O futebol é a arte dos clichês, sejam eles ditos por atletas, treinadores, torcedores ou analistas. O fato é que o esporte bretão gosta de confirmar na prática todos esses bordões. Algumas dessas frases se tornaram verdadeiros mantras no âmbito futebolístico, seja porque quem as proferiu o fez em um momento marcante ou porque ela soa como a mais pura verdade quando se analisa algumas partidas.
O craque Didi foi autor de um desses “best sellers” do futebol. Em 1958, na Copa do Mundo da Suécia, o craque filosofou: “Jogo é jogo, treino é treino”. A obviedade dessas palavras é cínica, mas é impressionante como tem boleiro nesse mundão ignorando essa máxima. O SNG, por exemplo, fez a lição de casa com muita facilidade, não correu riscos, pelo contrário, classificou-se com tranquilidade. A equipe de Renê terminou a primeira fase na segunda colocação de seu grupo e com a melhor defesa do campeonato. Entretanto, meu caro leitor, vamos firmar um acordo. Quando o assunto é a Série Ouro, primeira fase é a mesma coisa que treino, principalmente para as grandes equipes. Nos primeiros jogos a equipe se prepara física e tecnicamente para a hora do vamos ver. Um acertozinho aqui, outro acolá e já era.
Justiça seja feita, o SNG parecia ter cumprido muito bem essa primeira etapa. Digamos que tenha sido um bom desempenho no treino. O grande problema é quando entramos na célebre frase de Didi. Agora é hora do mata-mata. Chega de treino, chegou a vez do jogo.
Didi, o craque da folha seca, já avisou em 1958: “Jogo é jogo, treino é treino”
Como todo jogo, o SNG dessa vez teria de encarar algum adversário, alguém que o testasse. Dessa vez, esse alguém veio. Do outro lado da quadra surgiu o Jeremias. Não, não se trata do famoso bêbado imortalizado por vídeos no You Tube
(apesar do nome ser inspirado nele), mas bem que alguém poderia confundir, caso tivesse acompanhado a primeira fase. Ao contrário do tricampeão do Chuteira, o Jeremias fez um treino meia boca. Cambaleou, cambaleou, mas não caiu. Acabou a fase de grupos como o classificado com mais derrotas e se encaixou entre os seis melhores na sexta posição, mas com o melhor ataque.
A grande diferença é que o “azarão” já tinha ido para o jogo uma rodada antes e contra um adversário de peso. Seria uma parada indigesta nas oitavas. Nada mais nada menos que o atual campeão, o Real Paulista. O Jeremias não ligou para essa história de lógica e atropelou o time do Panela. Ali começava um novo campeonato para os classificados.
Duas semanas depois, o Jeremias teria que enfrentar a bela esquadra do SNG. Ah, o temido SNG. Porém, Didi já tinha avisado 53 anos atrás que o treino é uma coisa e que o jogo é outra. Embora fosse a vez do “pega para capar”, a equipe de Renê não teve problemas para abrir 3 x 1, sempre com a obediência tática que lhe é peculiar, assim como a categoria de seus atletas.
Mas esqueceram de avisar o goleirão Sampa que se tratava de um jogo oficial e que uma entrada como a que ele deu no atacante do Jeremias seria penalizada. O árbitro penalizou o atleta, a besteira penalizou o SNG. Aliás, antes disso, o arqueiro já havia protagonizado uma lambança rara até em rachões. Depois de um lateral, o camisa 14 do Jeremias, Pedro, desviou meio sem jeito e sem força, mas foi suficiente para o goleirão se enrolar com os pés e aceitar um belo de um peru.
Bem, voltemos para o momento posterior ao amarelo tomado por Sampa. Sucedeu que o Jeremias achou mais dois gols e virou o jogo. Sim, o bêbado cambaleante da primeira fase eliminou os dois últimos campeões do torneio, e de forma categórica. Claro que existem algumas ressalvas, como o pênalti claro não marcado em favor do SNG no finalzinho da partida.
Enfim, mais uma dessas histórias que confirmam as sábias palavras de Didi. O jogo de futebol sempre foi decidido pelos atletas que estão dentre as quatro linhas. Nome não ganha jogo, nunca ganhou. Por incrível que pareça, a impressão é a de que faltou maturidade para o experiente time do SNG. Mesmo um grande time como esse não pode se dar o luxo de relaxar com uma boa vantagem, muito menos ser displicente em algumas ocasiões. Mas é essa a questão: ser campeão três vezes e ainda ter passeado na primeira fase desse atual torneio não foi suficiente para entender a lógica do futebol. Acho que dessa vez a lição foi bem dada. Didi sobrevive entre nós.
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