Sábado ensolarado, nada mais apropriado para poesia, mesmo que ela seja feita de um impecável diálogo entre o pé e a bola. Bom, acho que exagerei um pouco na estética dessa conversa, mas o fato é que o Chuteira voltou, assim como a emoção que lhe é peculiar. Na verdade, os traços característicos do campeonato são a pluralidade de emoções e elas estarem plenamente relacionadas às diversas identidades do certame. Usando uma linguagem mais clara: são muitos os personagens, as trajetórias e os pontos de vista, e a cada rodada eles explodem de diversas formas. É um sincretismo de impressões que nunca será consenso – ainda bem! – e que é o reflexo imperfeito do que realmente acontece nesse mundo paralelo chamado Chuteira.
A fragmentação começa pelas divisões – Ouro, Prata e Bronze. Depois disso surgem os elementos primordiais para a existência dessa grande festa: todos os presentes, todos os campos, todas as bolas, tudo, todos. Não importa se você é jogador, técnico, organizador, repórter, árbitro ou torcedor. São muitas as particularidades, partindo-se do pressuposto de que as individualidades são complexas, singulares e repletas de imperfeições. Acho que é melhor deixar pra lá essa filosofia de botequim e partir para o que interessa, alguns fragmentos dessas particularidades que vi no sábado de abertura.
Uma particularidade do Chuteira é a capacidade de lapidar personagens e polêmicas. Um leitor mais atento vai me dizer que essa é uma característica do futebol em si, e eu terei que concordar, mas o fato é que heróis e vilões surgem a todo momento, muitas vezes sobre a face do mesmo indivíduo. Acho interessante observar o quanto as pessoas vão do céu ao inferno em um jogo de futebol. Mais engraçado ainda é ver o resultado dessa mistura de tanta gente diferente em um mesmo lugar. Tem cada personagem...
Sem dúvida, a mais contraditória, pois cômica e trágica ao mesmo tempo, é o árbitro. Por mais que entendamos e saibamos que é difícil apitar um jogo de futebol e que nunca ele vai agradar a todos, é difícil de acreditar em algumas coisas que vemos de vez em quando. Não é segredo para ninguém que o Chuteira tem uma equipe de reportagem, cujos membros estão autorizados a entrar em campo de jogo para filmar, fotografar e entrevistar jogadores. Por exemplo, já vimos a dupla Weinny-Folha invadir o campo correndo para pegar a palavrinha de uns e outros em intervalo de jogo... Mas não é que teve juizão que quis roubar a cena ao expulsar repórter e câmera que debutavam na função?
Foi um espetáculo à parte. O árbitro resolveu promover um incrível show de autoridade. Ao perceber a entrada dos rapazes do TV Chuteira, tratou de expulsá-los ao melhor estilo árbitro midiático, aquele que sabe estar filmado – gesticulando muito e enfático em seus gritos. Os atletas de Bufalos e Med Taubaté não entenderam nada e, na verdade, mal prestaram atenção ao homem que berrava com ares ditatoriais. “Pra fora daqui, podem sair! Quem manda aqui sou eu! Vão sair e ponto final”. Sobrou até para a Organização, que tentou intervir e levou um belo de um coice. “Você manda aí fora, mas quem manda aqui dentro sou eu”.

“Pra fora daqui! Você manda aí fora, mas quem manda aqui dentro sou eu”: árbitro midiático no Chuteira vai ganhar um funk especial em breve
Do céu ao inferno, um exemplo que acompanhei de perto vem da Prata. O grandalhão Caballero já tinha história no Chuteira como artilheiro do Voando Baixo antes de topar jogar a Bronze pelo Irado´s na temporada passada. Cheio de moral, o atacante chegou para vestir a camisa 10 e comandar o tricolor em uma campanha triunfal rumo à Prata. Tudo começou legal, os gols estavam saindo e a equipe conquistava as vitórias. Até que a maré virou e a equipe dos irmãos Eirado começou a acumular derrotas a ponto de nem se classificar para a segunda fase. Os gols rarearam, Caballero era questionado... Cadê o velho e bom artilheiro?
Ao fim da temporada, veio uma proposta do Acidus e o rompimento do camisa 10 com a equipe que defendeu na Bronze. Os limões acabavam de cair para a Prata e o atacante surgiu como boa opção para a equipe. Claro que a saída do centroavante gerou insatisfação da cúpula iradiana, para muitos até com pitadas de rancor, o que gerou até faíscas num amistoso entre as equipes. A pré-temporada começou e o desempenho do Acidus não era dos melhores. Eis que neste último sábado a história começou a mudar para o novo atacante do Acidus. Diante do renovado Bucets, Caballero marcou 6 vezes, lavou a alma e voltou a assumir a faceta de artilheiro. O mundo dá mesmo voltas.
A Série Bronze também pode exemplificar um fenômeno bastante interessante e comum no Chuteira – o surgimento de equipes temidas desde o início da temporada. No primeiro semestre, Rabeloska e CAV surgiam como grandes favoritos ao acesso. Teve muita chiadeira no site e discussão, mas não deu outra – ambos carimbaram o passaporte para a Prata, como primeiro levando o título. Neste novo semestre quem carrega essa bandeira na Bronze é o time do Mercenários, que não conta com Stallone e sua turma, mas apresenta um time de porte físico muscular invejável. Podem ser fortes e grandalhões, mas trazem um toque de bola veloz e objetivo, trocas de passes envolventes e sempre pra frente, além de bons talentos individuais. Isso tudo sem esquecer de um sistema defensivo muito sólido e inseguro. A equipe rubro-negra surge como a grande força neste início de temporada, mas ainda tem muita coisa para acontecer.
Bom, acho que já escrevi demais e, como já imaginava, não consegui falar de todas as virtudes e características desse campeonato que promete mais um show de competitividade. A complexidade do Chuteira é muita areia para o caminhãozinho dessa crônica, é muita luz para pouco túnel. Mas é só o começo de uma jornada que promete muito. Espero que o sol continue favorecendo o mais belo dos diálogos, apesar que a previsão para este sábado é de chuva, muita chuva.
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