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Final entre Bacana e Mulekes será decidida na guerra psicológica; quem tiver mais cabeça e frieza levará

Num relacionamento amoroso, o predicado da frieza não é tido como dos mais atrativos para fazer a coisa andar. Já no futebol, ser frio é uma qualidade ímpar, difícil de ser alcançada em uníssono na equipe. Pois é justamente esse ponto que decidirá o título do XVII Chuteira de Ouro.
 
Não há hoje time mais frio, calculista, pé no chão, que o Mulekes. O nome do time poderia muito bem ser Veteranos que cairia como uma luva. Sim, garotos de 20 e poucos anos – outros com menos ainda – que jogam como se fossem velhos de guerra. Entram em campo e sabem exatamente o que devem fazer. Põem a bola no chão, marcam quando precisam e liquidam o jogo na hora certa.
 
Assim a história se repetiu no último sábado. Depois do 2 x 0 na final da 16ª edição da Ouro, quando o Mulekes bateu o CAV e mostrou que para vencer precisa ir além de um elenco de grande qualidade, novo encontro, agora nas semifinais da atual edição. De novo o CAV, de novo um adversário de peso, de qualidade, de jogadores do quilate de Henry, Hirota, Thiago. E de novo o Mulekes foi lá e fez o mesmo – matou o CAV.
 
É preciso retomar os dois jogos para entender como fez o Mulekes. Em ambos os jogos, o time de S. Caetano jogou recuado, priorizando a marcação em sem campo e impedindo que o CAV entrasse em sua área. Fechando os espaços, o CAV forçava as jogadas e perdia muitas bolas, errando quase sempre no último passe. Foram dois primeiros tempos de domínio caveira com a bola, mas de pouco real perigo ao goleiro Alemão, que quando precisou apareceu bem.
 
O domínio do CAV era perceptível, mas, analisando hoje, completamente previsível e calculado pelo Mulekes. A mulekada sabia que assim seria, e se propôs a isso. É mais ou menos como se eles soubessem do enredo e do final. Sabiam que marcando, protegendo seu campo, era questão de tempo para esperar e contra-atacar. Dito e feito.
 
No segundo tempo da final, foram dois gols. Na semifinal de sábado passado, foram quatro gols. Na verdade, o Mulekes joga por um gol. Quando o faz sem tomar antes, está praticamente liquidada a fatura. É aquele filme que você já conhece o final. Os minutos passam e o adversário vai se desesperando. A grandeza do Mulekes vem justamente disso – reconhecer a força do adversário e jogar no seu contrapé. A frieza é a cereja do bolo, o que faz toda a diferença. Como?
 
Vamos lá. Todo jogo começa 0 x 0, o Mulekes se propõe a segurá-lo pelo máximo de tempo possível. Claro que pode haver acidentes e sofrer um gol, mas contra o CAV isso não aconteceu – por duas vezes. Pelo contrário, o jogo é amarrado, pouco vistoso dentro do estilo mulekes de se jogar, mas absolutamente eficiente. Segura, prende, marca e enerva o adversário. Sabe aquele jogo que você tenta, tenta e tenta e não marca seu gol? É o que o Mulekes gosta. Tranquilos, frios, calculistas, fazem da guerra psicológica, a que acontece internamente em cada jogador, sua maior batalha. O Mulekes joga mais com a cabeça do que com os pés. Seu jogo é o de desmontar o adversário psicologicamente – e quando faz o primeiro gol (sim, jogam muita bola e isso vai acontecer naturalmente) é como o cruzado que demole o oponente. Contra o CAV foi assim: fechou a guarda, resistiu aos golpes e na primeira oportunidade acertou um direto. O CAV bambaleou, mas seguia de pé e firme, porém com o psicológico completamente destruído.
 
A partir daí, a responsabilidade – e o desespero – está todo do outro lado. Serenos, os mulekes mantêm a guarda e esgrimam um pouco. Agridem umas vezes sem intenção de derrubar, mais para brincar com seu oponente. Enquanto este se engalfinha para tentar o golpe salvador, sem perceber que é como areia movediça – quanto mais você tenta mais você se afunda e se perde – o Mulekes desfila em jogo de pernas, gingado de corpo, exalando confiança. E essa é a sentença de morte do adversário.
 
Psicologicamente o Mulekes corroeu a mente do CAV, fez o adversário errar, entrar em parafuso, se chafurdar nos próprios erros e no desespero. E o que pode alguém desesperado, sem controle completo de suas ações, contra a frieza e magnificência do futebol muleke?
 
A final deste sábado será decidida dentro da cabeça de cada jogador, especialmente do Bacana. Tido como um time excelente mas de pouco controle emocional – os três vice-campeonatos estão aí para provar isso – a chance Bacana é equilibrar as ações na guerra psicológica. Se o time cair na pilha do Mulekes e entrar em desespero, o tricampeonato está no papo.
 
Porém, o que o Bacana mostrou neste semestre é um amadurecimento. O futebol melhorou, assim como a cabeça. O time aparentemente deixou a arbitragem de lado e focou no seu jogo. É preciso foco, cabeça, concentração, determinação e saber lidar com adversidades. O Mulekes é o time que vai jogar para quebrar o oponente no campo psicológico. O Bacana, até o ano passado, não ajudava e se entregava mentalmente. Neste semestre houve um avanço, o trabalho de Marcelão nas conversas pré-jogo estão dando resultado. Falta um passo ao Bacana para poder ser um dos maiores do Chuteira, mas do outro lado teremos um gigante, o maior deles, pronto a colocar à prova essa evolução. E, diferente de épocas passadas, o Mulekes joga e prioriza o título.
 
Como em qualquer final, o jogo está aberto. Leve favoritismo aos veteranos do Mulekes, mas, reitero, o campeonato será decidido na cabeça de cada jogador. E não apenas nos 50 minutos que separam um finalista do campeão. A guerra psicológica já começou desde sábado passado. Turbilhão de coisas invade a cabeça de todos os envolvidos. Vencerá aquele que melhor souber controlar mente e corpo. Chegou a hora de por em prática o que se aprendeu com tantos anos de história e futebol. Um time acostumado a vencer finais, um time acostumado a perder finais. Chegou a hora de reverter esse quadro?
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