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BASTIDORES DE UMA DECISÃO PRATEADA

TEXTO Renan Lamarck

Um público próximo a cem pessoas esteve presente na quadra 5 da PlayBall no dia 20 de junho de 2009, por volta das 15h. Todos os presentes aguardavam ansiosos pelo embate final entre Treinadores do Braz e Primatas, disputa que valia a taça de campeão do I Torneio Chuteira de Prata, a porta de entrada ao Chuteira de Ouro.

Muito barulhenta, a torcida dos Primatas, composta em sua maioria por jovens amigos, namoradas e pais dos garotos da equipe, estava animadíssima para a grande decisão. Com dois sinalizadores que soltavam muita fumaça, minutos antes de começar a partida a quadra foi invadida por ela, o que a fez se parecer com um daqueles acanhados e temidos ambientes do futebol argentino. Além da fumaça, uma chata e irritante buzina de ar comprimido, instrumento obrigatório dos torcedores desde as quartas-de-final, quando do embate diante do Roletinha. Essa mesma torcida não cansou de fazer a festa e transformar o canto próximo a um dos bancos de reserva em um verdadeiro caldeirão.


Buzina, fumaça e gritaria: torcida do Primatas incendiou a arquibancada


No entanto, apesar de uma torcida mais atuante – o 8º jogador, diriam alguns mais animados – assim que a bola rolou quem abriu o placar foi o Treinadores do Braz, que deu a sua torcida, mesmo em menor número, razões para calar a barulheira da garotada do Primatas.

Presença ilustre no meio da torcida Primata era o camisa 10 do time, Rafinha. Suspenso da grande final, o jogador outrora tão importante para equipe – vale lembrar que ele fez um excelente campeonato e uma belíssima partida nas semifinais diante do favorito Arouca – assistiu boa parte do jogo calado. Enquanto a torcida fazia a festa e empurrava os jogadores, Rafinha, vestido com sua própria camisa do time, transmitia através de seus olhos toda a tensão e o nervosismo de não poder jogar, e de apenas poder torcer por seus companheiros.


Suspenso, Rafinha (à esquerda, de boné) ficou com a torcida até a hora do apito final, quando invadiu para comemorar com o time


Contudo, quando Nando acertou uma pancada no gol defendido por Criança e virou a partida, Rafinha se transformou em mais um torcedor e correu, como um louco, junto com a torcida para o alambrado. Quase uma avalanche primata. Dentro de quadra, o autor do gol também havia eleito a grade para comemorar, - e sua escalada lembrou a de Ronaldo outrora Fenômeno diante do Palmeiras quando empatou nos acréscimos o pleito do Campeonato Paulista. Exagero ou não, Nando saiu aos berros a comemorar junto com sua torcida – e a grade – a importante virada.

Torcedores das duas equipes viviam a decisão: uns, mais comedidos, roíam as unhas, outros apenas acompanhavam a bola com o olhar, parecendo mais assistir a uma partida de tênis, e só se exaltavam em lances de maior perigo. No entanto, havia alguns que pareciam verdadeiros cidadãos romanos no velho Coliseu, pois gritavam a toda hora, xingavam os árbitros por absolutamente qualquer coisa e punham fogo na partida a cada vez que os jogadores dividiam com mais força numa jogada.

Figuras conhecidas e reconhecidas do mundo do Chuteira estiveram presentes para acompanhar as duas decisões daquela tarde. Renê, artilheiro do Se Não Guenta, sempre presente nos assuntos relacionados ao Chuteira e um dos jogadores mais queridos no ambiente do campeonato, esteve presente apoiando os amigos e gorando os “menos amigos”. Vez por outra, sempre acompanhado de sua cerveja, Renê tecia comentários sobre a partida com Lucas, do Acidus, e R. Barath, do Basicus, que estavam a seu lado prestigiando a final. Um dos comentários de Renê foi o golaço inaugural de Peruca, que Lucas perdeu porque filmava outros jogadores que iam chegando e se amontoando. Alguns deles, que já vão se tornando nomes de presença mesmo quando não jogam: Pedro De Luna, do The Veras; Rica e Clebão, do Fora de Série; Renato e Danilo, do MachuPichu, Paulinho, do Kadência; Luis Gabriel e Adriano, do Fúria.


Barath, um dos ilustres presentes para prestigiar a grande final do Chuteira de Prata


Enquanto iam se aconchegando no frio concreto da arquibancada, seguia rolando o quente jogão de bola entre Treinadores e Primatas. A partida caminhava para seu fim com a igualdade em 3 x 3 e mais do que nunca a tensão estava no ar. Quando Orley, o reclamão dos Primatas, foi para o chão depois de se desentender num lance sem bola com Anderson do Treinadores, essa foi a deixa para as duas torcidas se inflamarem de vez. De todos os cantos da arquibancada só se ouviam palavrões, uns chamando Orley de “viadinho”, outros insultando o futebol duro do Treinadores. Inclusive a esposa de Anderson saiu de seu assento na arquibancada e foi dar uma bronca no maridão pelo que ele tinha feito ao menino do Primatas – um safanão. Punido em campo pelos colegas, pois foi sacado da partida, e punido também pela mulher do lado de fora, que não aceitou a atitude do marido. A decisão era quente, dentro e fora de quadra. Vida conjugal é mesmo complicada...

Não era a ilha de Lost, mas a fumaça preta voltou à cena quando Gui Fenômeno chutou de primeira na entrada da área para fazer o quarto gol de sua equipe, o gol que praticamente garantia o título. Foi a deixa para iniciar a festa da torcida primata! Os sinalizadores foram acesos novamente, a buzina voltou a soar alto, a festa dos Primatas já estava quase garantida.

Contudo, ainda restava algum tempo no relógio do árbitro para que o Treinadores ainda tentasse o empate. Porém, o tempo foi suficiente para que Gui Fenômeno fizesse a parede quase no meio de campo e enfiasse a bola para Nando matar o jogo, colocando dois gols de vantagem sobre o adversário e não deixando mais dúvidas de quem seria a taça a brilhar na mesa ao lado do mesário.

E assim trilou pela última vez o apito do árbitro. Um apito mais longo, quase que cansado, anunciando oficialmente que a torcida do Primatas podia gritar, espernear, buzinar e festejar com todo o direito e sem receio. A buzina sendo acionada competia com as batidas no teto da cobertura da arquibancada, e isso tudo rolava enquanto Rafinha invadia a quadra para comemorar com seus companheiros de time. Em círculo, próximo aos torcedores, os campeões se abraçaram e gritaram em alto e ótimo som: “É CAMPEÃO! É CAMPEÃO!”.
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