Um dos primeiros choques de realidade que os estudantes de jornalismo sofrem nos semestres iniciais na faculdade diz respeito à rotina dos jornalistas formados. Tirando aqueles que preferem a tranquilidade das assessorias de imprensa, é quase um consenso entre os profissionais da mídia que esta profissão é deveras exigente e desgastante, demandando muito esforço e contraposto por um salário por vezes salgado.
Todavia, aqueles que não desistem no meio do curso ou mesmo rechaçam a ideia de trocar de profissão depois de formados, geralmente percebem que o jornalismo traz suas compensações para seus desbravadores. A principal delas é poder viver momentos importantes, especiais, marcantes, que não poderiam ser presenciados em outras ocasiões. Imagine a emoção de um jornalista esportivo ao cobrir uma final de Copa do Mundo.
Esta confissão toda faz sentido quando é transportada ao pequeno mundo chamado Chuteira de Ouro. Nele, os jogadores, protagonistas da história, têm o privilégio (por mais que muitos pareçam não pensar assim) de ter seus feitos reportados por jornalistas iniciantes, tornando-se personagens distintos e variados, dignos dos melhores contos que a realidade pode oferecer. Aos jornalistas, por outro lado, não é permitida a alegria de participar de uma equipe, de marcar um gol, de chorar uma derrota ou de levantar um caneco. Mas a classe jornalística também pode apreciar momentos especiais. Sim, momentos em que acompanham o melhor do futebol, reduzido à escala amadora: embates eletrizantes, jogadas surpreendentes, favoritismos destroçados, jogadas brilhantes, gols em forma de pintura. Não que todos apreciem esta oportunidade, mas aqueles que o fazem podem experimentar um pouco da satisfação inerente à sofrida profissão jornalística.
Ocasiões como estas são aguardadas com ansiedade e expectativa, pois o verdadeiro futebol é fascinante mesmo em uma quadra de futebol society, onde anônimos disputam sua pelada de fim de semana. E é essa essência que os repórteres mais apaixonados esperam relatar em suas reportagens após uma tarde gelada de observações, anotações e análises. Ocasiões como estas devem ocorrer neste sábado. Nele, a elite do Chuteira desfilará na quadra 5 em quatro duelos acachapantes. Mas dois deles merecem destaque, sem desmerecimento aos outros. É que é difícil, para alguém que acompanha a Série Ouro, não se empolgar ao ver na tabela das quartas de final um CAV x SNG e um Rabeloska x Só Resenha. Quem conhece estas equipes sabe do que eu estou falando.
São quatro equipes com histórias, bagagens e personalidades diferentes. O único ponto em comum é a obsessão pelo título, por motivos também distintos. O SNG do suspenso Renê quer ampliar sua hegemonia no Chuteira e, se levantar o caneco, será o primeiro a conquistar o tetracampeonato da Ouro. É time experiente, cascudo, calejado. Seus jogadores sabem se posicionar em quadra, sabem transcender suas individualidades e pensar como um único corpo. O seu adversário, o Clube Atlético da Vila, é quase o oposto. Equipe criada no começo do ano passado, já nasceu grande. A ascensão meteórica só veio confirmar expectativas pré-estabelecidas. Foi vencendo a Prata que chegou à divisão principal e agora conta com um elenco recheados de boas peças para tentar vencer a tão esperada partida.
O Só Resenha vem no ritmo dos irmãos Dhani e Darian. Craques de bola, rápidos, habilidosos e inteligentes em quadra. A esquadra como um todo joga feito música. Feito um samba acelerado: cheio de ginga, mas veloz como um raio. É o maior representante do futebol ousado na atual edição do campeonato. Já o Rabeloska, seu oponente, é co-irmão e maior rival do CAV – nasceu em berço de Bronze como o tricolor, e com ele protagonizou decisões até a chegada à elite. A estrutura é do time do curso de economia do Mackenzie, o que faz dele uma potência em entrosamento e capacidade física. Não é à toa que poucos adversários conseguem aguentar o ritmo forte até o final do embate.
É claro que se o futebol adora surpreender seus admiradores para o bem, também o faz para o mal. Quantas partidas presumivelmente emocionantes e intensas não se mostraram, na prática, apenas um jogo de especulações, de medos e disputas para ver qual das partes erra menos? Alguém se lembra da final da Copa de 1994? Será que neste sábado, antes da competitividade e do futebol ofensivo, entrarão em quadra o nervosismo e a tensão? Pelo bem do Chuteira de Ouro como um todo, de admiradores, torcedores, organizadores e transeuntes perdidos, rezemos para que isso não aconteça. E pelo bem de um jovem repórter que espera encontrar, na rodada dos sonhos, mais um motivo para acreditar ter escolhido a profissão certa. E também um motivo a mais para, em breve, sentir saudade das tardes geladas e cansativas de todos os sábados.
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