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Alô, parça, operei o joelho, estou de molho em casa…


“E aí?”, teclou ele. “Pode falar, Caio”, respondi. “Fala você, só estou puxando papo, pois não tenho o que fazer”, replicou o camisa 5 do Estudiantes de la Vila, colocando um kkkkk em seguida. Eis uma conversa pelo MSN no dia seguinte à operação no joelho do MVP do VI Chuteira de Ouro e capitão do Estudiantes com este que vos escreve. A cirurgia foi na manhã do dia 15 de janeiro e o jogador terá longos dias pela frente em sua recuperação. Na frente da TV, do computador, do PlayStation, ele segue sua vida de molho em casa sem poder fazer o que mais gosta – jogar futebol de verdade.

O desânimo de ficar em casa o dia todo não tira o bom humor do jogador, que conta com as visitas constantes dos amigos do prédio Well, Leander, Iram, Piero, Fish, Rafinha e Peter. “Aqui é tudo amizade de 10 anos pra cima. A gente jogava na quadrinha aqui do prédio, eles correm atrás de mim desde menino. Quando fui pra Itália eles disseram que o futebol aqui ficou muito mais legal”, fala ele, rindo. “Ali foi onde eu aprendi a bater na bola, a tirar e bater como fiz contra o SNG, ou então correr pela esquerda, cortar pra dentro e chutar cruzado”, continua, lembrando do gol que não lhe sai da cabeça, o que colocou o Estudiantes na final, o gol de ouro contra o SNG.

A importância do gol contra o SNG é grande para o cenário em que Caio joga hoje, mas no passado ele fez gols mais importantes, como um que classificou o Aosta para a final do Sub-21 do Campeonato Italiano de Futsal. “Faltavam 2 minutos para acabar e o jogo ia para a prorrogação. Aí dominei uma bola no mano a mano, tirei pra esquerda e bati cruzado. A bola pegou nas 2 traves, nas costas do goleiro e entrou!!! Aosta na final! Foi louco demais: jogo em casa, quando fiz o gol, olhei para a arquibancada e todo mundo pulando. Aí fui para o abraço”, completa, cheio de orgulho. Na final, foi campeão ao lado de seu amigo Leandro Raito, que também estava com ele no Aosta e hoje é do Estudiantes. “O Raito fez o gol que classificou a gente para a semifinal”, lembra ele.

Foi o futebol na quadra de concreto do prédio que levou o jovem à Itália. Num campeonato do colégio, um árbitro o viu jogar e indicou para um irmão que jogava no Aosta. Naquele ano veio um grupo do Aosta observar moleques no Brasil. Indicaram uns nomes para uma peneira e ele ia toda terça lá treinar. “Íamos eu, o Raito e o Paulo (goleiro). A mãe deste que levava”. Em 2004, Caio e os dois amigos embarcaram para a Itália.

A passagem pela Itália foi dos 18 aos 21 anos, quando jogou pelo Aosta, time da segunda divisão do Futsal italiano, ou Calcio 05, como é chamado por lá (calcio = futebol; 05 porque joga com 5 jogadores). Jogou o sub-18, o sub-21 e o profissional pelo clube, até ser emprestado ao Arzignano, da primeira divisão e atual campeão na ocasião. Ficou treinando no time e foi aprovado. Ele iria disputar a Champions League do futsal, mas o Aosta pediu muito pelo seu passe e a negociação não rolou. “O Arzignano queria pagar metade do que o Aosta pediu. Aí eles disseram para mim e eu disse para o presidente do Aosta que se ele não me vendesse, eu ia voltar para o Brasil e ele não ia ganhar nada comigo. Ele me respondeu: ‘Não me interessa se não vou ganhar nada em cima de você, eles têm de pagar o que eu estou pedindo’. Aí me ferrei, né”, lamenta ele.

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Aosta e Arzignano: briga entre dirigentes ajudou na volta de Caio para o Brasil


Mas enquanto jogou conquistou títulos e experiência. Foi campeão do Sub-21 com o Aosta e estava na final do Sub-18. “Ia ser a primeira vez que um time ia faturar os dois títulos – do sub-21e do sub-18 – no mesmo ano”, relembra. “Éramos favoritos praquele jogo, mas perdemos na final por 3 a 2, com um gol faltando 30 segundos pro fim”, rememora, o que o deixou com o vice-campeonato do sub-18.

Daquela final, Caio ainda tem viva na memória a imagem do algoz de seu time – Calderolli. Talvez de nome o leitor não lembre quem é, mas certamente já viu o gol do vídeo abaixo. Pois o autor do golaço é o Calderolli. “Ele deitou na gente, fez os 3 gols. Para você ter noção, o treinador da seleção sub-21 estava na tribuna vendo o jogo. Quando acabou a partida, ele já disse que o cara estava convocado”, conta. “Eu e mais um, o Punha, estávamos na marcação dele. O juiz amarelou nós dois e falou que se a gente desse mais uma nele iria expulsar. Aí já viu: menino habilidoso, marcação leve... Deitou em nós”, explica.



Além de Calderolli, jogou com outros jogadores conhecidos do futsal. “Joguei com o Foglia da Itália, o camisa 10 que fez o gol contra na semifinal contra a Espanha no último Mundial. Teve o Pula, brasileiro da Rússia que foi artilheiro do Mundial, e tem uns menos conhecidos, como o Márcio e o Danilo (campeões mundiais com o Brasil em 1996) e o Sandrinho, que comentava jogos na Globo. O treinador era o Ipez, que hoje comanda a seleção argentina de futsal”.

Falar de futebol é o que esse estudante de Educação Física e prestes a começar o curso de Administração gosta de fazer. O assunto principal são dois: Estudiantes de la Vila e o hexacampeão São Paulo Futebol Clube. No domingo à noite, enquanto o tricolor goleava na Taça São Paulo de Futebol Junior, Caio não acompanhava os gols de Henrique. Afinal de contas, ele não tem TV a cabo em casa – uma tortura para um amante do futebol, que fica preso à TV Globo.

Do São Paulo não tem muito o que falar – só comemorar. O time é o melhor do país e três vezes seguidas campeão brasileiro. Sobre o Estudiantes ele tem orgulho de falar. Queira ou não, o time que nasceu como Crocciati no primeiro semestre de 2008 – quando ele não jogou com seus amigos – chegou ao vice-campeonato no segundo com grandes méritos para seu camisa 5, que assumiu o time em julho. Não só dentro de campo, diga-se de passagem. Craque jogando, pulmão do time, dono de um físico avantajado que corre 50 minutos atacando e defendendo com qualidade ímpar, foi fora de campo, nos bastidores, que ele fez o trabalho mais difícil para um time que joga o Chuteira. Sim, claro que estamos a falar de administrar um time, o que envolve recolher grana para pagamento, ver uniformes, ver jogadores a compor elenco e outras incumbências que só quem faz isso sabe como é complicado e chato de fazer.

Sim, o Estudiantes também foi idéia dele para o nome do novo time, inspirado no Estudiantes de la Praça, time que seu pai jogava em Jaú. “É uma homenagem a meu pai, já falecido”, conta. Mas claro que o de la Praça que deu origem ao de la Vila nasceu inspirado no original argentino, o de la Plata, que levou de 5 a 1 do Corinthians recentemente. Como Crocciati, o time não deslanchou. Começou bem o V Chuteira, mas caiu logo em seguida e não se classificou para o mata-mata – assim como o Acidus em que Caio jogava na ocasião. Acertado que jogaria com seus amigos – “pô, são meus parças, tenho de jogar com eles” – tratou de correr com o time para jogar o VI Chuteira. Pegou a direção do time e fez nascer o time-sensação da competição, o vice-campeão do torneio.

Se dentro e fora de campo Caio bate um bolão, no Winning Eleven, o futebol no videogame que todo marmanjo joga, a se crer no que diz, não fica para trás. “Acabei de ganha do brother meu no Winning. Tô jogando muito”, conta, nada modesto. Em outro dia: “Tô com o Iram (colega de Estudiantes) aqui jogando. 5 a 1 para mim com o São Paulo em cima do Milan. Fácil”. Do Chuteira, é todo elogios para dois jogadores: Kuminha (Roleta Russa) e Pena (Aurora). “São os dois melhores que vi no Chuteira”.

Enquanto futebol só no videogame, segue remontando o Estudiantes. Perdeu ao menos 5 jogadores e corre atrás do prejuízo. Quer trazer jogador que sabe jogar, de ponta. Em suas palavras fica nítida a vontade, para muitos, até excessiva, de ser campeão. Por isso acertou com alguns ex-colegas de Itália. Um goleiro para o lugar de Richard, um meia para fazer sua função enquanto fica fora e um pivô que chegará da Europa para a fase do mata-mata. Sobre este, dá um resumo: “1,90 m, forte, chuta igual um burro. É o jogador que todo time precisa”.

Da final do Chuteira guarda boas e más lembranças. Claro, inevitável, a contusão que o tirou do jogo logo no terceiro minuto da prorrogação. Para piorar, o gol de Paulinho que deu o título ao adversário, o Kadência. A lamentar, muitas coisas daquela partida, a começar pela arbitragem, a quem ele deposita a culpa da derrota, principalmente o cartão amarelo de Piero, que teria sido injusto, e com o qual jogou com um a menos por alguns minutos e o time sofreu 2 gols. “Os cartões foram palhaçada, interferiam diretamente no resultado. Foram 2 pesos e 2 medidas”. E quanto à contusão que o deixou fora de jogo por 8 meses? “Não precisava, né? Mas fazer o que, quem joga está sujeito a isso”.

E assim, teclando e sorrindo, pensando no Estudiantes e em sua recuperação, jogando futebol só no videogame, Caio segue sua vida on line, de molho em casa, já que nem pisar ele pode ainda. “Té mais, parça”. "Até amanhã, Caio”.
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