Quando moleque só queria ver gol. Era demais! Como ainda não tinha um time de coração – tinha, sim, simpatia por alguns, mas não paixão – bastava a bola balançar a rede que pra mim estava bom.
Na verdade, no início achava futebol entediante; demorava muito pra sair gol! Era tão mais prático assistir aos melhores momentos: nada de roeção de unha, xingamentos e frustrações. Mas também não havia emoção. E no dia seguinte, na escola, na roda de bate-papo, não opinava porque meus comentários limitavam-se ao placar: ganhou, ótimo; perdeu, péssimo. Eu ouvia meus amigos falando sobre jogadas que jurava não ter visto nos melhores momentos e não entendia como elas passavam despercebidas pelo cara que seleciona os lances importantes. Depois me dei conta de que em parte era porque meus colegas exageravam, mas também porque há coisas que só quem assiste ao jogo todo percebe. Entendi, então, que futebol não é só resultado.
Não quero com isso, camarada, de maneira alguma, desmerecer o placar. Por favor, não interprete dessa forma. Ao fim e a cabo, o que mais importa são mesmo os gols. Porém, há outros fatores determinantes que não recebem o devido respeito: a bola roubada no meio, o ataque desarmado, o contra-ataque bloqueado, a arte de irritar o adversário (que me desculpem os moralistas) e o imprevisto.

Porra, o imprevisto é do c*! É a única razão – péra lá: única não, mas uma das – pela qual dedico algumas horas da semana a este esporte. Futebol não é nos bastidores, é no campo. Ele não pode ser pré-decidido, antecipado. Tudo bem: organização é importante, e treinar, fundamental. Mas se o jogo for muito planejado ficará previsível; portanto, chato. Tudo, absolutamente tudo, deve acontecer em uma hora e meia (no nosso caso de todo sábado, em 50 minutos), além de alguns acréscimos que, na maioria das vezes, torço em vão para que sejam longos. Talvez pela melancolia que me abate ao apito final – aquela estranha sensação de ter de cair na realidade. E, parem de chatice, se o futebol é o ópio do povo, eu vou me dopar!
Enfim, o imprevisto. É mágico porque não acontece a toda hora. Quase sempre são os acertos e erros que definem o desfecho: o chute preciso, a defesa na ponta dos dedos, o furo, a isolada, as expulsões, o carrinho na hora certa, o frango e o juiz, sempre ele. Aliás, o juiz deveria ser elevado ao status de jogador, afinal ele é tão decisivo. Mas, eis que surge, vez ou outra, o inesperado. É f*.
Com toda certeza o imprevisível pode ser contra o meu time. Assumo o risco. Tirá-lo de uma decisão porque, por exemplo, o bandeira não marcou impedimento claro na jogada em que o atacante rival recebeu livre cara a cara com o goleiro e chutou forte na esquerda. A bola furou a rede pelo lado de fora e a torcida rival soltou o grito. O juiz valida e não adianta chorar. Meu time é desclassificado por conta de um erro da arbitragem. Parece injusto?
É futebol. E que os órgãos entendidos do assunto o deixem ser como ele é: imperfeito.
Comentários (5)
- José Carlos Lanzarotti Junior
mar 09, 2015Belo texto!! Parabéns ao autor!
- Gabs
mar 09, 2015Em um grupo tão equilibrado como o grupo A da série ouro, o incerto deve aparecer com maior frequência!
- Louiz
mar 09, 2015Texto muito show, principalmente pelo como futebol começa pra todos. Parabens!
- Victor Henrique De Sicco Vianna
mar 10, 2015Show de mais a matéria
- Wagner
mar 10, 2015eh memo ?