Foram três as decisões do último sábado. Foram três os campeões. E os placares nos tempos regulamentares terminaram com um número três soberano. Os marcadores nas três finais só não ficaram iguais porque Davi, a menos de um minuto, empatou o jogo ao CAV ante o Bacana – caso contrário, tudo teria sido 3 x 2. Mesmo assim, o Chuteira consagra três times que jamais desistiram do caneco, mesmo com objetivos alcançados previamente. E, também, alimentou as esperanças das três equipes que ficaram com a segunda posição geral. Pode parecer demagogia a esta altura do campeonato falar em vitória a um vice-campeão, mas Vanderlei Luxemburgo sempre diz – pegando carona em outros treinadores do passado – que de uma grande tragédia nasce um campeão. Não é uma sugestão aos perdedores: é um fato, que só será aproveitado caso saibam reconhecer os pontos perdidos no caminho.
Aos campeões, muita festa, pois conquistaram seus títulos na base da raça e do talento individual. CAV, Mercenários e Palestrinha da Catarina não apresentaram futebol exuberante nas respectivas decisões. Porém, souberam ser objetivos e, principalmente, souberam ser persistentes. Aliaram técnica com força mental. Foram frios. Os três estiveram em desvantagem, à beira da derrota, mas não desistiram e enfrentaram seus medos de cabeça erguida. Foram coroados com os gols salvadores: Lucas Barbosa ao Palestrinha, na Bronze; Lodetti ao Mercenários, na Prata; e Davi ao CAV, na Ouro (o gol do título veio na morte súbita, como veremos daqui a pouco, mas Davi recolocou sua equipe no páreo, quando o Bacana se aproximava da conquista). Três jogadores predestinados, que sempre demonstraram empatia com seus times.
O primeiro campeão do dia viria da Série Bronze. Coringa x Palestrinha era promessa de um jogo quente, porém, entre amigos. Hiro confessou que se não fosse o casamento que os jogadores do Palestrinha teriam de ir no fim do dia, ambos os times fariam um churrasco em conjunto. Já é possível perceber a união das equipes. Dentro de quadra, houve, sim, uma ruptura – já que os interesses eram em comum, porém, com conjuntos diferentes. O Coringa vinha respaldado por uma campanha sensacional na fase de classificação e por jogos de tirar o fôlego na fase final. Além disso, goleara o adversário na última rodada da 1ª fase. Ou seja, tudo fazia crer no título da equipe inimiga do Batman. Mas a fase de mata mata traz outro estilo de jogo, e o Palestrinha sabia disso.
O time da Vila Catarina fez uma campanha regular durante toda a primeira fase, perdendo a vaga direta na Prata apenas na última rodada para o próprio Coringa. Passou pelas oitavas de final, avançou às semifinais eliminando nos pênaltis o Basicus e, de virada, despachou o Báguas. Ou seja, tinha time para ser campeão – embora tenha sempre sido jogado de lado nas bolsas de apostas. Saiu perdendo por dois tentos na decisão, mas Lukinhas, Peru e Hiro – além de Lucas Barbosa e o arqueiro Régis – ditaram o ritmo de mais uma virada espetacular, selando o título do Palestrinha. A equipe listrada superou os fantasmas da fase de classificação e, apostando em seu rápido e mortal ataque, levantou o caneco. O Coringa foi valente, mas só conseguiu transpor a barreira chamada Regis apenas duas vezes, e no primeiro tempo. Além disso, Farias e Renatinho estiveram apagados. O Palestrinha agradeceu, e seu sorriso se alastrou por todo o PlayBall. O choro, de emoção, também se fez presente aos olhos do capitão Hiro.

Choro agora, riso depois. Este lema também serviu ao Mercenários, na Prata. O único invicto de toda divisão mereceu o título indiscutivelmente. Caso o Zenite fosse o campeão, a taça também ficaria em boas mãos. Porém, é inegável que a equipe de Marquinhos fez um trabalho psicológico ferrenho para poder suportar as pressões externas que sempre atormentaram o grupo. O favoritismo atribuído à equipe sempre os acompanhou (e não só por respaldo da imprensa), mas pela primeira vez o time tinha ciência de que era favorito, mas não imbatível. O elenco assimilou muito bem os fracassos de edições anteriores para, com extrema eficiência, garantir-se na Série Ouro e, também, faturar o caneco. O Zenite chegou à final por méritos – mesmo contando com a sorte nas partidas ante The Veras e Roleta Russa Olímpico (quartas de final e semifinal, respectivamente). Mas sorte faz parte do caldo de qualidades de qualquer campeão. Nao há depreciação nisso. Mesmo assim, não teve a mesma sorte na final e sucumbiu aos pés de Lodetti, no tento decisivo nos minutos finais.
E olha que o time esteve bem próximo de calar seus críticos (mesmo a crítica sendo interpretada de forma errada por alguns jogadores da equipe). Saiu atrás no placar, empatou um jogo complicado e, ainda por cima, virou no segundo tempo – após três toques na bola desde a saída com o goleiro Léo Ballestero. Mas a força mental do Mercenários foi o suficiente para levar a equipe ao ataque e alcançar o empate e nova virada. Pronto, o Mercenários, de uma vez por todas, exorcizava seus fantasmas. Não foi fácil, mas a união entre os jogadores é digna de um estudo. Além disso, outros fatores contribuíram para o sucesso neste semestre: recrutou Lodetti e o artilheiro da Série Ouro no semestre passado, Marcelo Toretta; diminuíram os comentários dos jogadores que soavam como arrogância, já que alguns deles corroboravam o favoritismo apostado por outras equipes; os irmãos Guto e Dezinho jogaram muito; e a chegada de Dani Reina ao comando técnico do time, fazendo com que os brios masculinos se mexessem de forma mais intensa.

Brios, estes, que estiveram à flor da pele na maior decisão de Série Ouro dos últimos tempos – se não a maior e mais empolgante. Bacana e CAV entraram para a história do Chuteira de Ouro ao protagonizarem uma final digna de seus elencos. Mais ainda: digna de seus managers. Não era novidade para ninguém que Marcelão (pelos idos do Bacana) e Caio Fleischmann (pelo CAV) tinham o desejo de ter nas respectivas prateleiras o troféu da principal divisão. Moveram fundos e mundos para colocar suas equipes na grande final. Sofreram, espernearam, amaram – tudo em prol de seus times. A paixão de ambos era admirável, porém, já era sabido que apenas um iria sorrir. Quem abriu a boca para se alegrar foi Caio; quem fechou a boca de tristeza foi Marcelão. Mas poderia ter sido o contrário. O Bacana só não foi o campeão porque repetiu o mesmo problema de outras equipes que estavam na ponta mas foram derrubados: reclamar ostensivamente com a arbitragem a ponto de perder o controle emocional.
O Bacana foi longe demais chegando à decisão. Era um time mais preocupado em não cair quando o certame começou. Porém, o bom entrosamento de seu elenco, aliado à vibração dos jogadores e da equipe, fez o tradicional time chegar tão longe. O azar do Bacana foi encontrar o CAV pela frente. Não que seria mais fácil encarar o Fiorella na final, mas o time de Marcel se planejou para ser campeão – e foi. Trata-se de um time frio, objetivo, rasteiro. O time da vila não possuía a vibração do adversário; mas sabia se posicionar bem e dar o bote nos momentos certos. Foi o que fez durante toda a fase eliminatória. E não foi diferente na final. Apesar de Diego Gallego fazer defesas complexas, o CAV atacou de forma ostensiva e, no gol de ouro de Vitinho Lessa, adiou o sonho de Marcelão de erguer o troféu. ‘Se’ não ganha jogo. Mas e ‘se’ o Bacana não tivesse perdido a cabeça com uma decisão do árbitro, quando vencia por 3 x 2? Será que a equipe estaria com a cabeça fria para se defender e evitar o chute de longe de Davi? Nunca saberemos. Até porque, o time
fair play do Chuteira de Ouro soube se controlar, e por isso mesmo foi campeão.

Três times campeões. Três equipes que entram à história. Talvez por campanhas brilhantes. Talvez por saberem perder. Talvez por saberem reverter situações adversas tendo a cabeça no lugar. Não que os vice-campeões são maus perdedores, nada disso. É que Clube Atlético da Vila, Mercenários e Palestrinha da Catarina souberam que, para ser um campeão, tem de ter controle emocional. E tem de jogar bola, sem se preocupar com árbitros – que erram e acertam, não na mesma proporção – e com torcida. Se hoje você é vice, saiba reconhecer os pontos onde errou e se baseie no realismo. Amanhã, com certeza, será o primeiro do pódio. Caio Fleischmann, Marquinhos e Hiro souberam passar isso aos seus comandados. E é certeza que Marcelão, Lucão e Mauricio saberão passar as essências tiradas da dor para tornar suas equipes campeãs.
Daqui três meses tudo recomeça. Daqui três meses, novos – ou velhos – campeões entrarão na galeria do Chuteira de Ouro. Três novas histórias a ser contadas...
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