A decisão do VII Chuteira Girls colocará frente a frente não apenas duas das melhores equipes de futebol
society da atualidade. Em quadra, duas jogadoras também vêm sendo protagonistas de seus times. Não à toa lideram a corrida entre as MVPs. Não à toa, ou têm seus nomes citados exaustivamente em programas como o
Planeta Chuteira ou aparecem com alguma jogada de efeito no
Instagram do Chuteira de Ouro: Mari Loira, pelo Independente, e Camilinha, pelo Corinthians F7, são as principais estrelas.
Isso tem a ver, e muito, com a habilidade dessas jogadoras, mas também pela personalidade. Quem assiste às partidas das equipes, logo nota os espíritos de liderança que exercem perante as companheiras. Mari leva vantagem na artilharia, balançou as redes 6 vezes contra 3 da adversária. Em termos de aproveitamento, a independente 10 tem ótimo balanço: realizou apenas 3 jogos, fazendo uma média de 2 tentos por jogo. Em contrapartida, Camilinha já conquistou 9 pontos na corrida entre as MVPs – mesmo número de Mari Loira –, apesar de ser uma meia-armadora que tem muita preocupação defensiva.
Mesmo assim, nenhuma delas se impressiona com os números e elogios. Sabem que dividem responsabilidades e sempre destacam as companheiras, que lutam por igualdades e mais respeito quando estão dentro e fora de quadra. Neste sábado, o público poderá acompanhar não apenas as duas craques de bola, como também diversas jogadoras que estão fazendo o fut7 feminino crescer cada vez mais.
A seguir, confira cinco questões para Mari Loira, que fala, também, das dificuldades existentes para ter mais equipes adeptas às competições, e outras cinco perguntas para Camilinha, esta buscando o bicampeonato do Chuteira Girls: na edição passada, a base do Corinthians se chamava Condor’s.
Perguntas para Mari Loira (Independente):
Você joga no Independente há um bom tempo. Quando chegou, como encontrou o grupo, que estava se deligando de um time para formar este atual? A mudança foi para melhor?
Cheguei na equipe quando ainda éramos a
(Academia) Competition. Vim a convite do nosso técnico, André
(Sá), para jogar dois festivais, e só depois, no começo do ano de 2018, decidimos que seria melhor desvincular da ‘comp’ e seguir com nossas próprias pernas. Apesar do novo projeto, ao chegar encontrei uma equipe muito forte, unida, motivada a fazer o projeto dar certo, que ama futebol e tinha um único propósito, que era continuar fazendo o que ama, mesmo agora com as dificuldades em relação a dinheiro, falta de uniforme etc. Vim para jogar um festival, e acabei ficando até hoje porque encontrei no Independente tudo o que alguém que ama jogar futebol procura: comprometimento, seriedade, união, companheirismo, amizade, e o amor pelo futebol feminino. Joguei contra a ‘comp’ algumas vezes antes de vir pro grupo, e de fora sempre sentia o quanto o grupo era forte, compacto, corria junto, unido.... e hoje estando dentro da equipe posso afirmar que isso não é só uma impressão. O Independente é exatamente isso. Muitas meninas saíram, muitas chegaram, mas não perdemos a essência do grupo. Minha adaptação com as meninas foi ótima. Elas foram extremamente receptivas, parceiras. Hoje posso dizer que não tenho elas apenas como colegas de time, mas também como amigas pra vida. Com a Mariah mesmo, nossa capitã, a afinidade rolou desde o começo. Hoje temos uma amizade, uma confiança muito forte e sei que levarei ela pra vida. Em quadra não preciso nem dizer o quanto deu certo, né? Com a Sabrininha costumo brincar que ela é minha garçonete. Me serve muito bem com passes sempre muito bons pra buscar finalização. Fica até mais fácil buscar uma artilharia em algum campeonato com uma pivô dessas
(risos). Enfim, nosso grupo é incrível, de verdade! Mesmo com todas as dificuldades, nos permanecemos fortes e em pé. Unidas e querendo mais. Essa é a cara do Independente.
Você começou no Chuteira Girls sendo a protagonista do Vila Verde. De lá para cá, o futebol society feminino evoluiu. Porém, há ainda poucas adeptas à modalidade, comparando com o futebol masculino. Pra você, o que falta para as meninas deslancharem, já que espaço está sendo dado cada vez mais? É apenas dinheiro o problema?
Com certeza a falta de dinheiro pesa muito. Nosso time mesmo, nós dependemos do nosso próprio dinheiro para nos bancar. Temos mensalidade, fazemos vaquinhas, vendemos rifas e produtos da equipe, tudo para, de alguma forma, tentar manter nossos custos com inscrições, arbitragens, água, uniforme etc. Sem contar a dificuldade de encontrar quadras de society com preços acessíveis para conseguirmos treinar e manter um ritmo. Nem todas têm essas condições, e é bem complicado de manter. Mas mesmo com todas essas dificuldades acho muito incrível de se ver o quanto a modalidade tem crescido, e como aumentaram os números de times e de campeonatos desde que comecei a praticar a modalidade. Sem contar a qualidade dos times que, hoje em dia, está muito alta, e a cada campeonato só melhora. Isso que eu só estou no
society há uns 3 anos. Imagine daqui a uns 5
(anos)? A modalidade tem tudo pra se manter crescendo, e torço muito por isso!
O Independente terminou a fase de classificação em primeiro, mas perdeu na estreia para o Awen. Acidente de percurso ou serviu de alerta para os jogos seguintes? O fator psicológico às mulheres influi muito mais durante um jogo? Como funcionou a preparação de vocês para o jogo seguinte contra o Futsamba, o que acabou valendo a classificação?
Bom, todo mundo que acompanha o futebol society feminino sabe do tamanho do Awen e do Independente. Todo mundo sabe que sempre fazemos grandes jogos, e da rivalidade que foi criada, e que é natural do futebol. E em jogos assim todos sabem que o resultado é decidido nos detalhes. Não fizemos um bom jogo na estreia e estamos cientes disso, mas em momento algum podemos tirar os méritos da outra equipe, que também tem muita qualidade e está sempre chegando entre os primeiros nas competições. Elas foram superiores no jogo e levaram a melhor, e isso é futebol. Mas sem dúvidas a derrota serviu para nos acordar para o restante da competição. Na semana seguinte à derrota conversamos bastante, usamos nosso único treino da semana pra ajustar erros que estávamos cometendo, pontuamos fatores e atitudes que sentimos falta no primeiro jogo, e que seriam imprescindíveis não só para o próximo jogo, que era decisivo, como para todos os outros, e graças ao esforço de todas e empenho, conseguimos nosso objetivo. Tanto que, na sequência, fizemos um grande jogo contra o Futsamba e conseguimos garantir a nossa classificação. O fator psicológico conta muito, sim, mas como já mencionei antes, nosso time é muito unido, muito amigo, e nas horas que mais precisamos, isso se fortalece mais ainda e prevalece. Já joguei em muitos times por aí, e em poucos pude ver esse clima. Nós realmente corremos uma pela outra, e isso faz toda a diferença.
O último obstáculo antes de erguer a taça é o Corinthians. É um bicho-papão como a maioria diz? Na quadra grande, como obter sucesso diante de uma equipe forte tecnicamente e taticamente, já que os espaços, teoricamente, são maiores e o público lota as dependências da quadra?
O Corinthians tem uma grande equipe, e não temos como negar. É um time que tem muita menina experiente, que já foi de seleção,
(ou) que já jogou em grandes times de São Paulo e de fora dele tanto no campo, como no salão. Temos total ciência da qualidade da equipe delas, as respeitamos muito, porém também sabemos da qualidade da nossa equipe. É como dizem, o futebol é jogado, e cada jogo é um jogo. Tenho certeza que o Independente, junto com o Corinthians, fará um grande jogo, digno realmente de uma grande final, e que o melhor, o que merecer mais, vai levar. Entraremos bem focadas e com muita vontade de vencer, respeitando as adversárias, respeitando nossas limitações e buscando sempre dar o nosso melhor. O resto será consequência.
Você lidera, ao lado da Camilinha, a corrida entre as MVPs do Chuteira Girls. Prefere enfrentar o Corinthians com força máxima? A decisão passará muito pelos seus pés e os dela? Acha que terão marcação especial?
Tanto Independente quanto Corinthians são equipes que contam com um conjunto muito forte. Eu e a Camila estamos na frente nos pontos, mas qualquer outra menina, tanto do meu time quanto do dela, poderia estar. Então, não acredito que teremos marcação especial. Sobre a bola passar pelos nossos pés, é mais pelo nosso estilo de jogo e posições.
Perguntas para Camilinha (Corinthians F7):
O time perdeu pela primeira vez no último sábado, mas como tinha boa vantagem conquistada na primeira partida das semifinais, avançou à decisão. Essa derrota para o Futsamba serve como alerta ou foi apenas um acidente normal de percurso?
Serviu como alerta para podermos corrigir a tempo erros cometidos, mas acredito que perdemos quando podíamos perder.
O elenco corintiano é formado por muitas jogadoras que eram do Condor's, atual campeão do torneio. Quais diferenças e semelhanças você nota entre os dois times – além do uniforme, claro?
A diferença é que hoje vestimos uma camisa de tradição no futebol, que é a camisa do Corinthians, e junto com ela vem as cobranças e responsabilidades de obtermos resultados positivos, e a semelhança é que a base do nosso time foi mantida, e tivemos a junção com o 112, onde vieram algumas atletas para somar com a equipe.
Dizem que o jogo do Corinthians passa muito pela tua inspiração. O que há de verdade nessa afirmação? Com você animada o time vence, sem ânimo, perde? O esquema montado pelo Preto (técnico da equipe) te favorece?
Por eu jogar como meia armadora, a bola passa muitas vezes pelos meus pés, mas o fato de estar animada ou não, não interfere nas minhas ações e resultados do time dentro de quadra, pois quando ganhamos ou perdemos isso acontece no coletivo. Acredito que o Preto monta o esquema tático para favorecer toda a equipe, e dentro disso adequamos para cada partida.
Apesar de números impressionantes (19 gols marcados, apenas dois sofridos, além de uma única derrota em cinco partidas), apenas uma jogadora figura no topo das premiações individuais, no caso, você é MVP ao lado da Mari Loira, do Independente. Como é dividir protagonismos, Camilinha, já que teu nome sempre aparece ao lado dos nomes como Cah, Gabi e Sissi, por exemplo? E esse fator de não ter ninguém (ainda) no topo, é bom ou ruim?
Fico feliz em ver que meu trabalho esteja sendo reconhecido, e ter meu nome sempre entre as MVPs é muito gratificante, isso mostra que estou no caminho certo e conseguindo ajudar positivamente a minha equipe. Mas não me importo em “dividir" protagonismos, pois isso mostra que nossa equipe tem jogadoras lineares, com um nível equilibrado, e que acabam se destacando a cada jogo por algo individual, favorecendo todo o coletivo, o que não acontece com algumas equipes, onde muitas das vezes uma ou duas desequilibram.
A final contra o Independente será na quadra grande, onde o Corinthians fez 3 x 0 no jogo de ida das semifinais. O problema é que o Independente fez 8 x 1 na mesma quadra. As independentes, hoje, são as principais adversárias de vocês não apenas na decisão do Chuteira Girls, mas no circuito feminino de futebol society? A relação de vocês fora de quadra existe?
O fato dos resultados em quadra grande não nos preocupa em nada, pois cada jogo é um jogo e, neste caso citado, os adversários enfrentados não eram do mesmo nível. O Independente é uma equipe muito boa, tem seus méritos e sempre está chegando às fases finais, mas acredito e potencializo mais as qualidades do nosso time, afinal iremos buscar o bicampeonato e o primeiro título com a camisa do Timão. A relação fora de quadra com algumas atletas existe, sim, e é amigável. Rivalidade somente dentro das quatro linhas. Acredito que é assim que o futebol cresce.
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