O sol já não brilhava como outrora. A imensidão azul dava espaço às nuvens, brancas no início, negras no final. Era a crônica da morte anunciada. Cedo ou tarde, a água do céu beijaria o solo paulistano. As lágrimas dos deuses do futebol protagonizariam a 6ª rodada do Chuteira.
A precipitação pluviométrica ainda nem tinha se iniciado quando a bola começou a rolar pela Bronze. O tempo estava feio para o pessoal do Futsampa, que amargava a lanterna do seu grupo e vinha com jogador a menos. Apesar da situação melancólica do adversário, o Só Quem Sabe não teve piedade. Os gols saíam como água. Paulinho Troiano e Zeca Nóbrega comandaram o terceiro triunfo do SQS, dessa vez por 8 a 1.
Ainda antes do despencar das águas, o Bacaninha prevalecia diante do TNT. Os irmãos Leme ditaram o ritmo da equipe. O resultado foi magro, mas os três pontos engordaram a campanha da equipe dourada, que tirou a cabeça de debaixo d`água e agora respira.
Também no início da tarde, o Invictus tentava espantar a má fase. Mas a previsão não era de tempo bom. O TCM mostrou que não tinha medo de se molhar. Começou a partida atrás no marcador, virou ainda na primeira etapa, sofreu o empate, perdeu seu camisa 10, mas não perdeu o jogo. Pelo contrário, o Peñarol paulistano voltou a desempatar, e dessa vez não teve volta. Três pontos para a equipe de Raphael Macedo e Matheus.
Na quadra ao lado, Toque me Voy e Allianza travaram uma bela disputa. Tudo parecia sagrado, mas o Toque teve perseverança e igualou o embate que já parecia decidido. Na mesma quadra, o Irado´s queria interromper a seca. O rival era o embalado XTJ que vinha de ótimo resultado diante d`Os Mostarda, que estrearam no certame derrotando a agremiação dos irmãos Eirado. Jogo tenso, clima pesado e resultado apertado. Apesar do prognóstico de muitos, os três pontos abraçaram o time do professor Weinny. Vitória por 3 a 2 do Irado’s, com atuações monumentais de Jadson Negão e Pi, força e agilidade arranjadas em um mesmo sistema defensivo.
Ao fim da vitória do Irado’s, nuvens negras já prenunciavam o que estava por vir. Além da chuva, muita confusão, como bem adiantou nosso colega Douglas em sua Análise. Até o tranquilo Baru se irritou depois do empate do Roleta diante do Derrubada. Felizmente o problema não passou de uma discussão acalorada.
Pela Prata, o Acidus enfrentava o Zenite. Na Ouro, o Arouca Jrs. encarava o Roleta Russa e o Primatas desafiava o Fúria. Bom, antes de contar o que aconteceu nesses confrontos, peço ao leitor permissão para abandonar, por hora, as analogias e metáforas acerca da chuva. Durante esses confrontos, o céu desabou. Uma verdadeira tempestade se formou, encharcando as quadras. Era tanta água que os árbitros se viram obrigados a paralisar os jogos e se refugiar – junto a todos que estavam no PlayBall – no bar principal. Era muita gente para pouco espaço. O clima ficou abafado. Osuor dos jogadores se misturava com a água que encharcava os uniformes dos envolvidos. Ali houve a confraternização de um mundo que gira em torno da nossa bola.
As quadras pareciam verdadeiros pântanos. Outras lembravam pastos amazonenses. Piscinas quase-olímpicas foram formadas. O esporte bretão ficou impraticável durante o ápice pluviométrico. Eram poças laterais, acúmulos de água também nos centros das quadras, nas áreas. Como nada é eterno, a chuva resolveu nos presentear com sua ausência repentina. Começou a diminuir aos poucos, com sutileza e carinho, como se quisesse convidar as equipes para voltar ao campo de batalha. Até um solzinho no horizonte foi ensaiado, e alguns já se precupitavam às quadras.
Mais do que uma batalha, o confronto entre Zenite e Acidus foi uma verdadeira epopeia. A equipe limão começou atropelando. 5 x 0 e um verdadeiro show do artilheiro Caballero. O pior é que nem dá para dizer que o camisa 10 só não fez chover. Na verdade, a chuva parece ter dado forças ao Zênite. No intervalo entre um piscar e outro, a equipe da zebra empatou o marcador. Isso mesmo, os caras tiraram um diferença de cinco gols. Entretanto, tudo não passava de ilusão. O Acidus tratou de desempatar e depois aumentar a diferença. Mas não fez isso de qualquer jeito, não. Caballero resolveu finalizar a apresentação com o brilho que lhe era conveniente: desenhou uma maravilhosa bicicleta no ar, daquelas que os pneus espirram água para todos os lados. Fim de papo, 7 x 5 para a equipe do capitão Lói.
Apesar da frieza da chuva, Primatas e Fúria travaram um duelo de altíssima temperatura, mais até do que deveria. O fato é que atletas das duas equipes se estranharam, assim como torcedores trocaram gentilezas. Dentro de quadra a situação se tornou incontrolável e o juizão resolveu encerrar o combate sem vencedor. Empate de 1 x 1 e sensação de derrota para os dois envolvidos.
Roleta Russa e Arouca Jrs. também tiveram jogo paralisado mediante ao toró supracitado inúmeras vezes acima. A paralisação não pareceu influenciar negativamente nenhuma equipe. A equipe amarela talvez tivesse o que reclamar, já que o campo inundado dificultava seu jogo. O Roleta, mais estático e físico, tinha muitas condições de se aproveitar das condições da quadra já que seu intuito era perder de pouco. E assim se fez: grandes atuações de Deh, Wellington e Galizé pelo Arouca Jrs., mas quem apareceu mais foi Preto, no gol alvinegro, para êxtase do Baru.
O compositor Marcelo Jeneci diria que quando um não quer, dois não fazem tempestade em copo da água. Inter de Limão e Pé de Pano não devem conhecer o repertório do talentoso músico tupiniquim. Ao menos foi o que se pode concluir do lamentável episódio ocorrido neste confronto.
Por fim, acho conveniente finalizar minha chuvosa crônica com a tempestade de emoção proporcionada pelo jogaço entre Bonde das Abelhas e Condor’s. Sim, muitos já falaram, outros filmaram, mas convém sempre lembrar que são dois times que estão jogando o fino da bola na Bronze, cada um ao seu estilo. Os amarelos se destacam pelo ímpeto ofensivo, marcado pela velocidade nas trocas de passes e pelos talentosos meias da equipe. Já o Condor’s enche os olhos pela serenidade que seus experientes atletas mostram dentro de campo. Extremamente organizados, dificilmente se desesperam ou se entregam.
Tais características ficaram evidenciadas no confronto que valia a ponta. A verticalidade ofensiva das abelhas impressiona. Quer dizer, impressiona a mim, porque o Condor’s não parecia impressionado, pelo contrário, o time do Neno mostrou solidez defensiva e repertório ofensivo para encarar a sensação do Grupo B da Bronze. O confronto terminou com um emocionante 3 x 3 e uma confusão no fim. Provocação tem limites, respeito não deveria tê-los. Alguns ainda não aprenderam o básico da vida em sociedade...
Tempestade e confusões despencaram no último sabado sobre o Chuteira. Se a intenção dos deuses era paralisar o sagrado futebol da rapaziada, eles riram quando viram jogadores do NGM e Basicus indo embora mais cedo. Porém, seus poderes podem ser fortes, mas o do futebol foi maior. Ninguém mais arredou pé, a vontade e alegria de jogar futebol mais uma vez falou mais alto.
Jogando bola, você vai rir sem perceber, felicidade é só questão de ser. Quando a chuva cair, é só deixar molhar para receber o sol quando ele voltar. Futebol é a celebração da felicidade, por isso não há espaço para ignorância. Mas fiquem tranquilos, não vou ficar aqui enchendo vossos olhos de poesia barata. Afinal, enaltecer as virtudes do futebol para o público do Chuteira é chover no molhado.
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