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CRÔNICA # 10 – XADREZ, PIANO E FUTEBOL

O que piano e xadrez têm a ver com futebol? Muita gente acredita que nada, a não ser que um enxadrista e um pianista tenham o time no Chuteira. Essas coisas tidas como eruditas não fazem relação alguma com o perfil do nosso futebol, correto? Errado!

Os campeões do Chuteira sabem (ou deveriam saber) que a Ouro é um verdadeiro jogo de xadrez. Ganha quem tiver paciência para defender melhor o rei e executar uma jogada precisa para encerrar a disputa. Jogar achando que a Ouro é pra frente costuma ser o erro que derruba os times que chegam da Prata.

Pois saibam que a peça do rei é nada mais do que as três traves que juntamente com a rede formam o gol. Matar o rei é fundamental para vencer, assim como fazer gols é fundamental para ganhar o jogo. Nas duas modalidades, quem tiver a melhor e mais complexa estratégia acaba se sagrando vencedor.

O goleiro se parece muito com a rainha, deve defender da melhor maneira possível a coroa deste reino de peças. Já os zagueiros possuem dois tipos. O zagueiro “torre”, que além de defender com sua força e altura, vai para frente e volta numa grande velocidade. E tem também o zagueiro “cavalo”, que só anda em “L” – de lateral, ou melhor, bola pra lateral. Se você avançar demais os peões, terá um buraco aberto para o adversário passar. Isto é algo que não pode acontecer. O cuidado com o bispo também é algo que deve prender a atenção do jogador, principalmente se este for o Douglas (leia a crônica O Chuteira é nossa religião para entender).

Vejam vocês que, assim como um duelo xadrezista, o segredo do Chuteira sempre foi e sempre será uma grande defesa. Times campeões podem ter um ótimo ataque, mas é na defesa em que as coisas começam e terminam. Um erro do ataque é comum: perder gols é visto como normal por todo mundo que assiste e joga bola. Mas um erro da defesa é algo rotineiramente fatal.

Assim como um bom enxadrista, o futuro campeão da Ouro terá que saber jogar muito bem nos espaços do tabuleiro, ainda mais porque os espaços das casas agora são muito maiores, parecido com o xadrez de bruxo do filme Harry Potter e a Pedra Filosofal. A quadra 5 possui peculiaridades que as outras não têm. Por exemplo, nas quadras 4 e 6, o estilo do futsal é predominante – tanto na armação de jogadas quanto na marcação. Já na quadra que possui a arquibancada lateral (que por si só já modifica o costumeiro cenário), o estilo deve ser mesclado com o de futebol de campo: saída de bola mais segura, lançamentos cirúrgicos da zaga, contra-ataque no estilo europeu e por muitas vezes necessidade de marcação individual.

Tem a vantagem neste novo e ao mesmo tempo velho terreno as equipes que já jogaram muitas vezes por lá. É o caso de SNG, Mulekes, Arouca e Bacana – times que estão há muito tempo na Ouro. Quem entra pela primeira vez na quadra grande pode demorar demais para aprender a pegar o jeito da coisa. Essa falta de experiência pode ser fulminante para Jeremias, Arouca Jrs., SPQSF e Bufalos – todos eles times oriundos da Prata, que subiram recentemente. Todos os duelos das quartas-de-final são marcados por esse confronto “experiência x inexperiência”.

Tem time que entra achando que é um jogo de damas, e por isso, perde. Tem time que não traz todas as peças, e por isso também perde. Tem time que vence na hipótese mais improvável, como a do rei cair por causa do esbarrão do próprio enxadrista. Muita coisa pode acontecer nesse “xadrez de ouro”...

Já na Prata, o campeão terá que saber tocar piano. As 88 teclas que possuem tons musicais diferentes deverão ser executadas no ritmo certo e com pinta de maestria. Enquanto uma mão faz os tons mais graves, a outra desenvolve a partitura mais aguda. O campeão, assim como um bom pianista, deverá saber tocar um pequeno piano de armário da mesma forma como se toca um grande piano de cauda, pois os times jogarão as quartas na quadra 4 e depois as semi e a final na quadra 5.

Ter um jogador que saiba carregar o piano também pode ser decisivo na disputa pelo título, mas quando sete caras dão conta de levar o instrumento, o efeito é o mesmo: o piano chega onde tem que chegar. O problema é quando o piano cai da escada...

Já tivemos inúmeros casos de times que jogavam como música e acabaram por desafinar perto do fim da canção, justamente por não saber utilizar os recursos específicos do piano grande. É o caso do histórico confronto entre SPQSF e o falecido Canhedo Beppu, válido pelas semifinais do III Chuteira de Prata. Todos apostavam no time de Jaja, pois a equipe laranja tinha massacrado todos os concorrentes, salvo o duelo contra o Fúria – um jogão em que o time empatou e perdeu a vaga direta para a Ouro. Não faria falta aquela vaga, pois o time chegaria na final e pegaria uma das duas vagas remanescentes. Não foi bem assim, não... O jogo que já tinha vencedor acabou com o olhar incrédulo do até então novato repórter Douglas Almasi Santos. 4 x 3 para o Canhedo, ao som das irritantes vuvuzelas, que faziam sucesso na época. Não é nenhum exagero afirmar que o time perdeu pela falta de conhecimento do terreno, somada, é claro, a uma partida extraordinária do MVG da temporada, o goleiro Papa Burguer. Bolacha, zagueiro do Canhedo, confirmou na época que o tamanho da quadra ajudou na vitória. “A determinação, a força e o tamanho da quadra”, atribuiu o camisa 5 do Canhedo em entrevista a Douglas no pós-jogo.

Todo mundo, naquela época, apontava que a final seria entre Fúria e SPQSF, justamente da mesma forma que apontam que Rabeloska e CAV farão o jogo da disputa pela taça desta temporada. Cuidado: time que está acostumado com o rótulo de favorito costuma deixar a peteca cair, pelo menos aqui na Prata.

Outro fator que eu acredito ser importante é o “fator infernal”. Não pelo sol e calor forte que teremos nessa parte final de campeonato, mas sim pelo histórico do Diabos Negros. Ninguém acreditava que o time que tinha perdido os 5 primeiros jogos pudesse ser o campeão do I Chuteira de Bronze. Enquanto todo mundo falava em TNT e Maciota’s, o time soube chegar de mansinho e abraçar uma vaga direta na semifinal. Venceu o jogo do mata-mata de goleada, debaixo de um dilúvio. Foi para a final, quando derrubou o time mais forte do certame e conseguiu se sagrar campeão. Não que eu aposte no Diabos, mas quero que não se esqueçam que “time de chegada” pode dar o tom da canção, assim como pianista desacreditado às vezes surpreende ao executar uma bela canção, sem erros. Quem erra menos costuma ganhar. Quem não erra, ganha.

“Weinny, em quem você aposta nesse campeonato?”. Já apostei no Red Devils, Diabos, Rabeloska e outros palpites certos. Mas já errei, quando apostei em Acidus, SNG e Mulekes. Desta vez prefiro guardar meu palpite para não dizerem que ando tendencioso, apesar que por um vídeo em que eu apareço já dá pra saber qual minha aposta. Organizador e jornalista não pode torcer para ninguém, ou deve ao menos fingir que não torce. Mas posso apostar com certeza que só teremos jogões nessa fase final e que no dia 10 de dezembro teremos uma das melhores finais de todos os tempos nas duas divisões principais do Chuteira. Eu estarei lá com meu “smoking fotográfico”, junto com os melhores enxadristas da Ouro e com os melhores pianistas da Prata.
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