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Douglas Almasi Santos passa, a partir de abril, a assinar nova coluna do Chuteira. Será neste espaço que ele vai filosofar sobre o que a gente mais gosta – futebol. Na coluna Filosobol, nosso articulista levantará questões humanas relacionadas à liga Chuteira de Ouro e o futebol no geral.

Nesta primeira edição, o tema é a proximidade de alguns jogos do Chuteira com o espírito de Copa Libertadores da América, na qual os obstáculos para a vitória não ficam restritos apenas aos jogadores em quadra. Para o colunista, esse tipo de clima traz à partida elementos interessantes, porém, também perigosos. Entenda por que o ‘veneno/remédio’ da frase anterior já se inseriu nas 4 divisões


Quando cheguei para trabalhar no Chuteira de Ouro havia 44 equipes e apenas as divisões Ouro e Prata para contar a história. Não tinha a mais vaga ideia de que em um campeonato amador caberia tanta emoção e comprometimento por parte de jogadores e comandantes dos times. Para mim, tratava-se apenas de brincadeira um pouco mais séria. Só que nos primórdios da minha jornada que perdura até os dias atuais percebi que o lazer ali ia além de um simples jogo de futebol: os jogadores queriam a vitória, queriam se sentir um verdadeiro jogador profissional. Sim, a estrutura da competição (com reportagens e entrevistas) faz mesmo com que o ambiente aos sábados e durante a semana seja similar àquele que encontramos nos noticiários classificados como hard news, ou seja, a notícia como interesse público e factual.

De 2010 (ano da minha estreia no Chuteira) até hoje, muitos conceitos mudaram, muitas equipes mudaram, assim como muitos jogadores também mudaram (e não há ambiguidade em relação à mudança neste caso, já que o termo é referente à passagem dos participantes pela liga e não a comportamento). Só não mudou a rivalidade. Nunca me esqueço de um jogador classificando o Arouca como sendo o ‘Corinthians do Chuteira de Ouro’. Aqui, o autor da frase refere-se ao fato de o time arouquense ser odiado por aproximadamente 80% das equipes mais tradicionais de liga. A rivalidade faz parte do universo futebolístico. Pergunte para alguém do Roleta Russa se há alguma chance de aceitar uma derrota para o Acidus e terá uma resposta nada amistosa.

Só que a rivalidade transforma uma competição. Também transforma algumas situações. O futebol atual é regado à movimentação constante, no qual a velocidade impõe um ritmo alucinante e pode gerar fracasso ao oponente que não estiver concentrado no jogo. Outra transformação é a física: quanto mais virilidade, mais chances de vitória à equipe, já que as divididas são parte importante em uma recuperação de bola. Sim, o jogo mudou. E aqui a questão não é o saudosismo de épocas passadas quando o futebol privilegiava um bom passe, uma boa assistência a gol, um belo drible. O filme ‘Meia-noite em Paris’, de Woddy Allen, suscitou uma questão contemporânea: aproveite o momento e esqueça a síntese de querer trazer o passado ao presente. O futebol de hoje é assim porque sofreu mutação. Ponto.

Os elementos expostos até agora, somados ao fato de a vitória ser o ápice de um planejamento mental no sentido ‘sou um jogador que nem os profissionais’, está trazendo um excesso tanto interessante quanto perigoso. A ambiguidade na frase anterior tem uma explicação simples: a rivalidade e os contatos físicos cada vez mais evidentes estão igualando alguns jogos a um clima de Copa Libertadores da América, onde para ganhar é preciso, além de jogar, passar por obstáculos impostos pela equipe adversária. Em algumas situações assim, a partida pode desafogar em momentos mais hostis, no qual o triunfo vem não somente com a bola no fundo da rede, mas também, com sangue e suor estampados no rosto do jogador que deveria, apenas, divertir-se.

A partida entre Arouca Jrs. e Zenite no dia 23 de março reuniu quase todos os elementos vistos na competição sul-americana mais valiosa aos torcedores. O embate fora realizado em uma das quadras compactas do complexo PlayBall – o que propicia um jogo mais truncado e de marcação acirrada e pesada. A cada bola tomada ou tirada, gritos de satisfação pela ação feita eram ouvidos de longe. A cada chance de gol, uma apreensão geral para saber se a bola transpassaria pelo arqueiro atento a não sofrer o revés. A cada ‘erro’ dos árbitros, uma histeria descontrolada e um festival de palavrões e incompreensões.

O ambiente presente na referida partida também propiciou um jogo digno de Libertadores. Iniciou-se por volta das 15h e contava com um clima cinzento que pairava sobre a região da Pompeia. A torcida se fez presente em bom número. Por parte do Arouquinha, os incentivadores eram compostos mais por jogadores da matriz Arouca; pela parte do Zenite, uma torcida inflamada pelo excelente momento do time dentro da liga. A pressão externa atingia, nitidamente, todos os componentes que faziam o espetáculo. Jogadores, árbitros, mesário e repórter sentiram que o clima era praticamente de guerra.

Ambos os times possuem um elenco com jogadores jovens, muitos com cara de criança ainda. Porém, eles sabiam o que era melhor e, na ocasião, sabiam que para vencer o adversário só se colocasse o pé na bola para dividir como se fosse um beque de fazenda. Sem isso, adeus três pontos. Torcidas inflamadas, céu nublado, elencos jovens, Série Ouro. Pronto, o clima de Libertadores se fez presente. E o embate ainda teve um número razoável de tentos (foram 7, com o placar em 4 x 3 a favor do Zenite) tratando-se da principal divisão do Chuteira de Ouro e referindo-se a um jogo extremamente de alto risco. Naquele momento, os participantes chegaram ao limite entre a razão e a passionalidade. Briga, felizmente, passou longe, pois os dois times queriam simplesmente jogar bola.

Outras partidas estão ficando cada vez mais parecidas com aquilo que o amante do futebol profissional vê na Libertadores. No último sábado aconteceu um dos grandes clássicos do Chuteira de Ouro: Primatas x Arouca. Só de mencionar o confronto já pode sair faísca. Para quem não acompanhou os bastidores durante a semana e nem o duelo em si, vale avisar que a Organização da liga fez todo um trabalho junto aos representantes dos times para que nada extrapolasse a esfera esportiva. Deu certo, pois o único entreveiro se deu no final do jogo por conta de uma atitude feia de um jogador do Arouca. Contudo, essa atitude, que poderia ter sido evitada, teve uma explicação até plausível: a provocação por parte da torcida do Primatas, que fez barulho durante todo o duelo.

O clássico, mesmo com medidas preventivas, não fugiu do clima de Copa Libertadores. Jogadores ansiosos, torcida irascível, árbitros pressionados, marcações pesadas, chuva... Quem participou ou acompanhou o espetáculo não se esquecerá tão cedo de tamanha disposição para alguém sair vitorioso. Só que o caráter de diversão aos sábados, neste caso, pode se esvair tamanho o desejo de contar aos amigos que o rival foi parado por ele ou pelo time dele.

Não sei se esse será o caminho do Chuteira de Ouro. Tomara que não, porque para vencer à base do vale-tudo será preciso transformar o lazer em obrigação e o prazer em antipatia. Também não é condenável que haja uma temperatura quente (e me refiro ao calor da situação, independente se o sol se pôs ou não) dentro de quadra em jogos-chave. O único conceito que não pode ser deixado de lado é a máxima dita sempre que há extrapolação: é apenas uma partida de futebol.
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