Certa vez eu escrevi aqui, nesse mesmo espaço, que a arte imita a vida. Continuo acreditando nessa premissa e hoje acrescento mais uma reflexão nesse sentido. Hoje a conexão é entre cinema e futebol. Na verdade, a única contribuição cinematográfica para este texto é o título de um filme dos irmãos Coen, Onde os Fracos não têm vez.
Aonde quero chegar com isso? A resposta é muito clara. Existe alcunha mais conveniente para definir o mata-mata da Ouro? Claro que não. É sempre assim, quando chega nessa hora, separam-se os meninos dos lobos. E que fique claro, minha intenção não é ofender as equipes eliminadas no último sábado, até porque elas estão entre as 8 melhores de todo o Chuteira. Mas a vida é muito cruel, não tem jeito. Tem hora que ser bom não é o bastante.
Vejam só o exemplo do primeiro embate da tarde ensolarada de sábado. O Manchester City do Chuteira (já chamei de Chelsea, mas os Blues ganharam a Champions League e mudaram um pouco o seu estigma), o CAV, aparecia com todo o vigor de suas estrelas, jogadores rigorosamente selecionados pelo manager e camisa 10, Caio Fleischmann. Jogadores como Bettoni, Diogo Moraes e Fernando Cidrão não podem ser ignorados, jogam muita bola. O problema é que do outro lado tinha algo que não se ganha de uma hora para outra: bagagem.
O SNG não é mais o time mais talentoso do Chuteira, nem o mais técnico, mas continua sendo o mais equilibrado, o mais oportunista. O time não se mostra fraco em nenhum aspecto, pelo contrário, esbanja confiança, independente da ocasião. Não importa se o adversário é mais jovem, habilidoso e técnico. Ninguém no Chuteira tem a aura que esses rapazes de preto têm e isso ninguém vai tirar. Serão os campeões do torneio? Não dá para garantir, mas que com eles o buraco é mais embaixo, ficou bem claro.
O segundo confronto da tarde seria o mais emblemático do dia. Talvez o único em que a expressão “onde os fracos não têm vez” não fizesse sentido, mas você verá que fez, sim. Era o duelo entre Só Resenha e Rabeloska. De um lado o time da boleiragem, da rabiscagem, da ousadia e alegria, das pedaladas do Miranda, da condução habilidosa do Dhanny, da sobriedade técnica do Darian, da cadência de jogo do Fabricio, enfim, da equipe que mostrou o futebol mais ousado da fase de classificação. No outro corner estava um rival inexperiente na Ouro, mas acostumado a provar sua força em torneios universitários. O Rabeloska, que já chamei aqui de Barcelona, estava disposto a impor seu toque de bola inteligente, sua movimentação sincronizada e seu equilíbrio absurdo. Claro, além disso tem o talento individual de tipos como Dick Vigarista, Vasko, Juva e mais um monte de gente que mostra seu valor desde os tempos de Bronze.
As expectativas foram correspondidas. O jogo foi interessante e o duelo de estilos encheu os olhos de quem estava lá só para ver esse confronto. Claro que o clima de decisão tornou o jogo um pouco mais violento do que o feitio das duas agremiações sugeria, mas nada que estragasse o espetáculo. Aliás, a única coisa que pode ter estragado é a minha audição, depois de passar tanto tempo ouvindo o ruído irritante dos apitos que a torcida do Resenha teimou em utilizar durante todo o jogo. Mas faz parte, deu até um climinha de Libertadores.
Dentro de campo a coisa estava complicada. Chances desperdiçadas para os dois lados, especialmente do Resenha, que consagrou o goleiro Tássio no primeiro tempo. Lances duros por parte das duas agremiações e critérios de arbitragem que podem, sim, ser questionados. O fato é que tudo parecia empacado em um 2 a 2 acirradíssimo, quando o ponto mais fraco do Resenha se mostrou: a defesa saiu jogando errado e Vasko aproveitou para matar o jogo. Triste fim de uma campanha alegre e de um futebol sorridente. Ao Rabeloska coube a missão de provar que fraqueza na hora de decidir não é com ele e, se deixarem, podem escrever seu nome na história da principal divisão do Chuteira.
O terceiro jogo da tarde marcava o encontro entre Arouca e Di Primeira. Havia um ligeiro favoritismo para a equipe que joga de amarelo, pela campanha e pelo que podem fazer dentro de campo. Aliás, que gol foi aquele do Renanzinho? O Di Primeira podia não ser a melhor equipe em campo, mas tinha suas virtudes. Time experiente que roda a bola de um lado para o outro sem a afobação de quem precisa decidir a qualquer momento. O problema é quando o gol sai cedo demais e o time é obrigado a ser mais ousado. Os espaços se multiplicaram e os gols do Arouca também. 3 a 0 e caixão fechado, certo?
Claro que não. O Arouca tratou de sofrer um apagão e o Di Primeira resolveu mostrar que não era o fraco da vez. Fez dois gols e pressionava quando a maior fraqueza do dia resolveu vir à tona. O Arouca fez uma falta no meio do campo, que, na minha opinião, matou o contra-ataque e merecia o amarelo, mas não foi o que o árbitro achou. O problema é esse, as pessoas interpretam fatos de formas diferentes e isso não significa que há interesse em tomar essa ou aquela decisão. Nem um nem outro árbitro deram o cartão ao atleta do Arouca. E aí o Ferrugem saiu de si e do seu gol, se dirigiu ao árbitro que estava mais perto e reclamou acintosamente, aos berros mesmo. Levou o amarelo e começou a ofender as autoridades máximas da partida e as mães delas. Estava pedindo, e conseguiu, o cartão vermelho, que não foi bem aceito pelo bom goleiro do Di Primeira.
Depois disso faltou força para o Di Primeira superar o Arouca e o jogo terminou em 3 a 2. Agora o time do Vitão tenta superar o estigma de sempre falhar na hora do vamos ver. Time amarelão? Futebol para provar o contrário eles têm. Só que a pedra no meio do caminho é, de novo, o SNG...
O derradeiro confronto marcaria o encontro entre os atuais campeões, Mulekes, e o futebol moleque do Arouca Jrs. Dessa vez o moleque travesso que veste amarelo não conseguiu sequer assustar o futebol maduro do Mulekes. E bota maturidade nisso. Tabelas com muita velocidade, troca de posições, segurança defensiva, vasto repertório ofensivo. Isso sem contar nos espetáculos individuais do Vitinho Laruccia, do Barata, do Philip, enfim, de quase todo o time.
Chegamos ao apogeu do campeonato. A hora de conhecer quem é quem de verdade. Vão dar espaço para o bicampeonato do Mulekes? Vão deixar o SNG fazer valer a tradição para buscar o tetra? O Arouca vai mostrar que enfim chegou ao nível necessário para ser campeão? Ou o Rabeloska vai provar que, de estagiário na Ouro, tem só o Luisinho? Façam as suas apostas. Afinal, agora definitivamente, os fracos não têm vez.
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