Seu novo uniforme é de PR1MA! Facilitamos a sua vida!

    Agilidade e comodidade para você focar apenas no que importa... o seu time! @pr1masports e (11) 99210-4656

    Veja mais

Muito se fala de arte e força e as transformações no futebol; no Chuteira é também possível ver as semelhanças entre dois estilos distintos e algumas obviedades desapercebidas

Há algum tempo vinha pensando sobre como um velho antagonismo do futebol se aplicaria ao Chuteira. Na verdade, permita-me uma correção: talvez não seja tão velho assim. A chamada “escola gaúcha”, próxima ao chamado futebol-força – que prioriza a vontade, a obediência tática e o jogo coletivo em detrimento ao drible, à ousadia e ao talento individual, ou seja, ao tão cultuado futebol-arte – só passou a ser concebida como “escola” a partir dos anos 1990, com a ascensão dos treinadores gaúchos tidos como “retranqueiros”. Nos anos 1970, o Internacional de Falcão, Figueroa e Carpegiani jogava bonito; nos 1980, o Grêmio foi campeão da Libertadores com o melhor ataque da competição, embora com placares apertados. Mas naquela década foi o Flamengo de Zico, Nunes, Júnior, Leandro e cia. que encantou os hoje saudosistas daquele jeito de se jogar que parece ter perdido espaço para a estratégia, o cálculo e o planejamento.
 
Quem viu Mané – claro que não é o nosso caso – garante que ele foi o maior. Não porque era decisivo ou vencedor – o que ele foi –, mas pelo que fazia com a bola nos pés. Ele era único. Assim como foram Leônidas, Puskas, Didi, Cruyff e tantos outros, e como são Messi e Cristiano Ronaldo, cada qual no seu tempo, com suas idiossincrasias, semelhanças e diferenças, mas que de alguma forma ainda se insiste em compará-los. Em vão.
 
O diapasão entre o ontem e o hoje contagia ilusões e mune argumentos contra o que o futebol se tornou. Assim sendo, a naturalização na compreensão às transformações pelas quais o esporte vem passando também passa a ser questionada. Anacrônico seria o esporte em nada mudar. Entretanto, nem toda mudança significa progresso, e este parece ser o caso do futebol moderno, haja vista a não mais espessa linha que separa o craque do artista, a quem é atribuída a aura da imortalidade.
 
Craques e artistas são conceitos subjetivos, como devem ser, mas os primeiros existiram de montão e continuam a aparecer nos quatro cantos da Terra, brindando o público crítico e reacendendo a esperança dos nostálgicos e melancólicos. Os segundos, como Mané, são raros, e o modelo atual inibe o surgimento de outros. Quando a modernidade começa a ser mais bem compreendida, na esfera desportiva há resistência à sua aplicação – é a defesa de um grupo que não quer ver o jogo mudar, o que, para eles, significaria a perda da sua essência.

Um exemplo crasso é a contestação ao discurso pró-tecnologia no meio. O homem, e não o chip, determinará se a bola entrou ou não, colocando em xeque todo o trabalho de uma equipe. Se é justo ou não, não é esta a questão. A questão é que esta é a escolha de quem enaltece a emoção – a tal essência do esporte – e admite os erros advindos dela porque eles sempre ocorreram ao longo da história, o que, em tese, o torna mais atraente, pois dúbio e discutível. Livrá-lo do erro, então, seria acabar com a discussão; logo, acabar com um elemento mágico do futebol, uma razão do seu existir depois do apito final. Artistas do passado ou craques do presente, como dizia Alex Ferguson, “os grandes transcendem gerações”. Assim sendo, será Messi lembrado daqui a 50 anos como é Mané hoje? Ou Mané, por tudo que fez, é pouco lembrado?
 

O Chuteira tem cinco divisões e cerca de 90 times – alguns ótimos, muito bons e outros nem tanto. Esses times são bastante distintos entre si, mas também há semelhanças, principalmente entre os que terminam nas primeiras e nas últimas posições. Quando comecei a cobrir o torneio – Séries Aço e Bronze em setembro de 2013 – notava pouca diferença entre as equipes. Achava os jogos na Aço mais pegados e via um equilíbrio técnico maior na Bronze. Primatas, Cacildis, Leões do Brás e Vingadores pareciam estar na divisão errada e, naturalmente, subiram. Recordo do primeiro jogo pelo VII Chuteira de Bronze: vitória apertada do Cachorro Velho sobre o extinto Derrubada, com grande atuação de Botana. A equipe do arqueiro cão de guarda era entrosada, tinha boas peças no elenco e parecia que brigaria para subir. Naquele torneio, o time desfez a imagem de cavalo-paraguaio após passar por dois jogos de mata-mata, mas foi eliminado nas semifinais pelo Real Madruga. Mesmo assim, a equipe subiu com desistências futuras. Na temporada seguinte, porém, a cachorrada terminou na lanterna, tendo vencido apenas uma partida, e retornou à Bronze, onde estava até semestre passado quando conquistou o acesso com nova desistência.
 
Não se trata aqui de diminuir ou desqualificar o Cachorro, que tem um time conciso e na última edição voltou a brigar para subir, mas fato é que eles ainda não demonstraram força para chegar à primeira divisão do campeonato. Talvez porque não tenham esta pretensão. Todos querem vencer, mas alguns levam isso mais a sério, muito a sério. Neste caso, o lúdico cede lugar ao competitivo, e o que era para ser uma diversão semanal entre amigos ganha tons de semiprofissionalismo. Não há nada de errado nisso, apenas não são todas as equipes que encaram o torneio com este propósito, o que não as impede de serem competitivas e, às vezes, vitoriosas.
 
Certa vez, o Lucas me perguntou se eu notava muita diferença entre as divisões. Respondi que alguns times da Ouro, três ou quatro, estavam bem acima dos demais, mas que havia equipes na Prata, e até mesmo na Bronze, que brigariam no miolo da elite. Conversávamos no final das rodadas sobre como Lodetti e Kansado se sairiam lá no topo, já prevendo que chegariam. O Kansado encantava com um jogo plástico, toque de bola refinado, talentos individuais e goleadas. Assim como na primeira edição da Aço, naquele ano (7ª edição da Bronze, 2º semestre de 2013) o time do carismático Loco Bielsa terminou a fase de classificação invicto, mas caiu no mata-mata, frustrando, de certa forma, aqueles que lhe creditavam o favoritismo no decorrer do campeonato e previam uma revanche contra o Lodetti (este derrotou o Kansado na semifinal do I Chuteira de Aço). O algoz nas quartas, o Real Madruga, eliminaria a cachorrada na semi e perderia a final contra a equipe do técnico Negão, que se destacava pela técnica, pelo entrosamento e pelo jogo físico – duro, às vezes ríspido, mas, em geral, leal. Com direito a uma das maiores goleadas da história do Chuteira (20 x 1 sobre o TNT, na 7ª rodada) e uma vitória épica sobre o Bengalas na semifinal (5 x 4), em uma das melhores partidas que eu já vi, os leões levantaram o caneco, confirmando o favoritismo igualmente atribuído no início e no decorrer da competição. Toretta e Bahia terminaram na segunda e terceira posições respectivamente na lista dos artilheiros do campeonato (Lele, do Morada, foi o primeiro); Allyson foi eleito MVG – o melhor, inconteste, daquela e de outras edições. Isso sem falar do capitão Pedro pelo meio: a precisão nos passes, o elo entre defesa e ataque. Uma muralha no gol, defesa sólida, meio-campo criativo e ataque eficaz. Um time completo, assim como o Kansado, com o diferencial de que no momento mais importante levara a melhor duas vezes.
 
Os números dizem alguma coisa, mas não tudo. Quem viu Lodetti e Kansado jogarem naquele ano, tal qual o Futsamba – a terceira força do torneio, outro time que se destacava pelo refinado toque de bola e no talento individual –, sabe que era questão de tempo para que chegassem à elite. São equipes técnicas cujos estilos não são idênticos, mas têm em comum o trato da bola nos pés; não apenas a raça para recuperá-la. Na temporada seguinte, no XI Chuteira de Prata, Leões e Chavantes caíram no mesmo grupo e o aguardado reencontro não dependeria mais do sucesso de cada um por caminhos paralelos. Ele aconteceu no dia 12 de abril de 2014, na abertura da sexta rodada, quando ambos vinham bem na competição – o Kansado com cinco vitórias e uma derrota e o invicto Lodetti com cinco vitórias e um empate – e terminou tudo igual, no duelo que, como bem destacou Douglas Almasi, agradou os torcedores e beneficiou o Fúria, concorrente direto pela liderança da chave. Entretanto, ainda era cedo para uma definição e as reviravoltas mudariam o desfecho de um dos grupos mais equilibrados que a Prata já teve.
 
Depois da goleada no confronto direto contra o Fúria (9 x 1), o Lodetti deixou o acesso escapulir após derrota para o SPQSF na última rodada. A exemplo do Kansado na temporada anterior, os Leões perderam dois pontos devido à confusão na semifinal contra o Bengalas – aquele jogo épico, no dia em que Deus e o Diabo se pegaram no Chuteira. Kansado e Fúria haviam empatado (3 x 3) na sétima rodada. Assim, os três terminaram a fase de classificação com campanhas idênticas (6V/2E/1D) e o time chavante ficou com a vaga por conta do melhor saldo de gols. No outro grupo, o Real Madruga já havia garantido a sua. No mata-mata, surpresa: o favorito caiu nas quartas ante o Inflação e teve de adiar o tricampeonato e o sonhado passaporte dourado. O Kansado decepcionou outra vez e voltou a lidar com críticas sobre a repentina mudança de atitude dos pontos corridos para os duelos decisivos. Por fim, aquele torneio viu ressurgir um bicho-papão. Depois de bater o Real Madruga na decisão, o Bengalas retornava à divisão da qual fora campeão três vezes e onde faria companhia ao agora vice-campeão da Bronze e da Prata Real Madruga e ao Kansado que, apesar de todos os elogios, nunca havia chegado sequer a uma semifinal.
 
Até aqui nenhum dos times mencionados tem como característica principal o aspecto físico. Alguns cometem, sim, mais faltas do que outros e lançam mão deste artifício para impedir o adversário de chegar ao gol, mas nenhum depende só da raça para vencer. Vejamos o Vingadores, dos atléticos Guerra, Ulisses e Iglesias. O desavisado chega numa tarde de sábado, olha os caras antes da bola rolar e imagina que o futebol deve ser uma forma de descontração antes da competição que realmente importa: a seletiva estadual do Mister Olímpia cujo prêmio em barras de cereais e suplementos alimentícios abasteceriam o estoque nutritivo anual de um fisiculturista amador. Mas quando a bola rola, as suposições caem por terra, afinal eles jogam bola. O time já foi punido por excesso de testosterona, mas não é correto concluir que se trata de um esquadrão que confia exclusivamente na força. É certo, sim, que a carcaça impõe respeito, mas até que ponto isso influi no que acontece em campo é incerto. O Vingadores não chegou à Ouro só com o corpo; precisou jogar bola. É um exemplo de que ser esguio não significa destreza. Tudo leva a crer que o contrário também seria verdade, mas Balãotelli está aí para desmentir. Força e habilidade não são ambíguas, talvez elas até se cruzem pelo caminho. Então, quem seria no Chuteira a equipe burocrática que vence jogando feio – a Juventus da Mooca ou de Turim? Pode ser que a elite nos dê algumas respostas.
 
A última edição da Ouro (19ª) reuniu muitas daquelas equipes que imaginávamos que chegariam lá: Kansado, Futsamba, Fúria, Bengalas, Vingadores e Lodetti. As exceções foram Primatas e Real Madruga. Campeão da Aço e Bronze, a equipe alvirrubra não repetiu as boas atuações na Prata e ficou por um ponto entre a classificação e o rebaixamento. O Real Madruga, por sua vez, decepcionou em sua estreia na Ouro, despedindo-se do torneio com apenas uma vitória. Os dois se trombaram no XIII Chuteira Prata e apagaram o insucesso do segundo semestre de 2014, conquistando, na última edição, o retorno à Ouro.
 
Tá, bom. Tá, bom, para de enrolar. Quem é a Juventus? Perguntei ao Lucas e ele apontou o Arouca, campeão do XIII Chuteira de Ouro. Vejamos: das 29 vitórias que o time conquistou nas últimas cinco edições do torneio, incluindo o mata-mata, 16 foram por um ou dois gols de diferença (55%) (não estão contados os jogos deste semestre, que só reforçariam esse número). Foram nove goleadas aplicadas e três sofridas (considera-se aqui “goleada” a vitória por quatro ou mais gols de diferença). Com exceção da última e da 16ª edição, quando o saldo de gols do tricolor (28) foi o melhor da fase de classificação (muito em função da goleada sobre o incompleto e combalido Cabeça Rachada por 19 x 1), nas outras três a equipe manteve o saldo igual ou inferior a 8 gols, o que pode ser considerado médio-baixo levando-se em consideração o formato da competição que beneficia placares elásticos e o desempenho da maioria dos seus concorrentes direto.
 
Dos 505 jogos disputados nestes cinco torneios, em nem cinco deles a rede não balançou – a última vez que isso aconteceu foi no empate entre Arouca e CAV pelas quartas de final do XVII Chuteira, há mais de um ano. Uma ressalva: em todas essas ocasiões o Arouca se classificou, tendo chegado a uma final (XVIII – perdeu para o CAV nos pênaltis) e sido eliminado três vezes nas quartas (XVI, XVII e XIX) e uma nas oitavas (XV). Tire as suas conclusões, mas há argumentos para enquadrar o Arouca naquele perfil copeiro, o time que joga pra ganhar sem se importar em agradar o torcedor, ou seja, um legítimo representante da moderna escola gaúcha.
 
Já o Arouquinha, que começou a disputar o Chuteira em 2010, na IV edição da Prata, tem um retrospecto distinto nestas mesmas cinco temporadas, com algumas semelhanças. Quase 50% das vitórias (11 em 24) foram pelo placar de um ou dois gols de diferença. Venceu seis vezes por três gols, aplicou sete goleadas e sofreu apenas duas – uma delas para o próprio Arouca (8 x 1 pela 5a rodada do XIX) e a outra no XVIII, temporada atípica na qual a equipe só conquistou uma vitória e não se classificou (terminou em 8o). No confronto direto contra o coirmão, vantagem do Arouca: duas vitórias e um empate. Outra ressalva, esta bem negativa: a franquia perdeu TODAS as partidas de mata-mata que disputou.
 
Pra finalizar, não dá pra deixar de citar os dois melhores times do Chuteira, que vêm provando ano após ano estarem realmente num patamar acima dos demais. Já perderam, claro, como todos, mas a frequência com que isso acontece tem sido bem baixa. Das últimas cinco edições, eles venceram quatro. Na XV, única vez em que o caneco ficou com outra equipe, cada um terminou a fase classificatória com três derrotas, a pior campanha deles. No XVI, um terminou invicto na classificação e o outro, que perdera duas nesta fase, levantou o troféu. Na XVII, apenas uma derrota para cada lado e um bicampeonato inconteste. No XVIII, o bicampeão perdeu duas e o outro foi campeão invicto. E, finalmente, na última temporada, apenas uma derrota para cada lado e pela segunda vez eles se encontraram na final. Não se trata de dizer quem venceu mais (estão quites no quesito título da Ouro, três para cada), mas de reforçar que ambos venceram muito e perderam pouco. CAV e Mulekes já foram elogiados diversas vezes pelo padrão tático, técnico, trabalho coletivo e tudo mais. Neles estão muitos dos melhores jogadores do Chuteira. Tudo isso já foi excessivamente dito e repetido. Mas olhemos sob uma outra perspectiva: conversava durante a última final com meu colega Julião, que cobre a Ouro há algum tempo, e o questionei quais seriam as melhores equipes no setor defensivo do Chuteira. Ele pensou um pouco, olhou para o campo (a esta altura o CAV vencia por 2 x 0) e disse com alguma certeza: CAV e Mulekes.
 
Os caveiras têm um jogo mais físico do que a mulekada, com alguns atletas robustos, outros parrudos, no bom sentido, claro – ambos jogam limpo. Mas o que faz deles times defensivamente eficientes parte do mesmo princípio, que chega a ser ridículo de tão óbvio, como bem apontou Julião: eles ficam a maior parte do tempo com a bola.
 
A ideia de deter ampla posse de bola passou a ser debatida como estratégia defensiva há pouco tempo, precisamente depois das sucessivas conquistas do Barcelona de Rijkaard – mas sobretudo o de Guardiola – e da seleção espanhola sob o comando de Del Bosque, embora já se via com Aragonés algo semelhante. Eles não foram, contudo, os precursores. Brian Clough assumiu o Nottingham Forest na segunda divisão inglesa em 1975 e o levou, dois anos depois, a um título nacional e um bicampeonato da Copa dos Campeões adotando exatamente o estilo de jogo que hoje se tornou uma estratégia. Antes ainda, o Ájax e a seleção holandesa de 1974, de Rinus Michels, o maior treinador que já existiu – o homem que recriou o esporte e inventou um novo jogo – e que influenciaria tanto o Barcelona de Guardiola quanto a Espanha de Del Bosque, tinham como características principais o toque de bola e a marcação sob pressão. Eram times que não tinham pressa em vencer – e venciam.
 
Guardadas as devidas proporções, o amigo leitor já deve ter assistido a uma partida do Mulekes. As posições são indefinidas. Quem ataca, defende, e vice-versa. O time cadencia o jogo porque é desta forma que constrói o resultado. Com a bola nos pés não há risco de levar gol. Quantas vezes você viu o Mulekes ter de correr atrás do placar? Acho que poucas, porque a mulekada costuma impor o ritmo de jogo.  Mas quando isso não aconteceu o time teve dificuldade, como na final, contra um rival que também gosta de tocar a bola, inverter posições, que também conta com ótimos jogadores e que chegou ao gol primeiro. Um rival cujo aspecto físico pode ter desequilibrado – vai saber! Não há uma única explicação. O CAV derrotou o Mulekes com mérito, assim como o Mulekes já foi melhor em outras circunstâncias. Dois grandes times – os melhores – com muitas semelhanças e algumas diferenças. Se tudo continuar como está, deverão se trombar em outros jogos decisivos. Algum candidato a desbancá-los? A.A.A.? NQS em breve? É o que este cronista quer ver e torce para acontecer. Na raça e/ou na técnica, surpreendam-nos! 
 
Comentários (0)