Cada vez mais equilibrado e com ares semiprofissionais, o Chuteira vive uma nova era – a de “contratação” de um comandante do lado de fora. Mas, afinal, um técnico é realmente fundamental?
A figura do técnico, normalmente, representa a organização de um time. Ele orienta, escala, troca jogadores no decorrer da partida, além de dar um choque de ânimo no elenco. O técnico ganhou, nas últimas duas décadas, status de imprescindível dentro do futebol. Há quem diga que essa pecha iniciou-se com Telê Santana: os são-paulinos nem imaginam o que seria do clube sem o ‘mestre’, que comandou o time no período mais vitorioso da história da agremiação, o quadriênio de 1991 a 1994, quando o tricolor foi bicampeão mundial e continental, faturou o Brasileirão de 91, venceu outras decisões de torneios menos importantes ao torcedor, além de ser vice-campeão continental de 1994.
Telê inaugurou uma era: técnico é fundamental e ganha jogo, sim! Na esteira, vieram outros comandantes que souberam explorar, e bem, seus talentos, e como lidar com situações extracampo: Wanderlei Luxemburgo, Felipão, Paulo Autuori, Muricy Ramalho, entre outros. No Chuteira de Ouro essa questão não passaria de forma indiferente. Com o campeonato tomando dimensões semiprofissionais, muitos são os times que estão em uma das três divisões lutando pela taça que enxergam na figura de um técnico uma saída para melhor organização e, consequentemente, melhores resultados. Porém, como o Chuteira ainda é um campeonato amador, será que essa procura por um técnico não se tornou uma paranoia? Ou ainda será que a figura do técnico é realmente fundamental no Chuteira?
Quando o torneio começou, em 2005, a preocupação única era se divertir. Claro que o jogador tinha a sensação de ser um atleta profissional, disputando um torneio com regras, mas jogar com os amigos era o primordial. Porém, com a adesão cada vez maior ao Chuteira, a necessidade de um organizador tático emergiu. “O Chuteira tomou uma proporção grande”, atesta Ricardo Tavano, ex-jogador do Fiorella Brasil – o time de maior longevidade na competição – e que hoje é técnico do time por “uma questão fisiológica”. “Tenho quase 40 anos. O campeonato ficou muito duro, entrou muito time novo. A média de idade é de 20 e poucos anos”, alerta. Tavano acompanhou a evolução do Chuteira e hoje enxerga a necessidade do técnico: “Quando o Fiorella entrou, eram nem 20 times; hoje, são 60. Então, o cargo de técnico acaba fazendo a diferença, não tem como”, complementa.
Um dos lideres dos Aroucas, Vitão, concorda com Tavano e acredita ser fundamental hoje a presença de um técnico do lado de fora das quatro linhas. Segundo ele, a história do Arouca é exemplo dessa importância. “Nosso time evoluiu demais depois de ter um técnico. Sempre fazíamos campanhas medianas, mas depois que o Galizé assumiu como técnico, e não técnico-jogador, como eu fazia antes, chegamos a uma semifinal e sempre fomos candidatos ao título”, aponta ele.
Porém, equipes há mais tempo no Chuteira não tinham o hábito de se preocupar com um líder fora de quadra. Um exemplo clássico é o tricampeão SNG. O time é um dos mais temidos no certame. É bem armado, tem um poderoso contra-ataque, além de ser uma das defesas mais intransponíveis há várias temporadas. Quem chega agora no Chuteira e toma ciência dos atributos que tem o SNG pensa se tratar de uma equipe com um técnico poderoso. Errado. O time nunca possuiu um representante que comandasse do lado de fora. Ao contrário, são alguns jogadores do elenco que garantem a união da ‘família’ SNG.
Segundo Fabinho, meia do time, dentro de quadra há cinco líderes principais que dão “pitaco” durante a partida: “Biro, Renê, Alan, eu e Tejeda tomamos a frente da situação, por isso nunca precisamos ter um técnico”, revela. São eles, mais o goleiro Sampa e Vairo, os ‘técnicos’ do SNG. Foi assim que o time ganhou títulos, além do respeito de ser, hoje, o principal time dentre as 64 equipes que compõem a liga. Mesmo assim, ele não descarta ter um técnico. “Eu sempre falei com o Renê que achava importante ter um técnico. Mas o SNG, na verdade, nunca sentiu necessidade, porque sempre teve esses caras que são ‘ponta-firme’ e entendem muito de bola”, declara Fabinho.
Além do SNG, outras equipes não lançam mão de um técnico e conseguem bons resultados. Vide Rabeloska e Império Celeste, times que fizeram bonito nas Séries Prata e Bronze, respectivamente. Mas será que um time consegue ir longe sem um técnico? Para o comandante do Irado’s, Weinny Eirado, é possível, sim. “Acho que dá. O exemplo é o Rabeloska. Jogam juntos há quatro anos aproximadamente e acumulam vitórias. E não possuem um técnico. Eles conseguem mexer com qualidade. O SNG também. Então, o técnico não é fundamental para times cujos jogadores se conhecem de longa data. Nos novos, vai precisar de alguém a unir tudo”, detalha Weinny.
Além de repórter, um dos idealizadores do Irado’s sente, na pele, o trabalho que é ser técnico. Porém, mostra-se inteirado com a profissão: “O técnico é importante desde que ele entenda de futebol. Ele tem que liderar a equipe para fazê-la vencer. Se ele for um mero trocador, não tem importância. O técnico tem de ver o jogo”.
Weinny alerta sobre o conhecimento que um comandante tem de ter acerca tanto do futebol quanto do elenco. Essa sapiência é adquirida com a passagem dos anos, bem como o amor pelo esporte. Assim foi com Lói, jogador do Acidus, ex-técnico do DPGamos e hoje “gerenciador” do Invictus dentro de quadra e prestes a assumir o Elefantes Indomáveis na Série Ouro. A primeira experiência dele como técnico, no Chuteira, foi dirigindo o DPGamos. De lá pra cá, Lói viu a necessidade de ter alguém do lado de fora ajudando. “Acho muito importante ter um cara de fora, que possa estar lá orientando, buscando o melhor à equipe nas partes tática e técnica e, principalmente, em termos de substituições”, avalia.
Lói vai além: “É complicado um cara da mesma equipe falar para outro jogador, que está jogando, tira fulano porque ele está mal . Então, o cara de fora está vendo o jogo com outros olhos”. Ele enxerga, na figura do técnico, uma pessoa a ser respeitada pelas pessoas do elenco. “Se tem um técnico, o jogador não pode discutir ou dar uma retratação medíocre, não pode xingar o técnico ou querer sair na mão, pois eles não jogam juntos. O técnico está lá só para fazer isso, está lá pra ajudar”, finaliza.
Em contrapartida, poucos são os técnicos que não são amigos dos jogadores, o que acarreta em outras questões além da puramente técnica e tática. “É muita responsabilidade, porque você esta lidando com amigos acima de tudo”, confirma Vitão.
Quem também entende a necessidade de um técnico à beira da quadra para orientar os jogadores é o capitão do Di Primeira, Simon. Tendo disputado pela primeira vez a Série Ouro no semestre passado, o capitão lembra que “todo mundo que está no Chuteira sabe jogar”, portanto, “a visão do técnico, de fora, quando ele passa aos jogadores, torna-se muito importante". Simon reconhece que a presença do técnico Molão ao lado do time no V Chuteira de Prata, quando foram vice-campeões e subiram à Ouro, foi fundamental. “Quando a gente entrou no Chuteira, não tínhamos técnico. Só depois que chamamos o Molão, e o time melhorou, pois a gente passou a ter um padrão de jogo”, relata o capitão. “Agora temos um time base, cada um sabe o que tem de fazer”.
Essa organização tática citada por Simon fez com que, em 2011, o vice-campeão do X Chuteira de Ouro , o Fora de Série, buscasse, desesperadamente, por um comandante fora de quadra. O time cansou de ver apenas os jogadores mais tarimbados fazendo as mudanças no decorrer dos jogos. “Muitas vezes eu e o Clebão tínhamos de parar de jogar para trocar os jogadores, e isso pesou”, relata Rica, capitão do time, que chegou a fazer uma experiência, sem sucesso, com Caio Fleischmann, manager do Clube Atlético da Vila (CAV). “Chegamos num ponto crucial: não basta o jogador para coordenar o time. Precisa de um cara apenas para olhar o jogo, que não participe. Porque tem muito cara que às vezes é jogador e acaba sendo influenciado porque o outro é amigo”, expõe Rica.
A saída encontrada pelo Fora foi ter Clebão de técnico e este virar jogador de outra equipe, no caso o DPGamos. Porém, para 2012, na Série Prata, já que o time foi rebaixado, as coisas voltam ao que era antes: Clebão retorna à equipe e todos palpitarão sobre mudanças. “Eu vou mais ser o cara que cobra o que todos querem em campo e menos o cara que tem planos mirabolantes de ganhar um jogo”, confessa Clebão. Essa parece ser a ideia da direção da equipe, pois converge com o que lembra Rica. “Técnico não é primordial. A gente foi vice sem um”, recorda ele.
Essa discussão sobre a necessidade de um comandante iria ocorrer naturalmente, diante do crescimento do Chuteira de Ouro. Mas, aos que gostam de um ‘marco zero’, o início da era dos técnicos, no certame, talvez possa ter tido como ‘pedra inicial’ Roberto Solcia. Quando chegou, em 2010, dirigindo o Maciota’s, alguns participantes se perguntavam: quem era o “careca” que só comandava fora de quadra? A curiosidade fora aguçada quando Roberto assumiu o CAV, em 2011. A partir desse episódio, suscitaram a dúvida: um técnico é mesmo importante para se alcançar a glória no Chuteira?
“Eu acho imprescindível a figura não só de um técnico, mas de um treinador dentro da quadra”, confirma Roberto, que neste ano vai dirigir o Mercenários na Bronze. “O treinador tem, além da parte tática, a parte técnica”. Ele relembra uma máxima que está em desuso no futebol atual: “O ditado diz que técnico não ganha jogo. Ganha, sim! Se ele substituir da forma correta, trabalhar concentrado na partida, entender o que se passa no jogo, colocar os jogadores nos lugares certos, acaba sendo muito importante”. Roberto, indiretamente, acaba confirmando o que Fabinho apontou sobre o SNG. “Já vi equipes serem campeãs sem técnico. Mas o que fez deles campeões foram 5 ou 6 jogadores muito experientes, que se tornaram, de certa forma, técnicos", conclui.
O tema é delicado. Sempre haverá pessoas favoráveis à presença de um técnico e outros que não enxergam a necessidade de um ‘professor’ orientando ao lado da linha. A decisão cabe a cada equipe. Aos técnicos (de ofício ou improvisados), é a chance de poder colocar em prática o conhecimento deles sobre futebol e sobre como liderar uma equipe. Muitos podem partilhar do pensamento de Weinny: “Ser técnico é uma grande fria!”. Para Vitão, do Arouca, ser técnico é ter a consciência de que o time depende de você. “Eu acho que você tem que estar muito a fim para ser técnico. Se assumir, não pode faltar, pois o time vai depender muito de você a partir deste momento. Mas não é fria não. É muito prazeroso”.
Lói concorda com o zagueiro arouquense e atesta o prazer que é comandar um elenco rumo aos gols e às vitórias. “Eu sou formado em esportes, é o que eu gosto de fazer (ser técnico). Aqui é ‘profexor’. Todo mundo tinha de experimentar".
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