Se tem algum novato que, logo de cara, percebeu o espírito do que é o Chuteira, este alguém carrega a alcunha de Jorjão. O camisa 9, capitão, manager e artilheiro do Báguas, time recém-promovido à Série Prata do Chuteira, encarnou, no sábado dia 10, na rodada final de classificação, o sentimento que move boa parte dos jogadores mais identificados com seus times e o torneio que jogamos todo sábado.
Uma fisgada na coxa faltando 5 minutos para acabar, um time sem reservas, pressão do TNT. Sem conseguir apoiar o pé no chão, Jorjão, após ser atendido pelo fisioterapeuta e ter detectado um estiramento que o deixou incapaz de pisar com o pé direito, virou para este que vos escreve, que o ajudava a sair de campo carregado, e disse: “Dá, sim, Lucão, eu vou voltar. Vou ficar aqui de pé parado puxando um marcador. Vou continuar”.
A resposta, tanto minha quanto do “doutor”, foi a mesma: “Esquece de continuar em campo porque só vai piorar. Faltam menos de 5 minutos e seu time tem condições de ficar sem você”. Levei o Jorjão lá pra fora, puxei uma cadeira pra ele se sentar, mas logo ele estava de pé, gritando com seu time, apoiado na grade, vivendo a decisão em seus momentos finais e deixando de lado sua perna...
O árbitro apitou fim de jogo, o sofrido empate em 3 x 3 – com 2 gols de Jorjão – garantiu ao Báguas a liderança e, consequentemente, a vaga direta na Prata. Diante do silêncio do pessoal do Condor’s – que torcia pelo TNT para ficar com a vaga – e certa apatia dos jogadores do Báguas – que não esboçaram uma reação digna de seu feito – era a voz de Jorjão que eu ouvia embargada, gritando, tal qual um Quixote mesmerizado pelo sucesso. Essa mesma voz, claudicante, pertencia a um corpo que invadia a quadra como um Saci Pererê, repleto de alegria e alívio. Entre palavras de “É Prata”, “Tamo na Prata”, aquele rapaz de uniforme laranja, encharcado de suor e borrachinhas coladas pelo rosto, pulava numa perna só para dentro de quadra comemorando quase que solitariamente o acesso tão sonhado. Era a obsessão de Jorjão tornando-se realidade.
Jorjão, a voz que naquela hora era de alegria da vitória, não deixou em nenhum momento a voz de tristeza por sua contusão falar mais alto. O mais importante ali era o Báguas, o time, o coletivo, nunca o individual. Mesmo assim, ganhou o time, ganhou o indivíduo, ganhou Jorjão, que, naquele momento, para mim e tenho certeza que para muitos, era a imagem do herói abatido que, à véspera da morte, vê seu último ato de heroísmo salvar o planeta. E é disso que se tratam os heróis – sacrifício, colocar o bem geral acima do próprio.
Nada mais triste que um rebaixamento. O palmeirense que o diga em semana de luto verde ao ver seu time cair (de novo) de divisão. Porém, no Chuteira, o período de quedas encerrou-se antes. No dia 10, viu-se, além de subidas de série, algumas descidas. E em situações como essas é que tiramos grandes exemplos de grandeza para a vida. Eu, em meio ao turbilhão que foi a rodada final, presenciei algumas mais proximamente e outras peguei resquícios.
Na primeira, o Toque Me Voy foi incapaz de bater o Irado’s e deixar a lanterna. Caiu após 11 rodadas de infelicidade, incompetência, azar, mau planejamento, suspensões, o que quer que queiram apontar. Mas caiu de pé, caiu sentindo na carne a dor de quem ama aquilo e vê se esvair o ente amado. Ao fim do jogo, eu vi Zé Mário aos prantos saindo de campo; Fabinho estático em quadra mirando o nada do horizonte; Danilão e sua panca de macho chorar como criança. Choravam porque eram fracos? Choravam porque eram “minas”? Não, choravam porque são humanos e como poucos valorizam sua equipe, valorizam o campeonato, valorizam sua posição e tudo que criaram em alguns anos de compadrio e amizade. Enquanto uns fazem de tudo para sair desse ambiente, desvalorizando o que têm, outros choram ao se ver na situação de descer de divisão, ao se sentir incapaz de lidar com adversários melhores preparados, adversários piores preparados, com o imponderável, com o destino.
Destino similar ao Toque teve a turma devota ao Coronel Mostarda. Tal qual o Palmeiras, a cada rodada era uma decepção – o resultado não vinha, a bola não entrava, gol adversário nos minutos finais... Na parte de baixo da tabela, restava a rodada final para salvar o ano e tentar escapar do rebaixamento. Por uma sequência um tanto quanto inesperada, o Os Mostarda entrou em campo praticamente rebaixado. Era preciso vencer por 6 gols de diferença um time que sequer tinha perdido em 10 partidas. Desânimo? A resposta veio com vontade, determinação, hombridade, respeito. Sim, é respeito entrar em campo e querer vencer de qualquer maneira mesmo sabendo que é uma luta perdida. É respeito ao adversário e às demais equipes de grupo jogar para valer. O Os Mostarda fez isso, para infelicidade do DPGamos, respeitou tanto o líder que foi lá e, franco atirador, venceu e entregou a Série Prata ao Coringa.
O que moveu jogadores como Cadú, Tatá, Bruninho, Egg, Rodrigo, Biel e outros a encarar esse jogo como uma final? Qual sentimento fervilhava dentro de cada jogador mostarda a ponto de dividir bolas perigosas, brigar por cada lance, buscar desenfreadamente a vitória mesmo tomando a virada na metade final do segundo tempo? Enquanto uns prostrar-se-iam diante do esperado – a derrota – os grandes do Mostarda fizeram o contrário. Feridos em seu orgulho, lutaram até prostrar o adversário, abatido no psicológico e no futebol. E com isso deixaram a Série Bronze agigantados, carregando cada jogador consigo o orgulho de fazer parte de um time, de uma equipe cheia de brio, ciente do papel cumprido e uma etapa que se finda.
Se há satisfação na vitória, é também na queda que se reconhece verdadeiros heróis. Jorjão, Toque Me Voy e Os Mostarda mostraram isso, na bola, e provam que o esporte é mesmo o espaço mais contraditório que existe. Tanto na vitória quanto na derrota, é possível encontrar a redenção e a consagração. Igualmente ao É Verdadeee, que por uma infelicidade acabou cedendo ao desanimado e burocrático Rabeloska nos 5 minutos finais. O time do burrinho, que sonhou alto com a Ouro por 3 anos, teve seu destino decretado de retorno à Prata em 5 míseros minutos. O choro de Gavião, que me paralisou ao vê-lo ir embora a ponto de não saber o que lhe falar, pois palavras muitas vezes são incapazes de confortar a alma, foi a imagem final de um sábado clássico de vitórias e derrotas derradeiras.
Não sei se Jorjão vai voltar a jogar ainda neste ano. Não sei o que será de Toque Me Voy e Os Mostarda para uma 4ª divisão. Não sei o quanto a queda vai abater o espírito guerreiro do É Verdadeee. Só há uma certeza: cada um deles saiu de campo no último sábado modificado, tocado, abençoado. A eles esta crônica é dedicada.
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