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CRÔNICA # 17 – TRISTE FIM DE UMA VIDA

No mundo metafórico do futebol, se existe vida ou morte, a segunda é representada pelo rebaixamento. Não há momento mais triste na vida de um time do que o descenso. Você jogar uma temporada inteira em uma divisão e depois ser rebaixado à categoria inferior é a materialização da humilhação. Todos os esforços dos atletas e as glórias da equipe são desvalorizados, a alegria dá espaço ao baixo astral. Pior ainda quando se trata de uma equipe grande.

A ameaça do rebaixamento é como a reação após a notícia de que você está perto da morte. Existem duas possibilidades. Ou você aceita o fim e espera o trágico desfecho ou luta com todas as suas forças pela sobrevivência.

A tradicional franquia do Roleta Russa nos deu a noção do quão dúbia pode ser a resposta de uma equipe que pode cair. O chamado Roleta principal escolheu a melancolia, se entregou de corpo e alma para as trevas. Não houve luta, não houve suor. Nada mais triste do que negar sua tradição e aceitar o fim com tanta passividade. Um WO na rodada final do campeonato soou como um pedido de desligamento dos aparelhos. A eutanásia do futebol. O Roletão cansou de agonizar e foi descansar em paz. Triste fim de um dos times mais tradicionais da história do torneio, que vinha aos trancos e barrancos, desfigurado em certo sentido, mas ainda vivo. Não mais agora.

A situação do Roleta Russa Olímpico é oposta. Os meninos chegaram à última rodada da Ouro como pacientes terminais. Chegaram a sair do coma ao derrotar o Real Paulista, mas a sobrevivência não cabia mais somente a eles. O exército do capitão Pina foi valente e encarou a morte de frente. Como os 300 guerreiros de Esparta, o Olímpico morreu lutando e, mais, quase ficou em pé. A turma do Folha fez sua parte com dignidade. Ninguém faz 5 x 2 num campeão sem méritos. Porém, a volta por cima não dependia só deles. Fúria e MachuPichu também duelavam para continuar na Ouro. Quem perdesse caía, o empate salvava ambas. Terminada a partida diante do Real Paulista, a turma do Catatau foi voando para a quadra 5 torcer para qualquer vitória. O Fúria vencia o jogo por 2 a 1. Mas a pressão do MachuPichu era grande e, em uma confusão na área, a bola acabou nas redes. Era o empate. Restavam 5 minutos ainda. Foram 5 minutos de toques laterais nos campos defensivos, primeiro o MachuPichu, depois o Fúria.

Impotentes diante da situação, o pessoal do Roletinha começou a se indignar como uma mãe que perde um filho em um assassinato. Queriam justiça, queriam os responsáveis pelo que consideravam um absurdo. Ceron era o mais exaltado, agarrado às grades ofendia um dos defensores do “Tchupixu” que respondia com sorrisos irônicos e beijinhos provocativos. Quem poderia condenar o desespero de Ceron em vendo o oxigênio acabando e sua vida se esvaindo? Findo o ar, a bela história do Roletinha não foi apagada. A glória de alcançar o acesso à Ouro ao eliminar o favorito My Balls não foi desfeita de uma hora para outra. Um duro golpe pode acabar com uma batalha, mas o verdadeiro guerreiro jamais se entrega. Para gente assim a guerra nunca acaba. Ela retoma em breve, na Prata.

Ao mesmo tempo o contrário do que se parece, julgar o comportamento de Fúria e MachuPichu é muito mais complexo do que deveria ser. Não é fácil deixar de ser egoísta quando o contrário significa sua própria derrota. Quem ali iria se arriscaria a tomar um gol ao tentar fazer um gol que de nada lhe valeria? A valorização dos conceitos éticos deveria ser uma tônica no futebol, mas todos sabem o quanto a competição flexibiliza esses conceitos.

No mesmo Grupo A, o Estudiantes já tinha deixado de lutar há muito tempo. O time que mostrou ótimo futebol no semestre passado nem de longe repetiu a dose nessa temporada. Sua morte já estava decretada desde que os problemas emocionais e a apatia em campo se tornaram a tônica. A morte já estava decretada, só faltava achar o corpo e oficializar. O serviço funerário foi executado pelo esquadrão do Mulekes, que não cuidou tão bem assim do defunto. Deixou a cadáver cair no chão e passou o carro, sem nenhuma piedade.15 a 1 e velório estragado.

O Grupo B da Ouro também vivia a ansiedade da decisão de quem abraçaria a Série Prata. Assim como o Fúria, o The Veras está acostumado a jogar por sua cabeça na última rodada, mas, apesar da frequência desse tipo de duelo, o pescoço ainda sustentava o crânio da valente equipe. Pena que o desafiante daquela tarde era o Bacana. A equipe comandada por Marcelão não queria ter o gostinho que o Med Taubaté sentiu, já que foi vice-campeão em uma temporada e rebaixado no semestre seguinte.

Apesar do desequilíbrio tático e do mau momento técnico, o Bacana finalmente encontrou seu futebol antes da tragédia do rebaixamento. Dessa vez o The Veras não conseguiu mostrar seu coração gigantesco e não houve traquejo que impedisse a goleada do Bacana. 6 x 1 e The Veras de túmulo prateado. Mas o espírito guerreiro já sugere uma ressurreição, que seria consagrada com o retorno ao antro dourado do Chuteira.

Na Prata, além do Roleta Russa, que desistiu de lutar, Xoras, Cachorro Velho e Bacaninha vão pegar um bronze na próxima temporada. As três equipes mereciam melhor sorte, principalmente pela trajetória nas últimas temporadas. Trata-se de uma trinca de times esforçados e bem humorados, mas que não conseguiram bom desempenho dentro de campo. Eu já disse aqui nesse mesmo espaço que rir é o melhor remédio, mas existem situações que nem mesmo uma gargalhada pode salvar.

Enfim, terminou o momento funeral no Chuteira. Agora começa a alegria, a busca por Pasárgada. Acessos cobiçados durante muito tempo podem ser enfim consolidados. Títulos que nunca vieram podem enfim chegar. Mas cuidado você aí que está sonhando acordado. A lógica parece ter sido regra nesse Chuteira, e os campeões dos grupos já surgem como grandes favoritos aos títulos. Independente de tudo isso, chega de dor por aqueles que foram. É hora de viver plenamente o Chuteira, porque a vida é curta.
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