Ohhh, favoritismo, saia desse corpo que não lhe pertence! “Favorito? Eu? Nem f...” Pois é, esse é o espírito de todos que ouvem falar essa palavra amaldiçoada. “Nós? Favoritos? Claro que não, tem outros times aí tão bem ou melhores e em condições levar o título”. Quantas vezes você ouviu essa resposta? No futebol profissional? Muitas. No Chuteira? É tão certo quanto 2 mais 2 são 4. Não tem como, ninguém quer a pecha de favorito, ninguém quer ter essa responsabilidade. Além disso, ninguém tem a coragem de admitir favoritismo. Mas por que, pessoal?
A gente pode tentar entender a razão de um time evitar ser considerado favorito, mesmo no fundo sabendo que é. Por que negar com tanto veemência? A resposta mais óbvia é simples: pesa ser favorito. Lógico, se você é favorito, é porque te consideram o melhor. E se você é o melhor, tem a obrigação de vencer. E se você tem a obrigação de vencer, a responsabilidade aumenta. E sigamos nesse mesmo pensamento: com mais responsabilidade, você pensa duas vezes antes de fazer algo. Pensando duas vezes, você hesita mais em agir. Hesitando, você retarda sua ação. Retardando, você perde tempo e permite que o adversário possa chegar antes numa bola, possa antecipar uma jogada. E ele fazendo isso você acaba por ficar nervoso, perder oportunidades e até mesmo um jogo, quando não uma eliminação. Ufa!
Dentro desse nosso exercício de imaginação da busca pelos motivos de ninguém querer ser o favorito, eu lembro que ninguém, em entrevista para o Chuteira, assumiu que considerava sua equipe favorita. Sim, não teve um até agora que chegou e disse com todas as letras: “Somos favoritos”.
Ter favoritos, apontar favoritos, até mesmo se considerar favorito deveria ser algo normal e visto como normal. Sempre que se aponta favoritos no site aparece algum retrucando e questionando. Oras, por quê? Eu estou cometendo um pecado ao afirmar aqui que o CAV é favorito na Ouro? Alguém diria o oposto disso? Nem o Caio Fleischmann nega isso, pelo contrário, outro dia ele me afirmou que o CAV é favorito ao título (quero ver dizer isso para as câmeras, publicamente – ahahah). E qual é o problema do CAV ser favorito? Nenhum! Qual o problema do CAV se achar favorito? Nenhum também! E qual o problema se o CAV não for campeão? Claro que vão adorar gritar um “Chupa, Lucas!” depois dessa crônica (um “Chupa, Caio” também deve rolar), mas eu respondo que não tem problema algum em ter favoritos, se achar favorito e mesmo o favorito perder! Nem sempre o favorito ganha – e isso é normal! Isso é futebol. Ao contrário disso, não teríamos visto Real Paulista, Bonde dos Abelhas e MachuPichu campeões no ano passado, por exemplo. Ou tinha algum louco apostando neles?
Ao mesmo tempo eu questiono meu próprio raciocínio. Vejam só: 1 – ninguém quer ser apontado como favorito. Porém, quando fizemos matérias apontando A ou B como favorito, os outros times se mordem e discutem quanto ao que falamos! Ou seja, você não quer ser apontado como favorito, mas, ao mesmo tempo, aparentemente, não quer que apontemos outro time como favorito! Como explicar esse espírito esportivo? Simplesmente por ser futebol e pela vitória ser decidida dentro das quatro linhas e nos 50 minutos? Oras, oras, quanto tempo você já perdeu da sua vida pensando e discutindo os favoritos no Chuteira? Você não diria que o Barcelona é favorito quando enfrenta qualquer equipe do planeta? Por que no Chuteira não poderia ser semelhante? Ou não temos equipes melhores e piores, mais preparadas e menos?
Na verdade, estou fazendo algumas elucubrações mas eu mesmo não consigo pensar numa resposta plausível. Por exemplo, por que o Mercenários do Bollito lutou tanto contra ser apontado como favorito no semestre passado na Bronze? Por que o Caio Fleischmann, que agora acha que o CAV vai ser campeão da Ouro com um pé nas costas, repete um discurso mandraque de humildade no site e pelos corredores do PlayBall que o CAV vai tentar, que a Ouro é difícil, que os outros times vêm fortes, que vai ser complicado? Por que jogadores do Arouca se doem quando apontam que eles não vão chegar, mas sim outros? Por que, meu Deus? Por que tanto receio de dizer o que realmente pensa e acha?
Como jogador, meus times no Chuteira nunca foram apontados como favoritos. Como jornalista, cansei de indicar equipes como tais. Confesso que na maioria das vezes errei. Mas se eu disse acima que favorito não significa “já ganhou”, não tem problema algum em fazermos esse exercício de apontar os melhores. Afinal, não deve ser vergonhoso você ser considerado o melhor. Pelo contrário, devia ser motivo de orgulho que sua equipe, dentro ao menos outras 19, seja tida como a melhor. Tenham orgulho disso e estufem o peito para dizer “Somos favoritos” porque isso só engrandece o espírito. E não é exercício de arrogância ou presunção, mas sim exemplo de confiança em si. Quem é bom não precisa negar o rótulo, quem é bom assume, vai lá e mostra que realmente é capaz e levanta o caneco. E não se envergonhem de se por acaso não confirmarem os prognósticos e seu time perder. No máximo, vão ouvir um “chupa” aqui, outro ali, mas podem ficar tranquilos, pois no próximo campeonato o rótulo vai para outro time, justamente àquele que venceu o então favorito. Aí você pode respirar aliviado e ver os outros escapando pela tangente quando o apontarem como favorito...
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