Eis a nova seção do Chuteira de Ouro - a crônica. Aqui, neste espaço, semanalmente, teremos diversos de nossos colaboradores jornalistas trazendo, num texto leve e bem humorado, um pouco do universo Chuteira. Acompanhem a coluna de estreia abaixo.
Que goleiro é a posição mais ingrata do futebol já se sabe desde que Barbosa tomou aquele gol de Giglia aos 34 minutos do segundo tempo num Maracanã mais do que lotado. Que o Brasil perdeu aquela Copa para o Uruguai e que Barbosa se tornou o homem mais odiado do Brasil também é algo de conhecimento público e notório. Porém, há aqueles arqueiros que não só se destacam pelo que defendem (ou não defendem, convenhamos), mas também pelo que representam em campo.

Polito parece se inspirar em Rogério Ceni: defesas, liderança em campo, camisa número 01. Só falta cobrar faltas e fazer gols...
Rogério Ceni logo nos vem à mente e, a exceção dos são-paulinos, ninguém gosta dele porque o cara é bom, recordista de gols para a posição e sabe falar aos microfones, não sendo um toca-discos de clichês quando os repórteres lhes fazem as mesmas perguntas de sempre. Calma, já aviso que esta crônica de abertura da nova seção do Chuteira não vem destacar o ídolo tricolor ou defender Barbosa da execração pública que sofreu; venho aqui lembrar uma figura que, no último sábado, apesar da derrota, saiu aos meus olhos como o grande herói da tarde. Quero falar de Polito, camisa 01 e capitão d’Os Mostarda na partida que decidia quem ficaria com a última vaga na Prata – se os
good guys amarelinhos ou os
bad boys do Coringa.
Longe de torcer contra ou a favor de um ou outro, até porque converso e simpatizo com todos, apesar do Coringa adorar falar que persigo os meninos… Não é, Maurício? Porém, não tem como não olhar para esta equipe mostardense e invejar o ânimo e a vontade com que os rapazes jogam. Nada de grandes habilidades ou jogadas de efeito, nada de lances dignos de um futebol arte, Os Mostarda joga com raça, com vontade, com, desculpem-me o clichê, o coração na ponta da chuteira. Polito foi a encarnação disso na partida derradeira.
Debaixo das traves Polito deve ter fervido dentro de sua roupa preta. Mesmo já com sol baixo, o calor abafava e queimava cabeças e mentes. A d’Os Mostarda deve ter ficado mais quente ainda, a ponto de um curto circuito, quando Rafinha fez 1 x 0 para o Coringa. Era ainda primeiro tempo, havia ao menos dois times do adversário no banco para revezar e não esmaecer a forte marcação. Parecia que o Coringa ganharia fácil? Uma sondagem rápida à beira da quadra diria que Os Mostarda não teria chances. Coringa era favorito e mostrava por que em campo.
Pois Os Mostarda, sem seu capitão Cadu, tinha em Polito o homem para reverter prognósticos. E como gostam de surpreender os favoritos esses mostardas, não? O CAV que o diga nas quartas de final passada, não é? Pois Polito resolveu jogar além do que um goleiro faz estando ali atrás. Nada de grandes defesas (lembro de uma, vai, devo admitir), Polito usou das palavras e do incentivo para mudar um cenário tido como negativo por muitos. Polito gritava a todo instante “Vale a Prata, pooooorrra!” com tamanha vontade que creio que, se eu estivesse em campo, minhas pernas já balzaquianas correriam mais do que o normal. E o time d’Os Mostarda pareceu ser regido pelos incentivos de Polito e pelos berros do técnico na linha lateral, que gritava e comandava um time que tinha como referência no ataque um simpático gordinho. E não é que mesmo para quem você não dá muito jogou bola?
Os Mostarda atacou, fez o goleiro Gui trabalhar e deu pressão na rapaziada azul e branca. Os amarelinhos atacavam aos trancos e barrancos, mas nada de muito produtivo acontecia. Na verdade, na maior parte das vezes acontecia era contra-ataque, mas os meninos não cansavam de correr. “Vale a Prata, poooooorra!”, ouve-se de novo Polito. Aquele grito, que soou um tanto quixotesco para mim de início, mostrou-se com o efeito de uma injeção de ânimo, gás e esperança para os meninos em quadra.
De tanto incentivar a tática deu resultado. Nas várias faltas cometidas pelo Coringa, numa delas próxima à area, gol num chute rente a trave lateral. A comemoração foi no meio da quadra, deixando Polito de fora. 1 x 1 e emoção na reta final. Um empate e decisão nos pênaltis? Deus parecia escrever certo por linhas certas. Um jogo desses só poderia ser decidido mesmo no cara ou coroa.
Deus reservava o melhor para o fim. O árbitro trilou o apito final de jogo. Os times se uniram cada qual no seu canto. Polito falou com alguns e sabia que dali em diante o triunfo poderia sair de suas mãos. O que passa na cabeça de um goleiro na hora mais do que solitária da cobrança de um pênalti? “Onde ele vai chutar? Pulo ou espero? Pé direito ou esquerdo? Seja o que Deus quiser!”? Só mesmo eles para nos dizer. Mas naquela decisão Polito sabia que o time dependia dele mais do que de qualquer outro. O semblante sempre sorridente abriu espaço para a tensão. Hora da concentração. “É hora dos goleiros brilharem”, alguém de fora soltou. Polito, mais do que qualquer outro, tinha consciência disso. Mais do que qualquer outro ali queria isso. E para debaixo das traves lá foi ele.
Gol de um lado, gol de outro. Outro gol aqui, outro ali. Polito toca com os pés uma cobrança, mas a bola vai para dentro. Gol. Gol. Gol. Cobranças alternadas. O goleiro Gui se adianta mais de metro e faz a defesa. Coringa na Prata? Na batida derradeira, Fernando Cidrão vence Polito e dá a classificação para o Coringa. Derrota d’os Mostarda? Pode até ser. Derrota de Polito? Meu caro Polito, naquela tarde quente de inverno, para este humilde cronista que aqui escreve, você foi o grande vencedor. Não tem Coringa, não tem Cidrão, muito menos Gui, com todo respeito e admiração a eles, mas aos meus olhos e na minha memória aquela tarde de 27 de agosto vai ficar marcada como o dia em que Polito venceu.
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