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CRÔNICA # 6 – PRA FRENTE, BACANA!

Muitos dizem que a essência do verdadeiro futebol ofensivo se perdeu entre tantos pontapés e esbarrões utilizados como recurso de brucutus mal abençoados pela natureza, quando não em táticas explícitas de técnicos que prezam quase que exclusivamente o setor defensivo. Muitos relembram as grandes esquadras do passado com uma alegria saudosista e uma saudade quase melancólica de um tempo em que o futebol bonito, de toque de bola para frente, em busca da apoteose do nosso esporte preferido – o gol – parece perdido pra sempre. Hoje nada parece se comparar ao Brasil do tricampeonato, de toque refinado, a busca pelo gol. O hino da época, “Pra frente, Brasil!”, parecia de fato indicar que aquela seleção jogava ofensivamente, à procura do gol, o tal do futebol arte.

Contudo, ainda existem equipes que prezam pela ofensividade e pelo futebol bem jogado, como o Barcelona liderado pelo menino Messi, campeão de tudo, batido por pouquíssimos. No universo do Chuteira de Ouro também podemos encontrar algumas dessas equipes – guardadas as devidas proporções, logicamente. A que mais tem se destacado neste ano é o Bacana. Quem já enfrentou a esquadra dourada comandada por Marcelão ou ao menos mesmo teve a oportunidade de vê-los jogar deve saber do que eu estou falando. São toques rápidos – porém precisos e bem pensados –, dribles eficientes, finalizações certeiras e um entrosamento pouco visto em times de futebol amador. Tudo isso em sintonia com o objetivo maior do futebol: o encontro da bola com a rede, com toda a beleza e glamour que este casamento sagrado merece.

Para os grandes times, não basta apenas vencer, tem que vencer BEM. Assim, o Bacana procura sempre dominar a posse de bola, ocupando bem os espaços da quadra, impondo-se sobre o rival, sem deixá-lo respirar. Quando a tática dá certo, cria-se um volume de jogo monstruoso, como uma grande onda que leva tudo e todos que vê pela frente. Não à toa as reportagens de jogo do Bacana são as mais extensas – tem muito mais coisa para relatar.

É preciso também ter a humildade para saber buscar caminhos alternativos quando o futebol refinado e trabalhado não funciona. Assim, apela-se para as finalizações de média e longa distância, as quais partem, em sua maioria, do pé esquerdo de Demehur, que não tem vergonha de arriscar o chute de onde quer que ele esteja na quadra. Se ele não resulta em gol, Yanes está sempre à espreita na área, tal qual uma cobra traiçoeira, pronta para dar o bote em bolas rebatidas pelos arqueiros rivais.

Entretanto, a principal arma do vice-campeão do VII Chuteira de Ouro é mesmo o entrosamento de uma equipe que sabe se organizar e partir para cima com consciência, unindo calma e velocidade sem exageros. As triangulações são feitas a partir da organização de Demehur pelo meio, as variações de Rômulo, que cai pelos dois lados para buscar o jogo, o apoio de Gustavo Izique – que vem de trás para completar a formação ofensiva – e a referência na área adversária na pessoa de Yanes. Assim, envolve-se o adversário em um jogo que, se dá certo, enche os olhos do espectador na mesma medida em que balança as redes rivais. Não à toa o Bacana tem o melhor ataque (28 gols marcados em 5 jogos, ou seja, mais de 5 gols por jogo) e o melhor saldo de gols (10 positivos).

Na 4ª rodada, o Estudiantes recebeu a prova viva daquilo que eu escrevo nestas linhas: levou pra casa um 9 x 4 adverso. Como a equipe tricolor se fechava eficientemente, o jeito foi improvisar, e isso é uma carascterística dos grandes times, com grandes craques. Diante da adversidade, o improviso, o inesperado. O segundo tento da equipe naquela partida foi marcado após lançamento do goleiro para Rômulo dominar dentro da área. Ele viu a passagem de Yanes livre e só deixou para o companheiro estudar as redes. Assim, além do conjunto forte, a qualidade individual dos seus jogadores também faz a diferença. Complementando: na mesma partida, Rômulo assinou uma pintura ao dominar na entrada da área, deixar um marcador na saudade e mandar na caixa.

É claro que nem tudo é perfeito no time do Bacana. O ímpeto ofensivo resulta num certo “desleixo” com a defesa, que não ostenta números tão positivos quanto os do ataque. Além disso, a equipe sucumbiu na fase semifinal no torneio passado, dando aquela tradicional pipocada, típica de equipes da qual se espera muito, ainda mais depois do sucesso da primeira fase – quando foi a equipe de melhor rendimento. Porém, o resultado não é tudo no futebol. Foi por muitos passarem a achar que só a vitória interessa, não importando os meios usados para isso, que se esqueceu do futebol alegre e ofensivo e lotaram-se os meios de campo com volantes marcadores ou esquemas estritamente defensivos. O medo vem falando mais alto do que a ousadia. Esqueceu-se da magia do futebol, que garante o brilho apaixonado nos olhos de seus admiradores, os quais saem satisfeitos a despeito do resultado final.

Neste ano, deixando de lado os resultados passageiros da matemática futebolística, esse brilho tem tido uma cor dourada bem vibrante. Dá prazer em ver o Bacana jogar.
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