Os retornos de Vitinho (Só Resenha) e de Javier (Med Taubaté) trouxeram não só vitórias aos respectivos times: suscitaram a importância de um jogador ser reconhecido junto a alguma equipe
Quando há identificação de um jogador com alguma equipe, fica difícil de o adversário superar em quadra o ímpeto demonstrado pelo rival intrínseco à agremiação. O maior exemplo desse conceito na rodada 3 da Liga Chuteira de Ouro acometeu Vitinho Baldin. Ele é o nome máximo do Só Resenha, porém, estava afastado dos gramados nas duas primeiras rodadas e não conseguiu acompanhar a vitória contra o Roleta Olímpico, tampouco a derrota surpreendente ante o Ras Time. Retornou no sábado no excelente triunfo em cima do poderoso Arouca, em um jogo sensacional e de várias alternativas. Mais que isso: ele foi fundamental para o equilíbrio dentro de quadra do novo Resenha e, de quebra, ainda contribui para acabar com o incômodo tabu de ser freguês arouquense.
Assim foi a jornada de um jogador identificado com seu time. Vitinho é o “sr. Resenha”. Por isso se entregou em quadra: marcou, lutou, defendeu, arriscou (poucas) subidas ao ataque, fez de tudo para evitar mais um revés contra o campeão da edição XIII da Série Ouro. O resultado: foi contemplado com os três pontos e, acima de tudo, ajudou a restabelecer a tranquilidade dentro do ambiente Só Resenha – uma vez que se trata de um conjunto de jogadores renovados diante das lembranças do time jovem, rápido e atrevido que deu trabalho a grandes equipes desde que chegou à divisão, em 2010. Vitinho foi alma e corpo de um time que tinha tudo para minguar, mas que renasceu a partir de uma ajuda do ex-CAV Fofão. Com as esperanças renovadas, o Resenha parte para dar trabalho neste semestre.
Outro caso de identificação com o time acompanha o uruguaio Javier, do Med Taubaté. Ausente, o carequinha bom de bola assistiu de longe a sua equipe perder as duas primeiras partidas e ter, de quebra, seu Med colocado em xeque na divisão mais acirrada do Chuteira. Contra Mulekes e Fúria, a responsabilidade dos ataques recaiu nas costas de João Humberto. Porém, mesmo com o auxílio de Anibal no apoio das jogadas, não deu conta de segurar seus concorrentes e viu o Med sucumbir. Só que a volta de Javier fez com que a mobilidade do ataque e a variação de lances agudos aumentassem em quadra a favor dos ‘doutores’. Quem pagou o pato pela identificação de Javier com a camisa do Med foi o tricampeão SNG – que sofreu a maior derrota de sua longa história dentro do Chuteira de Ouro. Identidade. É algo que a equipe de Abelha perdeu na temporada 2013.
A vexatória derrota por 8 x 3 diante do Med escancarou um problema grave que vem injuriando o SNG. Os jogadores mais identificados com o time, pelo menos boa parte deles, estão no estaleiro. No sábado, Sampa, Abelha e Biro eram as figuras conhecidas, e reconhecidas como fundamentais ao time, pela torcida presente. Porém, o ponto nevrálgico da derrocada do SNG está centrado no quarteto ausente do confronto: a equipe não contou com Allan, Léo e Fabinho – importantes no sistema defensivo e no apoio ao ataque – e com o artilheiro Renê. Sem eles em quadra, o multicampeão torna-se uma agremiação comum, capaz de ser humilhado como se fosse qualquer equipe aventureira de fim de semana. E o Se Não Guenta não é qualquer time. Só que a ausência do quarteto torna-o trivial. E, assim, os 15 anos de existência da equipe se tornarão evasivos.
Quem voltou também na rodada de sábado foram Lucas Manzano e Nó ao My Balls, após um período de ‘reciclagem’ mental. Identificados ao time, ajudaram a manter um tabu na Ouro: o MB não sabe o que é perder para o atual campeão CAV na divisão. Tá certo que o resultado de sábado foi construído à base de defesas milagrosas de Gabriel Viana e com o aproveito de uma equipe mista como entrou em quadra o CAV, poupando inicialmente alguns titulares em prol de outra competição. Só que vitória é vitória em qualquer ocasião, e o My Balls comemorou o retorno dos ausentes identificados ao grupo.
Quem voltou com tudo também, só que na Série Prata, foi Tché. Principal destaque na campanha que levou o Cabeça Rachada ao título da edição IV da Série Bronze, ele ficou de fora da campanha de estreia do time na Prata – segundo semestre de 2012. Porém, voltou nesta temporada e já ajudou o Cabeça a se posicionar próximo aos líderes do Grupo A prateado. É mais um exemplo de identificação de um jogador com sua agremiação. Igual a Maca, que retornou ao Bonde dos Abelhas e vem ajudando o campeão da edição III da Série Bronze a recuperar o lugar perdido na Prata. É o baixinho habilidoso quem dá o toque de consistência ao BDA recuperar seu espaço – perdido quando da ausência do jogador no semestre passado. Sem seu jogador identificado, o time de Thiago ‘Negão’ Santana é só mais um no meio da multidão.
Outras situações de identificação aconteceram no sábado. Ou, pelo menos, tentativa de identificação. Exemplificando: Henrique era Mercenários até a véspera da competição, virou ‘identificado’ com o SNG nas duas primeiras rodadas; hoje, tenta se identificar com o líder do Grupo B da Aço, o Lodetti. Já seu irmão, Pi, depois de diversas passagens por times extintos e remanescentes do Chuteira, identificou-se com o líder do Grupo B prateado, o Coringa. No novo líder do Grupo B da Ouro, quem vem fazendo bonito é Edson Claro; só que sem a identificação de toda a família Silva com o Fiorella, comandando a defesa e o meio de campo da equipe, dificilmente a campanha seria tão positiva nesse primórdio de Ouro. Outros dois jogadores que se identificam com sua equipe e voltam a fazer excelentes partidas são Botana e Giggio, ajudando o Cachorro Velho a subir na tabela. É a identidade dando ‘cara’ aos times.
A pausa de duas semanas será fundamental para todas as 80 agremiações do Chuteira de Ouro. Tempo para refletir, ajustar detalhes, buscar soluções, ter a convicção de que o planejamento elaborado foi o melhor. Tempo para resgatar jogadores que gostam de jogar por suas equipes. A torcida espera uma reação de Thiaguinho pelo Arouca; de Jajá pelo SPQSF; de Manza e Papai do Axé pelo Elite; de Chacha pelo Elefantes Indomáveis; de Lói pelo Acidus, entre outros jogadores que fizeram seus nomes jogando por seus times de coração, mas que a temporada atual está fazendo o favor de deixá-los no ostracismo. É tempo para resgatar a alma, resgatar o prazer por jogar por sua equipe. É tempo de resgatar as identidades dentro do Chuteira de Ouro.
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