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ANÁLISE – Há males que vêm para o bem

           

NQS e Catado decidem título depois de uma queda, cada um a seu momento, ser o combustível para a arrancada gloriosa
Há males que vêm para o bem. Para o NQS, um deles foi a derrota para o Peneira nas quartas de final do torneio passado. Em busca do penta, o time acabou derrotado pela primeira vez num mata-mata de Chuteira e não avançou para a disputa final. O acidente foi corrigido, tanto que a trupe voltou com sangue nos olhos para a edição atual. O penta era questão de honra. Era preciso provar que o melhor time da história do Chuteira continuava ali, pulsando, sedento por conquistas.
 
Daí a atual campanha quase perfeita não ser nenhuma surpresa. Foram 8 vitórias e 1 derrota no “grupo da morte” (a derrota, ao Arouca, pareceu quase uma forma de deixar o rival enfim acabar com o incomodo tabu, pois a rigor nada mudou na trajetória do time). No mata-mata, duas vitórias apertadas, ambas por 3 x 2 (Torce Contra e Guaxupé), com o time tomando sufoco após parecer que ia atropelar. Jogou muito nos minutos iniciais para depois sofrer até o apito final. Que NQS é esse que sofre para ganhar?
 
Pois é, esse NQS poucos conhecem. E é esse NQS que encara o Catado na final da 26ª edição da Ouro. Veja bem, não é o NQS que atropelou na fase de grupos, mas sim o que vence com sofrimento no mata-mata. Daí ser uma disputa muito diferente daquele 8 x 1 que o time enfiou no Catado na 6ª rodada. Porra, é isso mesmo? Sim, o NQS ganhou de 8 x 1 do rival da final, impondo ao time de Interior e Balãotelli a pior derrota de sua história. É humilhação demais?
 
Sim e não. Aquele Catado não é o Catado que está na final. Aquele Catado era um catado desinteressado, tão confiante em si que acreditava que nunca uma hecatombe desse quilate pudesse acontecer. Aquela derrota doeu, e doeu tanto que o time soube usar aquela paulada a seu favor – olha aí outro mal que veio para o bem! É isso mesmo! O Catado amadureceu com aquele jogo! Apanhou e viu que se os meninos levados e mimados quisessem ser homens crescidos e sérios, era preciso mudar de postura. Afinal, você já viu meninos mimados serem campeões pra valer?
 
Não estou a levantar a questão de separar meninos de homens, longe de cair no clichê, mas sim a colocar que as derrotas, as nossas quedas, é que fazem o homem; quem não aprende com elas segue derrotado. Na real, aquele revés ante o NQS foi só o chacoalhão, a colocar os meninos em seu devido lugar. “Quem são vocês na Série Ouro? Porra nenhuma, meu chapa! Não vão ser campeões aqui achando que vão atropelar todo mundo como fizeram na Bronze e na Prata. Ouro o buraco é mais embaixo!”
 
O 8 x 1 foi isso aí, uma derrota a cravar no lombo a chaga do esnobismo, quase um furo na carne com o próprio salto alto. Só que a derrota que virou a chave foi outra, meus caros, foi aquela diante do Guaxupé, na rodada final de classificação. Não foi o futebol em si, mas o que estava em jogo. A derrota deixou o Catado, pela primeira vez, fora do controle de seu destino na competição! Após o 3 x 2 contra, a maior parte do elenco ficou para torcer pelo Torce Contra ante o Morada Choque para enfim poder respirar aliviado e dentro do G-6! O fato era: se o Morada vencesse, o Catado daria adeus. O jogo acabou empatado em 1 x 1, e Interior, Luan e cia. puderam soltar o ar preso. Mas respiraram com o tom de quem sabia não ser merecedor.
 
A queda é boa quando ensina algo. Ali o Catado aprendeu, resolveu lavar a roupa suja ao invés de jogar para debaixo da cama e ir amontoando. Decidiu enfrentar seus fantasmas internos e não deixá-los atormentar na hora do jogo. Quem não se lembra de Interior e Ronaldo quase saindo na mão e sendo expulsos após discussão ríspida no banco de reservas num dos jogos da fase de grupos??? São coisas inadmissíveis num time que busca o topo. Era preciso sentar e se resolver. Divã mesmo, se necessário.
 
Se a coisa ficou bem resolvida de verdade, só eles sabem. Balãotelli chamou a responsabilidade e, mesmo machucado e sem jogar, assim como e junto a Thomas, colocou pingos nos is. Murillinho assumiu o papel de xerife atrás e se superou em atuações seguidas beirando a perfeição. João mostrou que seu estilo silencioso nada mais era que concentração e foco, essenciais para classificar seu time ante o Mulekes – e não só na disputa de shoot outs. O Catado do mata-mata virou a chave e se transformou em outro time, mais pé no chão, ciente de que a eliminação estava dançando no horizonte e podia cair-lhe no colo se o time assim o deixasse. Daí a enorme vontade e dedicação que se viu ante Abre o Olho, Mulekes e Wake ‘n’ Bake, o que deu à equipe um ar de superação nunca visto antes. Sabe por quê? Por que enfim o Catado descobriu que, na Ouro, se você não tiver técnica, humildade e correr muito simplesmente não avança!
 
E como correu e se dedicou esse Catado!! Com muitos desfalques, o grupo se fechou e colocou seus mantras: pés no chão, humildade, marcação e efetividade no ataque! Nunca se viu o Catado atacar tão pouco quanto nesses playoffs! Sabe aquele Catado poderoso no ataque, a arrebentar adversários na Aço, Bronze e Prata? Esqueça! O Catado de hoje foca na defesa com todos seus jogadores! Mesmo os habilidosos do ataque (Interior, Ronaldo, Dudu) estão correndo pra trás! O Catado cresceu porque sabe que se não correr pra trás vai ficar pelo caminho!
 
É esse Catado que encara o NQS nessa final. É claro que o NQS é favorito, muito favorito. O elenco é mais qualificado e tem jogadores muito mais tarimbados, acostumados a jogar finais e decidir jogos. Tem Andreas, o jogador mais letal do f7 atual, um jato que quando aperta o botão deixa todo mundo para trás. Andreas é o artilheiro da competição com 12 gols e tem tudo para sair com o troféu (Paulinho soma 11 e Tuco, 10, ambos do NQS). Aliás, interessante ver que no Top 5 Artilheiros do semestre três deles são do NQS. Na 1ª fase, o time balançou as redes 46 vezes (média de pouco mais de 5 gols por jogo). Além disso, foi a melhor defesa disparada, tendo sofrido 16 gols em 9 jogos!
 
Com o mata-mata, a coisa muda de figura. Como já dito, foram dois 3 x 2, com o time bombardeado e Tinho saindo como melhor em quadra nas duas oportunidades. Sinal dos tempos? Ou meramente um detalhe, já que ao fim quem comemora é sempre eles, com vítima e tudo? Aliás, qual vai ser a vítima?

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