O futebol moderno tem propiciado algumas mudanças na maneira de se jogar bola. O homem gol, o matador, o artilheiro, o homem de área, o camisa 9, está se tornando uma “segunda opção” em grandes times de futebol na atualidade. Vale ressaltar o esquema tático do Barcelona com dois volantes, um meia articulador, um meia ofensivo e dois atacantes pelas pontas. Onde estaria o centroavante no time que conquistou praticamente tudo que disputou nos últimos anos?
A “moda” Barcelona pegou em todos os cantos do mundo, inclusive no Chuteira. Alguns times se recusam a utilizar um homem de área – a referência da equipe – apelidado por muitos de pivô: jogador relativamente fixo, cuja função é fazer girar ou coordenar certas jogadas de sua equipe. O pivô clássico é uma posição obrigatória no futsal, já que o espaço não é grande, e a centralização das jogadas é inevitável. A natureza dessa posição é jogar de costas para o gol, recebendo a bola e abrindo espaços para seus companheiros penetrarem na área adversária; no society há uma mescla do pivô clássico e do centroavante do futebol de campo.
Além de saber jogar de costas para o gol, o camisa 9 deve ser ágil e saber simplificar as jogadas, sem se enrolar com a bola. O argumento de muitos times para a não utilização do pivô é de que afeta a velocidade da equipe. Porém, essa posição não deve, necessariamente, ser preenchida por um jogador lento, mas sim por alguém que tenha boa impulsão e explosão muscular, principalmente quando a estratégia se baseia em lançamentos de longa distância.
No Chuteira, Fê Rampazo, do Zenite, é um exemplo de atacante moderno que não joga de costas para o gol, mas se desloca pelas laterais e abusa da velocidade, assim como o espanhol David Villa. Às vezes dá certo, outras não. Apesar da boa vitória sobre o SNG, o Zenite deu alguns deslizes nas últimas rodadas, e muito se deve à falta de alguém que abrisse espaços para Negão e o próprio Rampazo chegarem à frente com liberdade, principalmente em jogos mais truncados.
É nítida a importância de uma referência no ataque quando se vê os jogos de Mercenários e Só Resenha, por exemplo. Noal e Joelson decidem o jogo em um ou dois lances. Ambos podem estar em um dia ruim, mas, mesmo assim, conseguem fazer a diferença naquele minuto providencial. A grande campanha do Arouquinha até agora muito se deve à presença de Ballãotelli no ataque. As últimas atuações do artilheiro mostraram que, para um centroavante se tornar fenomenal, ele deve antever o passe e saber o momento de ser imprevisível e inventivo. Os times que utilizam esse estilo de jogador como uma estratégia ofensiva conseguem ter atuações mais regulares, mesmo que o time não seja um dos melhores. Em vários jogos, Ballãotelli mostrou que é a mescla do pivô clássico e do centroavante. O camisa 11 do Arouquinha sabe jogar de costas para a marcação e acaba fazendo jogadas extraordinárias com Nelsinho, envolvendo o adversário com tabelas e toques rápidos.
A partida entre Só Resenha e Primatas deixou bem clara a diferença que um homem gol pode fazer em um jogo amarrado. Joelson, julgado por muitos como um jogador lento – que só tem força física – arrancou do outro lado da quadra, deu um drible da vaca na marcação e fez um dos gols mais bonitos que já vi no Chuteira – lembrando o fim do jejum do atacante Gil contra o São Paulo, quando ainda jogava pelo Corinthians. Sem contar o lance em que o atacante do Só Resenha recebeu de costas para a marcação e simplesmente rolou para Rafael Ucella colocar a bola onde quis. Em apenas um tempo, Joelson se tornou o maior responsável pela virada do Só Resenha tocando apenas duas vezes na bola.
Alguns times conseguem ser extraordinários sem usar um homem de área, assim como o Barcelona. O Fiorella tem se destacado pela sua dedicação coletiva, já que João Paulo e Mauricio Leal não apareceram para jogar neste semestre, assim como Mulekes e CAV, que não ditam como regra ter um camisa 9 dentro da área, mas abusam do toque de bola e das jogadas bem trabalhadas. A chegada de Bruno Cruz ao CAV parecia ser uma investida diferente da equipe caveira, que não utiliza o novato como centroavante, apesar de ele ter características de um atacante de área. André Plec tem muita força física e qualidade para ser a referência no ataque, mas acaba não utilizando a estratégia do pivô com muita regularidade, jogando de frente para a zaga na maior parte do tempo e aberto nas pontas. O deslocamento pelos lados da quadra se tornou o ponto forte da equipe, que conta com o genial Davi no meio, que consegue deixar qualquer um na cara do gol.
Todavia, vale ressaltar a importância de Ritolê para o Roleta, de Javier para o Med e de Thiaguinho para o Arouca – apesar de nenhum deles ser pivô clássico, eles acabam fazendo jogadas muito parecidas com as do futsal, mas, ao mesmo tempo, têm mais características de centroavante do que de pivô. A velocidade de João Humberto é fatal quando aliada às inteligência e experiência de Javier. Ambos sabem finalizar com muita eficiência, lembrando as atuações de Romário e Bebeto em 1994, assim como Catatau e Ritolê no Roletinha. Ritolê, aliás, foi o garçom da rodada passada. Coincidência?
Entretanto, muitos times acabam ficando reféns de seus respectivos artilheiros, o que torna a ausência dos mesmos um grande “Deus nos acuda”, devido a sua importância na coordenação das jogadas de ataque. Limitados a eles, o time emperra quando não estão em campo. Alguém se lembrou do Joga 13 sem Lele, o maior camisa 9 do Chuteira de todos os tempos?
Os grandes ídolos dos últimos anos, no futebol brasileiro, vestiam a camisa 9. A magia do artilheiro, da grande referência da equipe, ainda não foi ofuscada pelo futebol moderno. O espetáculo lúdico e teatral que é o futebol tem como cereja do bolo o centroavante. Na maioria das vezes, o cara que decide o jogo ou o título de um campeonato. Varia de cada clube a utilização ou não desse tal matador. Entretanto, o “Barcelona way of play” não pode se tornar um mandamento do futebol. Afinal, somente o centroavante sabe tornar simples o que é complexo, até mesmo no futebol society.
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