Este clássico de rivalidade surgiu na Série Prata. Mas ele se estendeu à principal divisão do Chuteira de Ouro. E, agora, vale a vaga na decisão
“Clássico é clássico e vice-versa”. Quando o atacante Jardel – campeão da Copa Libertadores da América com o Grêmio, em 1995 – proferiu esta frase, muitos achincalharam o jogador. Jardel se enganou no momento de externar seu pensamento. Ele queria dar ênfase ao peso que um jogo clássico tem. Errada ou não, a frase se encaixa bem no outro confronto das semifinais da Série Ouro. Uma rivalidade iniciada na Série Prata, mas que agora invade a principal área do Chuteira de Ouro: Fora de Série x Só Resenha.
No início da competição, jogadores de times tradicionais se perguntavam em qual rodada Só Resenha e Fora de Série voltariam à Série Prata. Passada a fase de classificação, os times não só permaneceram como avançaram. Os olhares incrédulos deram lugar ao respeito às equipes. Mas as dúvidas ainda persistiam. “Não tivemos um começo muito satisfatório, até em função da inexperiência em jogar a Série Ouro. No início os resultados não vieram. Mas tivemos tranquilidade, nos reunimos, acertamos nossas falhas, e assim conseguimos três vitórias consecutivas, o que nos deu a classificação e nos fortaleceu dentro da competição”, avalia o técnico e jogador do Só Resenha, Diego.
O Resenha terminou na 4ª posição do Grupo B, surpreendendo muita gente. Nas oitavas de final derrubou um dos times de maior ascensão no certame até então, o Fiorella Brasil. Já o Fora fez campanha brilhante na fase de classificação: ficou em 2º lugar no mesmo grupo, estando à frente do todo poderoso SNG. “Formamos uma equipe muito competitiva no 1º semestre e 90% do time foi mantido para a disputa da Ouro. Mesmo assim sabíamos que muitas coisas tinham que melhorar e por isso completamos o time com alguns novos e bons jogadores. Durante o campeonato conseguimos encontrar um ponto de equilíbrio e definir um padrão de jogo”, destaca Rica, zagueiro e capitão do Fora.
Na fase de quartas de final os dois times tiveram confrontos complicados pela frente. E, mesmo assim, saíram vencedores. O Resenha despachou um dos favoritos à taça, o Mulekes. Já o Fora também não teve moleza: encarou o Med Taubaté, que havia eliminado – nas oitavas – outro nome forte do Chuteira, o Acidus. Com campanhas tão boas, era natural que a desconfiança dos outros atletas e dos torcedores se transformasse em admiração. O homem-forte do Fora, Clebão, avalia: “Os elogios dos outros times é uma forma de reconhecimento. Mas a gente não pode se acomodar pensando que está tudo ótimo. Tem que ter um filtro, pés no chão e continuar jogando o nosso ‘arroz com feijão’ sem frescura”.
Resenha e Fora surpreenderam e avançaram. Todavia, muitos atletas da Ouro não sabiam que o jogo tornou-se um clássico. As duas equipes participaram do III Chuteira de Prata, no 1º semestre de 2010. Naquela ocasião, eles ficaram no mesmo grupo na fase de classificação. E qual foi o jogo de abertura daquela competição? Justamente Resenha versus Fora. Ali as equipes empataram em 3 x 3. Porém, acabou sendo um duelo confuso e marcado por muitas provocações. Nas rodadas seguintes as equipes disputaram ponto a ponto a liderança do grupo.
“Acredito que a rivalidade ficou mesmo por conta da disputa pela ponta da tabela no semestre passado. Ora estávamos em primeiro, ora estava o Fora. Em função de uma briga na 6ª rodada, nós perdemos dois pontos e só restou torcer por um deslize do Fora. Não adiantou a torcida, pois eles foram impecáveis”, relembra Vitinho, um dos fundadores e atleta do Resenha.
De fato, o Fora agarrou a liderança para não mais a perder. Com isso,na ocasião, o time se classificou direto à Série Ouro. O Resenha continuou sua busca pela vaga e alcançou-a ao chegar à final ante o Canhedo Beppu, quando sagrou-se campeão. Porém, a rivalidade continuou na principal série do Chuteira de Ouro. Por ironia dos deuses do futebol, caíram no mesmo Grupo B. No confronto direto, triunfo do Fora.
Entretanto, o encontro, agora, é em uma outra fase: vale vaga na final. E as equipes já estão se preparando para o grande duelo. “É jogar futebol, só isso. Temos que impor nosso ritmo de jogo e manter a cabeça focada na partida. Hoje temos um time maduro, com jogadores experientes. Acho que isso vai contar muito nesta fase final do campeonato”, aposta Ricca. Pelos lados do Resenha, Diego repete o discurso: “O grupo está muito fechado e centrado nessa fase de mata-mata”. E continua: “Não ser favorito também é outro ponto chave, assim vem sendo e assim vai dar certo”.
São muitos os jogadores que podem desequilibrar. O Fora conta com uma das melhores duplas de zaga do torneio: Rica e Argentino. Possui um meio de campo marcador e de muita habilidade com Zóio e Cachaça, e conta com os gols de Orley. Até a rodada passada tinha um paredão no gol chamado Casari, mas o arqueiro do Fora rompeu o ligamento do cotovelo e está fora da competição. Suprir tal ausência será fundamental para o time. tanto que Clebão já passa o favoritismo aos demais. “A responsabilidade nessas semifinais nem é do Fora, mas sim dos outros três que chegaram até aqui. Afinal, tem um bicampeão da Ouro, o atual campeão da Prata e o líder do grupo, com o melhor futebol que eu vi nesse campeonato”, isenta-se Clebão.
Já o Resenha é um time tinhoso, com jogadores rápidos e persistentes na marcação. Além de saberem como ninguém puxar contra-ataques. Renatinho e Bruno são destaques no meio de campo. Dhany e Darian formam uma dupla de ataque infernal. E tem em seu zagueiro Cris Nicolas a segurança que necessita à sua zaga. E o xerife ainda se destaca marcando gols de cabeça. Porém, Cris estará de fora do duelo, por conta de suspensão. “Pois é, fui avisado pelos meus companheiros pra tomar cuidado com o cartão amarelo. Duro é aceitar como ocorreram os fatos: após a expulsão do jogador do Mulekes (Pipo), disse pra ele ‘falou, onze’ e o juiz interpretou isto como provocação e me deu o amarelo. Os caras do time quase me mataram”, conta Cris em meio a risadas.
Independente de quem avance, tanto Resenha quanto Fora realizaram uma temporada 2010 inesquecível. “Eu esperava sim um semestre bom porque sabia do potencial do time e sabia que o Fora poderia fazer um bom campeonato, mas não esperava uma campanha tão boa no ano todo como a que fizemos. E, falando de Ouro, ir bem em um grupo tão forte e equilibrado como o grupo B”, revela Rica. Já Vitinho lembra também do título na Prata: “Conquistar o III Chuteira de Prata foi fantástico, foi como construir um avião em pleno voo. Nenhum dos nossos jogadores havia disputado o Chuteira, não conhecíamos nenhum adversário, não sabíamos o que poderia acontecer. Foi um ano de muita luta, muitos erros e muito aprendizado”.
Para finalizar, um jogador de cada time manda seu recado aos colegas. “Quero mandar um recado a todos os resenheiros: gostaria de parabenizá-los por mais este momento que estamos vivendo, só nós sabemos das dificuldades que enfrentamos. Pensei em desistir e abandonei o time por alguns momentos, mas graças a Deus vocês tiveram força e honra pra continuar, mesmo com resultados negativos perseveraram”, declara Cris Nicolas, que chegou a flertar com o próprio Fora. Já Clebão é só sentimento: “Sempre leio ‘O Fora do Clebão’. Pô, é legal pra c* ser referência. Mas quero dizer que o Fora é de todo mundo que joga por essa camisa, que não vê a hora de chegar sábado pra tomar uma cerveja juntos. Hoje o Fora não é o ‘meu Fora’. Ele é nosso”.
Comentários (0)