Ter em mente que quase mil pessoas acordam no sábado pensando no Chuteira é algo fora do imaginável, porém, creio eu que seja a mais pura realidade. Para essas mil pessoas o sábado é um dia sagrado, contudo, não é para a igreja que elas vão. O templo do culto semanal delas se chama Playball Pompeia..
Engraçado fazer esta alusão, pois fazer parte do Chuteira é quase a mesma coisa que participar de uma religião. Assim como os judeus, os “chuteireiros” possuem um dia sabático. É um dia onde não se pode marcar nada entre 12h30 e 18h30... Os jogadores não vão ao parque com a família, não viajam para a praia e não sabem o que é televisão. Pense bem, qual foi a última vez que você assistiu “Caldeirão do Hulk” acomodado no sofá da sua sala?
Os “chuteireiros” pagam um pesado dízimo para participar do culto ao futebol. Ele se chama “taxa do estacionamento”. Todo sábado, morrem 12 reais na cestinha de doações do templo. Outro gasto é com a bebida sagrada dos fiéis. Se algumas religiões possuem chás alucinógenos, ou o tradicional vinho, o Chuteira possui uma bebida que causa efeitos semelhantes: a cerveja. Tem também o Gatorade, que é praticamente a água benta dos menos radicais. Olha, assim como os ortodoxos gregos, nós temos o costume de quebrar itens em celebrações... Se eles quebram pratos, nós quebramos as garrafas de cerveja, geralmente sem querer.
Se alguns pagam o dízimo, existem muitos romeiros que todo sábado se locomovem por longas distâncias só para chegar na hora certa da missa. Uma grande parte deles faz uma gigantesca e interminável caminhada entre a Barra Funda e o PlayBall. Muitas vezes, com a camisa da sua caravana – o sagrado manto do seu time. Na viagem de volta, muitas vezes aquele muro quase infinito à margem da linha do trem se torna o “muro das lamentações”.

Rigoroso, Bispo Douglas anota todas as infrações para aplicar severas penitências. Dizem que certa vez excomungou um time campeão da Ouro...
No altar do Chuteira, quem reza a missa são os árbitros. E tome hóstia amarela, azul ou vermelha para os pecadores de dentro de quadra, que saem do gramado verde para pagar penitências no chão cinzento do lado de fora. Para lá e para cá, caminha a vossa santidade Lucas P., o papa do Chuteira, sempre resolvendo as crises existenciais que afligem os devotos. O velho cardeal Lói permanece lá, sentado, apertando as mãos dos fiéis. Mas, atenção, tome cuidado com o Bispo Douglas, ele é o mais rígido deste clero. Fechando a procissão, vem o missionário Weinny, levando a palavra do Chuteira para as regiões mais afastadas (também conhecida como quadras 12 e 13).

Lói sai apoiado após passar por sessão de descarrego. Desde tal ocasião não perdeu mais para o Roleta
Grande parte dos fiéis recebe dons divinos ao entrar em quadra. Ritolê, Dick Vigarista e Ronei são alguns deles. Driblam, chutam, marcam gols e agradecem. Têm ainda os santos, aqueles que realizam verdadeiros milagres. Muitos já foram canonizados no Chuteira: São Valentim, São Muralha, São Diego, São Marcel, São Casari, São Alan, São Cipó... é quase um para cada dia do ano.

São Cipó é o protetor dos goleiros que costumam levar gol de cobertura. Seus devotos fazem simpatias com frangos e perus para conseguir a graça divina
A única coisa que foge do sábado na cultura religiosa destes fiéis é a leitura da Bíblia do campeonato. Diferente do livro sagrado, a nossa bíblia é virtual e não tem fim. Toda semana entra um novo capítulo com vários versículos. A maioria lê apenas o versículo do seu time, mas existem devotos fervorosos que leem o Chuteira News de todas as divisões.
Ahhhhh, amigo, mas em quase todas as religiões houve dissidências. E na do Chuteira não foi diferente... Existem os “anti-chuteireiros”, aqueles que nasceram para atormentar o bom andamento do campeonato. Diferente dos calmos fiéis, estes vêm todo sábado para arranjar briga, xingar os outros e destruir os pilares que mantêm o Chuteira no céu. Ainda que consigam fazer muito barulho, não conseguiram e nem vão conseguir acabar com a paz interior do Chuteira. Nem que para isto seja preciso colocar o tribunal da Inquisição para aplicar penas severas a eles. E dá-lhe lista de suspensos...

Para sair do caminho do mal – o dos “anti-chuteireiros” – João se converteu e encontrou o caminho da paz: há quatro jogos ele não é suspenso
Pois bem, sábado é um dia em que se abre um buraco atemporal, onde nem os maiores estudiosos do mundo científico conseguiram explicar o que move a fé dos que deixam tudo de lado para correr atrás de uma bola ao lado de outras 13 pessoas, num gramado que nem ao menos é de verdade. É claro que para elas o Chuteira tem um significado muito nítido, que pode ser definido num sentimento compartilhado por quase todos: acreditar que em dezembro ele pode ser abençoado e junto com seus companheiros levantar a taça de campeão.

Pelos anos de devoção, Renê é praticamente um professor de catequese. Sua especialidade são as aulas de degustação de cerveja
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