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Se você não viu o Mulekes jogar, está na hora de parar e apreciar o espetáculo; é de graça

Vou chover no molhado. Tem quem não goste de ouvir. Tem quem não se cansa de ouvir. Eu não me canso de falar. O Mulekes é a fina flor do futebol chuteirense. Podem trazer quem quiser – profissional, amador, veterano, dente de leite, nacional, estrangeiro – atualmente nada supera o futebol vistoso da mulekada do Seu Caetano.
 
Aliás, preciso fazer um aposto aqui, o Seu Caetano tem o trabalho mais moleza do mundo! Quando vejo o Mulekes jogando logo me vem à cabeça uma frase que o Milton Neves cunhou no início dos anos 1990 para o São Paulo: “Torcer para o São Paulo é uma grande moleza”. Naquela época o tricolor ganhava tudo e de todos. Daí ser moleza. Com o Seu Caetano é parecido: coloca um cone ali no lugar dele na beira do campo para você ver se o time do Mulekes não jogará igualzinho! Ser técnico do Mulekes é uma grande moleza!
 
Voltemos. E por que começo a escrever sobre a mulekada? Quem viu os resultados da 2ª rodada pode já desconfiar. “Lá vem ele puxar o saco do Mulekes”, dirão uns. “O Mulekes perdeu o título pro Inflação na Copa Apertura, não é imbatível”, dirão outros, já preconizando elogios que podem considerar não tão de direito. Oras, oras, e daí? Vamos falar do que vale a pena falar, do que é bom. E sim, o Mulekes perdeu (nos pênaltis, aliás) do Inflação, mas perdeu jogando melhor e dentro de seu estilo. (outro aposto: no fim de semana seguinte à derrota, o Mulekes fez 3 x 0 no mesmo Inflação)
 
Perder não é parte do jogo? Teria graça um jogo em que só se pudesse ganhar? Aliás, pergunto a você que me lê, você entraria num jogo em que sempre sairia vitorioso? O Mulekes não ganhou tudo que disputou, ninguém nunca ganhou. Pode ser que nem ganhe neste sábado do Futsamba. Provavelmente nem será campeão neste semestre. E daí? Isso diminui o valor do que fazem em campo?
 

Vamos ao que interessa, pois já estou enrolando demais. Essa crônica nasceu de uma admiração. Eu sempre torci para que o melhor futebol vencesse, apesar dele geralmente não chegar lá. E o melhor futebol, para mim, é o mais vistoso, jogado com toque de bola, habilidade, velocidade, vontade, elegância, sem estrelismos. Eu vi isso tudo no último sábado. Eu venho vendo isso há dois anos. Não de forma regular, admito, mas de forma coesa. O bom futebol do Mulekes não é feito de lampejo, mas sim é uma constante.
 
A goleada de 6 x 0 para cima do Lodetti tem algo a dizer que meros números não podem oferecer. Sim, claro, admito, ver um placar nesse em society não é brincadeira (na verdade, parece mais estarrecedor ver um 15 x 0, como  o que o Nois Que Soma fez para cima do Xoras na Bronze, mas não é). Não é preciso um tratado esportivo e sociológico que explique a hecatombe (para o Lodetti) que se viu na quadra 4 sábado 14 de março. Gente, para entrar no clima de exagero que faz parte do futebol, vou dizer que o 14 de março de 2015 equivale ao 8 de julho de 2014. O Brasil tomou a piaba da Alemanha por 7 x 1 e todo mundo parou, petrificado, diante do massacre. Na verdade, ali estava um time disposto a jogar futebol; do outro lado (infelizmente o nosso), havia um time, que não era de futebol.
 
No último sábado, eu vi a ALEMANHA jogar sob o codinome de Mulekes (se você já viu o uniforme do Mulekes, entende essa minha afirmação). Eu vi o Lodetti se perder como o Brasil naquela ocasião. Eu vi uma aula de toque de bola, de dribles, de habilidade, de velocidade, de posicionamento, de precisão, de frieza e de maturidade. O que você entende por bom futebol estava ali.
 
É gratificante parar para ver esse time jogar. E não é que tenha um jogador que desequilibra ou que decide os jogos. Ali, TODOS decidem os jogos. Parece haver até um rodízio para ser o “cara” da vez. O Mulekes é um time socialista, digamos. Ali, a relação sociedade/indivíduo está exposta na ideia do grupo e do jogador. O grupo sempre fala mais alto que o indivíduo, é ele que deve prevalecer. Todos pensam pelo grupo e não individualmente. Ninguém quer aparecer mais que o outro porque sabem que quando um aparece todos aparecem. Com isso, há condições de igualdade para cada um brilhar – varia apenas o jogo – e todos brilham. Ali todos sabem que uma constelação brilhante é melhor que uma estrela brilhante.
 
Queria falar de cada um e do que admiro em seu futebol, mas aí ficaria maçante esse texto. Queria falar da elegância do Alemão, da eficiência silenciosa de Pedrinho, do vigor do Pipo, da classe do Gian, da maestria do Vitinho, da velocidade e controle de bola do recém-chegado Andreas, da timidez eficiente do Caíque, da habilidade desconcertante do Matheus, da cornetagem acima do peso do Rogerinho (desculpem-me os demais, é que ainda não consegui ver todos em ação com clareza).
 
Enfim, fica difícil escrever sobre o que é ver esse time inspirado jogar. Se você não viu o Mulekes jogar, não perca tempo e vá conferir. Se o time jogasse num Palestra, Morumbi ou Itaquerão, eu pagaria ingresso para ver esses meninos tratarem a bola como ela merece. Seria um investimento muito melhor que pagar para ver qualquer clube grande da cidade. No Chuteira, podemos ver o Mulekes dando aula, show, espetáculo, às vezes em stand up – ganhando ou perdendo, pouco importa – de graça. Quem joga o Chuteira não pode deixar de ver. É arte gratuita ao alcance de todos (ok, nem sempre, só na maior parte dos sábados). É futebol em seu estado mais puro, coisa raríssima de se ver hoje em dia. Não morra sem ver esses meninos jogar. Vale o ingresso.
 
PS: Conforme a maldição do site do Chuteira, sempre que elogiamos um time aqui o mesmo perde na rodada seguinte. Assim, o Futsamba tem grandes chances nessa 3ª rodada. Porém, perdendo ou ganhando, o Mulekes vai dar seu show. 
Comentários (2)
mar 22, 2015

Pode ser que nem ganhe neste sábado do Futsamba

mar 25, 2015

Ótimo texto, e realmente é um futebol mto bonito de se ver, ganhando ou não!