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SÉTIMA FALTA # 2 – O DRAMA DO GOL DE OURO

Começa a prorrogação. Orley dá o primeiro toque na bola, passando o companheiro, que recua para Argentino. Depois de dominar com a sola do pé, em um toque rápido, o jogador entrega para o camisa 2, que de primeira, manda a bola para Cachaça. Entrando pelo meio, o camisa 16 do Fora de Série dá dois toques na bola, e com o biquinho da chuteira, manda rasteiro no canto esquerdo do goleiro Tucano. Fim de jogo.

Esta foi a descrição do gol de ouro mais rápido da história do Chuteira antes que Ricco, nas quartas de final da Série Aço, mandasse a bola direto ao gol em saída após o árbitro dar início à prorrogação entre Bengalas e Real Madruga. O gol do Fora de Série descrito acima aconteceu com apenas 10 segundos da prorrogação da semifinal da décima edição da Ouro entre o time de Clebão e Rica e Só Resenha, partida que tive não só o prazer de assistir, mas também de filmar (quem quiser conferir, são os primeiros segundos do vídeo abaixo). Veja bem, você demorou mais para ler do que para o lance acontecer.



O termo ‘golden goal’ foi cunhado pela FIFA em 1993, para ser uma forma alternativa à dramática disputa por pênaltis. Na época, discutia-se muito a forma correta de se desempatar um jogo, partindo do princípio que o resultado não poderia ficar nos pés de apenas um atleta (como é na loteria dos pênaltis). Daí foi criada a morte súbita moderna (ainda no século XIX já tinham criado um método semelhante), introduzida nas principais competições internacionais a partir de 1996.

O problema é que o gol de ouro só é bom para quem vence a partida. Durante a morte súbita, a pressão sobre todos os atletas aumenta exponencialmente, e a chance de uma falha acontecer é muito grande (isto incluí o corpo de arbitragem). Ou seja, o jogo é decidido num erro, assim como na disputa por pênaltis.

Naquele ano de 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, o Brasil inteiro sentiu a amarga sensação de perder uma competição por conta de um gol relâmpago. Na semifinal do futebol masculino, aos 3 minutos da morte súbita, Nwankwo Kanu mandou para o fundo das redes após receber uma assistência que explodiu nas costas de um companheiro. Ou seja, de dois erros nasceu o gol da Nigéria: do companheiro que lançou errado e da defesa brasileira que ficou vendida após a bola sobrar nos pés de Kanu.

O gol de ouro foi extinto pela International Football Associoation Board após a Eurocopa de 2004. No entanto, a decisão por gol de ouro faz parte do Chuteira desde sua fundação, em 2006. Só em Série Ouro, das 14 finais até o momento disputadas, 5 foram decididas no gol de ouro – nenhuma chegou às penalidades (aliás, na história do Chuteira, em todas as divisões, só a edição inaugural da Bronze teve vencedor após cobranças de penalidades – o Diabos Negros).

A primeira partida decidida num gol de ouro foi a final da segunda edição do torneio, que ocorreu entre Equipe Bróder e Assurra (ambas extintas, mas com vários jogadores ainda ativos em outras equipes). O gol marcado por Lapa abriu uma tradição que pode se repetir no final de semana: o título decidido na morte súbita.

Um ano depois, na 4ª edição, Acidus e SNG terminaram o tempo regulamentar da final empatados em 3 x 3. Renê (que havia perdido aquela final para o Bróder) se sagrou bicampeão graças ao gol de Allan, em chute de fora de área que sofreu desvio (segue abaixo o vídeo do gol, que ocorre ao 2min35). Passadas mais duas edições, o Kadência também levou o caneco na morte súbita, em cima do Estudiantes de la Vila, com o vigésimo quinto gol de Paulinho Kassab, artilheiro e MVP daquela edição.



O primeiro título do Bengalas ocorreu na mesma condição que o do Kadência. O gol dourado também saiu dos pés do MVP e artilheiro daquela temporada: Ritolê. Aliás, o Bacana, que perdeu aquela decisão ante o Bengalas, chegou a três finais e perdeu as três, sendo duas delas no gol de ouro. A última foi na final da Ouro passada, em dezembro, com o gol do CAV marcado por Vitinho Lessa.

Num piscar de olhos você pode sair vitorioso ou derrotado do gramado. Numa simples falta (alguém viu o gol do TáLigado diante do Camaro no último sábado?) ou num despretensioso passe errado tudo pode mudar, nem sempre de maneira justa. É na morte súbita que os goleiros que salvaram a pátria durante 50 minutos viram vilões. É quando zagueiros que impem tragédias acabam cometendo a oitava falta (e também viram vilões). Sobreviver ao gol de ouro numa final só não é um alívio por conta da disputa por penalidades.

A pergunta feita por milhares de jogadores e torcedores que participaram de uma decisão de morte súbita é: o gol de ouro é justo? A resposta é muito simples. Claro que não é justo, assim como não é justo uma sequência de penalidades. No entanto, caindo no clichê dos comentaristas, o futebol não é um esporte justo desde a sua invenção. Afinal, nem sempre o melhor time ganha. Nem sempre o melhor zagueiro desarma todas as jogadas. Nem sempre o artilheiro faz gol. Nem sempre o mais competente árbitro acerta todas. Justiça de melhor ou pior não faz parte do campo, e sim da expectativa que antecede a disputa.

Portanto, vamos continuar a assistir o drama da decisão por morte súbita/gol de ouro, pois ela faz parte da tradição do campeonato. Quem perde por conta de um gol de ouro não ficaria chateado se tivesse vencido por conta de um gol de ouro. Não se pode vencer todas, como também não se pode perder para sempre. Esperamos que uma dessas quatro finais de sábado possam nos brindar com a tensão e emoção que somente um gol de ouro possui.

PS: Perguntem a qualquer torcedor não diretamente ligado às equipes em campo se gosta de ver uma decisão no gol de ouro...
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