“O SNG sabe jogar o Chuteira”. Quantas vezes, em alguma rodinha de cerveja nos corredores do PlayBall, você ouviu tal frase? Eu pelo menos conto em mais dedos (das mãos e dos pés) do que tenho as vezes que escutei tal afirmação. Na verdade, eis uma colocação que extrapola a barreira do Chuteira, que representa no nosso microcosmo uma tendência do futebol mundial nas últimas décadas.
O tricampeão do Chuteira dá pano para discutir o que vejo muito claramente como duas tendências no futebol praticado no Chuteira de Ouro. E é uma distinção que parto da ideia que o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini desenvolveu em texto após a conquista do tricampeonato mundial do Brasil no México em 1970. Para ele, o futebol é uma linguagem como outra qualquer. E em sendo linguagem, ele pode se mostrar de duas formas – prosa ou poesia. Assim, existe, segundo ele, o futebol de prosa e o futebol de poesia. Na esteira do futebol vistoso da Seleção brasileira daquela ocasião, Pasolini definiu o futebol latino-americano, em especial o brasileiro, como o futebol de poesia, em contraposição ao futebol europeu, que seria prosaico.
O futebol de poesia tem como máxima o drible. O gol é poesia pura qualquer que seja o esquema. Enquanto isso, nas palavras de Pasolini, “a retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contra-ataque seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individual (drible e gol; ou passe inspirado)”.
Oras, como Pasolini ressalta que não há distinção de valor entre a prosa e a poesia – e é bom que eu faça o mesmo aqui antes que alguns já me xinguem dizendo que estou criticando ou diminuindo o único futebol tricampeão do Chuteira em atividade – não existe melhor ou pior, mas sim mais eficiente e mais bonito.
O Chuteira de Ouro, hoje, é moldado pelo modelo de jogo que o SNG, por sua trajetória vencedora, tornou paradigma de eficiência e sucesso desde a 3ª edição do Chuteira. Para ficar na nomenclatura dos especialistas do futebol – e não mais na prosa poética de um Pasolini –, é o chamado futebol força, de defesa compacta, marcação cerrada e tiro certeiro. Seu melhor representante atual é o Real Paulista, não à toa o último campeão.
A outra tendência vem da escola do falecido Melville Power e concretizada com o Acidus vice-campeão da 4ª edição. Um futebol ofensivo, de toque de bola, mais jogado pra frente do que para trás, vistoso e prazeroso para quem assiste. Vejo esse futebol atualmente no Bacana e no Só Resenha do semestre passado.
Como já dito, o primeiro deles começou com o SNG, um digno representante do futebol de prosa do qual nos fala Pasolini. Um time de defesa sólida, toque de bola inteligente, disciplina tática de um oriental. Ver o SNG jogar uma partida de mata-mata é como ver um time de samurais concentrados para o confronto. Todos sabem o que tem de ser feito, onde estar, como fazer. É quase uma coreografia pré-definida dos filmes de samurais voadores. Um balé sobre a grama artificial. A disciplina tática e o jogo coletivo imperam. É como se não existisse improviso, não há espaço para o desespero. O time defende e defende, o time marca e contra-ataca. Pronto. Se o SNG fez um gol no seu time você está em maus lençóis. Quantas vezes o leitor veterano do Chuteira não viu o SNG fazer um gol, se fechar e segurar as pontas até o fim? Claro que uma dose de sorte sempre ajuda, e muito.
O segundo futebol preza o drible, dá espaço para o improviso, a jogada de efeito, o toque refinado que encanta o torcedor/espectador do lado de fora. É aquele futebol que pulsa, lateja, nos faz sorrir e vibrar quando o craque pega na bola. O time avança como uma avalanche, ninguém pode conter o menino habilidoso. Meninos moleques que desfilam, correm, jogam bola como se bebessem um copo de Coca, transformam o difícil em fácil, o impossível em realizável. Empolgam, anestesiam, fazem brilhar o olhar resfriado de quem no frio assiste e espera.
O futebol de prosa preza pela eficiência, visa o resultado. Tem em seus homens de trás – geralmente homens de força, másculos – o ponto de referência. A partir dali o time orbita, a partir da defesa o time pensa no ataque, mas só depois de defender. A missão primordial é essa: defender. A segunda: não deixar o adversário jogar. A terceira: aproveitar as poucas chances criadas. Resultado: quase sempre o triunfo.
O futebol alegre busca o gol incessantemente. Tem na dupla de ataque seu ponto de referência. O time joga em função deles, para eles brilharem. A missão primordial é: atacar e fazer gols. A segunda: atacar mais. A terceira: atacar mais e mais e fazer mais e mais gols. Resultado: pode ser de dois sentidos – goleada a seu favor ou derrota amarga.
O futebol força não gosta do futebol alegre. O futebol alegre não gosta do futebol força. Quando eles se encontram geralmente sai faísca. Quando eles se encontram, geralmente a força ganha. Após 11 finais de Chuteira, é possível detectar uma coisa: o futebol mais vistoso e alegre sempre perdeu do futebol eficiente e forte. A prosa é mais falada e lida que a poesia. As finais do Chuteira de Ouro falam por si: na 3ª edição, o SNG bateu o Assurra. Na 4ª, o SNG venceu o Acidus. Na 5ª, o Fiorella derrotou o Melville. Na 6ª, o Kadência venceu o Estudiantes. Na 7ª, o Bengalas derrotou o Bacana. Na 11ª, o Real Paulista saiu-se campeão diante do Med. Todos os campeões tinham uma coisa em comum: o setor defensivo era privilegiado em relação ao ataque. Todos os vice-campeões tinham uma coisa em comum: o setor ofensivo era privilegiado em relação à defesa.
Entretanto, o futebol brasileiro é marcado pela alegria, pelo drible, pelo jogo ofensivo, como já falou há mais de 40 anos Pasolini. Daí os times vice-campeões como Melville, Acidus, Estudiantes e Bacana terem até hoje lugar cativo na memória daqueles que os viram jogar, como eu, tal qual para muitos a Holanda de 1974, o Brasil de 1982, a Romênia de 1994, a Alemanha de 2010... Seleções que saíram derrotadas, mas fizeram história.
Quando essa hegemonia da força será quebrada? Quando a poesia falará mais alto? Sem posicionamentos a favor ou contra, chegou a hora do futebol de poesia levar a melhor. Será desta vez?
PS: Para quem se interessar, o texto de Pasolini, intitulado justamente “Futebol de prosa e futebol de poesia”, pode ser lido
aqui.
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