a campanha de um campeão inédito e promete ainda mais emoções em seu desenrolar.
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