Existe um período chamado entressafra na agricultura. É quando se finaliza uma colheita e se prepara o terreno para a próxima, acarretando um certo período sem produção, o que pode levar a aumentos de preço. No Chuteira de Ouro, a entressafra está ocorrendo entre times e jogadores, e quem está mais atento consegue enxergar entradas e possíveis saídas, mesmo estas últimas ocorrendo de forma escancarada, como o Futeloucos (que deixou a Série Aço para jogar o Chuteira Master), quanto latente, caso do Nois que Soma. Enquanto isso, novas gerações vão chegando, espalhando-se pelas divisões e as deixando fortes.
Essas imersões fazem parte do Chuteira. Pela hierarquia, qualquer equipe entra pela parte de baixo das divisões (Copa Estrelato ou Chuteira 5). Isso causa um efeito raro: a qualificação das Séries. Ver um Vila Mureta na Bronze, um Zero 13 na Aço, ou um Panela no Chuteira 5 dá à divisão a qualidade que ela necessita, provocando nos demais adversários uma melhoria tática e técnica. Basta ver equipes antes taxadas de 'simples' fazendo campanhas solidificadas – vide o Astúcia, que pelo segundo semestre seguido mostra uma força esquecida quando entrou na Liga. VM, Z13 e Panela são equipes que, hoje, jogariam no mínimo a Série Prata. Isso gera expectativa para quem está chegando.
O
boom de times novos, mas que estão se firmando, tem tudo para fazer uma espécie de revolução em 2020. Porém, por partes. As equipes tradicionais deverão continuar, pelo menos a maioria delas. Algumas ainda têm lenha para queimar. Cedo para aposentar pessoas que fizeram e fazem o espetáculo acontecer ao longo da década. Porém, é preciso ter uma visão além do alcance para perceber que o tempo passa. O caso mais intrigante do momento é o do maior campeão da história do Chuteira de Ouro, o Nois Que Soma.
A derrota por 3 x 0 para o rival Mulekes mostrou um certo distanciamento entre os times em 2019. Esse distanciamento se refere às partes tática e física, porque técnica ambos os times possuem. Juntam-se os discursos nos corredores. Frases como "estamos ficando velhos" são ouvidas por pessoas ligadas ao NQS. Somam-se os murmurinhos de pessoas não ligadas ao pentacampeão dourado que o time irá se dissolver ao término desta edição da Série Ouro. Seria uma aposentadoria precoce, mas compreensível. Quem vence tem apreço por mais títulos, mas o tempo é implacável e as gerações se renovam.
Quando o Zero 13 entrou para ser semifinalista da 4ª edição da Copa Estrelato, logo o técnico Issao comentou que um de seus sonhos era colocar os santistas na Série Ouro para enfrentar justamente o Nois Que Soma. Não deverá acontecer (a não ser numa eventual Copa dos Campeões no começo do próximo ano, mas isso se o NQS levantar o caneco dourado deste semestre). Não deverá acontecer porque as gerações tanto se cruzam quanto se distanciam no Chuteira de Ouro. Quando o Z13 alcançar a Ouro, e fatalmente conseguirá, é provável que seus grandes rivais sejam Catado, Baixada de Munique, StarFucks, entre alguns outros. Nem o Mulekes é garantido, afinal, o atual campeão dourado tem, hoje, a média de idade ideal para um jogador de futebol. Quando o Z13 chegar à Ouro, a mulekada já estará numa descendente física. Parecida com a do NQS.
Enquanto isso, novas gerações vão substituindo outras que fizeram e ainda fazem história. Segure-se neste momento, leitor(a), quando ler que no Maestria, por exemplo, tem gente que nasceu em 2002! No ano do pentacampeonato do Brasil surgiu uma leva de jogadores que hoje forma a equipe que está fazendo da Copa Estrelato competitiva. Ver os garotos em quadra dando a cara a tapa, abusando de jogadas, indo para cima dos marcadores, dá ânimo, vida. Por outro lado, entristece.
A tristeza é por saber que determinadas situações não deverão acontecer mais. Isso não quer dizer que o Maestria veio para substituir o Nois Que Soma, mas é inevitável: o primeiro é de uma geração que irá crescer e alcançar as principais divisões, algo que o NQS começou em 2014 e que, agora, vê o ciclo se encaminhando para outra vertente. A tristeza é mais por parte de quem vive o campeonato há bastante tempo. Os rostos do passado somem ou vão ficando com a pele mais desgastada. O alento é sempre buscado nas novidades que as gerações chegando trazem.
Gerações, segunda parte - Não se trata de um assunto divertido para esta coluna, mas ainda na esteira da entressafra, duas equipes históricas mostram que o tempo é implacável para quem não se adapta ao momento. Após três jornadas, é para se lamentar que os rivais históricos Acidus e Roleta Russa agonizam na Aço. Pior é saber que tudo se encaminha para ambos 'decidirem' o rebaixado ao Chuteira 5 em confronto direto ainda a ser disputado.
Dois times que fizeram história e uma rivalidade que dava a injeção de ânimo necessária para a semana que antecedia o sábado ser divertida. Hoje, mesmo com a injeção de ânimo se limitando às matérias escritas, vídeos ou Podcast, nenhum dos dois consegue sair de um marasmo colocado por seus comandantes. Ambos perderam no último sábado. O Acidus caiu pro Ou Não, enquanto o Roletão perdeu para o Rabisco. O ON pode ser considerado de uma nova geração; os rabisqueiros, não. A considerar realmente: como era bom ver os rivais se provocando sadiamente e fazendo o público delirar. Que uma nova geração resgate essa competitividade.
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