A Ilíada chuteirense foi traçada há 6 meses, chegou a vez da Odisseia. Tal qual Herodes, a pena em conjunto de Mercenários e Nois Que Soma volta a rabiscar junta. Há 6 meses, o reencontro mais que esperado na final da 14ª edição da Prata. Neste sábado, uma final inesperada, por assim dizer, e de novo os coirmãos a disputar o centro das atenções.
Dentro tudo que se passou no semestre, fica uma possível glória inédita até agora. Deus, semideus ou mero mortal, a quíntupla coroa chuteirense era algo inimaginável até o último sábado. Sim, pois o Nois Que Soma pode atingir tal feito e cravar uma marca imensa nos 10 anos de história chuteirense. Se o time de Bollito vencer (de novo) neste sábado do Mercenários, será o primeiro e único time a ganhar TODAS as divisões do Chuteira – de Chuteira 5 a Ouro. 5 coroas na cabeça. 5 troféus na estante. Mais: ganhar de cara e sem parar em nenhum degrau. 1º semestre de 2014 foi o Chuteira 5, em seguida a Aço para fechar o ano. Em 2015, Bronze e Prata. Agora em 2016, pode ser a glória final de uma equipe que nasceu fadada ao sucesso.
O Mercenários é o desafiante que, na prática, pode ser também tido como o time a ser batido. Afinal de contas, fez melhor 1ª fase que o rival, com 6 vitórias e 2 derrotas (o NQS teve 5v e 3d), acabando em 2º lugar no Grupo A (ante o 4º lugar do NQS no Grupo B). Enquanto o Mercenários pulou as oitavas, o NQS encarou o Futsamba e passou sem problemas. Nas quartas, o aurinegro encarou o poderoso Arouca. Em bom português, passou o carro no tido como maior obstáculo em seu caminho e chegou às semi. Uma pedra no sapato poderia aparecer na semifinal, o Mulekes, mas este caiu ante o SNG e decepcionou. Contra o 3 vezes campeão SNG, o NQS aproveitou os erros do adversário, fez o resultado sem esforço e em nenhum momento se viu ameaçado.
Para chegar a sua segunda final seguida, o Mercenários mostrou que é o time da reta final e que busca o resultado que for até o fim. No mata-mata foi assim – o time encarnou o Improvável F. C. e despachou TáLigado e Arouca Jrs. Nas quartas, perdia para o TáLigado até os 23 do segundo tempo, quando engatou uma virada fenomenal e marcou 3 gols em 5 minutos! Nas semifinais, 10 entre 10 observadores davam o Arouca Jrs. na final quando o time fez 3 x 0 aos 10 minutos do segundo tempo. Isso mesmo, em 15 minutos o defunto levantou da tumba e deu o maior susto em todo mundo! 1 x 3, 2 x 2 e 3 x 3!!! Empate aos 22 minutos e chance de ouro de avançar com shoot out! Mas Dri Ferreira perdeu! Aí veio prorrogação. Nova falta, novo shoot out e Thiaguinho foi para a bola para enfim colocar o Mercenários na final! O time do Improvável atacou novamente!
Nesta final, a primeira na era pós-CAV, a rivalidade continua falando mais alto, e é certo que entre os caveiras um sentimento de revanche preenche todos os espaços. Um time pé no chão, mais leve e habilidoso, sem estrelas ou destaques individuais. Fabricio talvez fosse um bom nome para apontar se perguntassem – mas muito mais pelo começo avassalador do que pela regularidade. Apesar disso, é o artilheiro do time e do campeonato, com 12 gols. Se me perguntassem a peça chave desse time, alguns poderão torcer o nariz para o que vou dizer – a defesa e seu líder, Maciel, é que faz a diferença (há quem aponte Thiaguinho e seu vozeirão como fundamentais na arrancada rumo à final). Tudo começa ali, mas passa por um setor que se encontrou e dá a estabilidade para as vitórias, mesmo não sendo das menos vazadas.

E o NQS? É possível apontar qual a principal arma? Eis um time munido de um arsenal quase completo. Jogar contra eles é que nem dormir com cobertor curto – você cobre aqui pra se ver descoberto ali. Mas desde já quero destacar alguns nomes que chamam a atenção. Quando jogou (esteve machucado por algumas rodadas), Luis Minici foi o centro da transição do time ao ataque. Tuco é sempre uma opção do banco que entra para ser decisivo. E põe decisivo aí pra ele. Foram 12 gols desde que estreou, na rodada 4, o que o coloca como artilheiro da competição ao lado de Fabricio. Vem aí uma disputa interessante à parte – quem leva o troféu de goleador do semestre?
Outra peça pouco lembrada mas de suma importância é o goleiro Tinho. Ele não foi lembrado uma vez sequer para MVG em 8 rodadas da fase classificatória, mas não teve um jogo sequer que não tenha feito uma defesa importante ou difícil. A bola pouco chega nele – e por isso o “esquecimento” no MVG – mas quando chega ele mostra do que é capaz (vide jogos contra Vingadores e Mulekes, só pra lembrar dois em quadra maior).
Por falta de goleiro o Mercenários também não sofre. Alan acabou a 1ª fase como o MVG do campeonato ao lado de Choco (Camelo) e teve grandes atuações no decorrer da competição, sendo o goleiro que mais vezes esteve na lista dos melhores da rodada (6 aparições em 8 possíveis). E com dois bons goleiros chegamos a um raio X dos números, que colocam Mercenários e Nois Que Soma em pé de igualdade!
As duas defesas sofreram média de 2,8 gols por partida, assim como seus ataques marcaram 4 gols por jogo. É isso mesmo, números que só se diferenciam na segunda dezena após a virgula. O NQS fez um jogo a mais, e num total de 11 jogos sofreu 31 gols e marcou 45. Já o mercenários, em 10 partidas disputadas, anotou 40 gols e sofreu outros 28. Na ponta do lápis, as médias são: NQS – 4,09 gols feitos e 2,81 sofridos; já o mercenários tem 4 gols marcados e 2,8 sofridos. Incrível essa paridade!
Essa final da Ouro traz à tona, claro, a final da Prata passada, quando o NQS venceu por 4 x 0 e ficou com o título. Na ocasião, após primeiro tempo de maior domínio e chances caveiras, o NQS marcou primeiro e abriu caminho para a goleada. O time gosta de tocar a bola e contra-atacar – faz como poucos isso. O Mercenários, por sua vez, tem um time mais maduro e capaz de correr atrás do resultado caso saia perdendo – TáLigado e Arouca Jrs. estão aí para testemunhar o poder de reação rubro negro. A seu favor o Mercenários tem ainda a maior vontade de não perder de novo. O NQS tem a tranquilidade de saber que psicologicamente aquele que já perdeu uma vez sente mais do que aquele que ganhou.
Tudo isso ficará pairando sobre a cabeça dos 14 jogadores em quadra, mas tudo se resolve mesmo com a bola nos pés. No chute forte bem colocado, no passe milimétrico dado ao companheiro, no suor que escorre de cada rosto diante do esforço, na decisão do que fazer quando com a bola nos pés, na precisão dos passes e do chute, no controle das emoções. Todo um semestre estará dentro de quadra, e a gente do lado de fora sentindo e aproveitando tudo que esses seres humanos dignos de uma Odisseia nos proporcionarão. Ulisses demorou 10 anos para retornar a Ítaca e a sua amada Penélope. A Odisseia chuteirense se completa agora.
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